Sobre amor

Por Ana de Castro.

Foto: Abner Almeida.

– Oito horas, então?

– Oito horas.

E então o barulho do telefone sendo desligado. E a ansiedade saiu da linha e subiu pelo braço, indo se transformar naquele aperto maldito no peito. Eram cinco horas e os pássaros já faziam o seu espetáculo de encerramento do dia.

Seis e meia. Ainda uma hora e meia de angústia, suor, tremedeira e pernas moles. Já era hora de se arrumar.

Um banho quente, demorado. A melhor roupa (aquele vestido preto, curto e decotado, jaqueta leve, afinal já está friozinho). O perfume suave e sutil, marcante (“é o favorito”). A maquiagem, quase inexistente, realçou os olhos. Sete e meia.

Comeu uma fruta, uma pera; depois uma fatia de pão e um copo de leite. As dez para as oito a campainha tocou. Correu, abriu um sorriso mágico: “você chegou cedo…”. “Saudade, me fez vir depressa.”.

Ela trancou a casa apressada. Desceram juntos as escadas. Já ao portão ele pegou sua mão. Deram-se os braços e foram caminhando devagar pelas ruas movimentadas do centro de Espera Feliz. Havia muita gente passeando e curtindo o friozinho que o mês de maio já traz para a cidade. Conversavam sobre qualquer coisa sem nexo e riam de tudo que não tinha graça. A fonte da Praça da Bandeira estava ativa e havia crianças correndo por todos os lados. As lojas, já fechadas, refletiam os dois em suas vitrines e ele a admirava a cada vez que a via nelas. Sentaram-se por alguns minutos na escadaria da praça da Igreja Matriz, florida com suas quaresmeiras temporãs, e observaram as pessoas que passavam lá em baixo sem sequer notar a presença deles.

Chegaram ao local de sempre. Era uma quitinete no centro da cidade, aconchegante. Eles entraram, ela trancou a porta e, ao se virar, foi surpreendida por um beijo ardente. Logo foi lançada sobre a grande cama que rangeu em sua madeira velha.

Ele a explorava com as pontas dos dedos em todos os centímetros de seu corpo, enquanto ela suspirava e, lentamente, tirava as roupas dele. Ele só precisou baixar o zíper do vestido dela e deixar que seus corpos se guiassem.

Então, completamente nus, os toques e carícias foram se tornando mais intensos, fortes, os suspiros cada vez mais rápidos e ofegantes e altos.

E os sussurros se transformaram em gemidos de prazer que se misturavam ao suor: mãos, bocas, pernas se confundindo em movimentos loucos, fortes, intensos. Os olhos em perfeita sintonia e ela via toda sua felicidade passando na luz daquele olhar e no calor daqueles lábios e ambos sabiam ser aquele o amor da sua vida. Até que tudo explodiu em prazer e êxtase, no cravar das unhas no colchão.

Abraçaram-se, aquietaram-se, recolheram e vestiram as roupas abandonadas pelo chão do quarto. Fecharam a quitinete e, abraçados, ele a acompanhou até sua casa. Calados, apenas se sentindo, e com as almas sorridentes, respirando fundo. À porta da casa dela, perto da antiga estação de trem, ele beijou sua fronte e se foi. Ela subiu as escadas, entrou, foi deitar-se feliz, na esperança de que, no dia seguinte, o telefone tocasse outra vez.

SOBRE A AUTORA

Ana de Castro é manhuaçuense de nascença e esperafelicense de coração. Professora por formação, escritora por ocasião e bruxa por vocação. Romântica incurável, louca dos gatos, capricorniana, sonhadora, na busca de ser sempre o melhor de si. Vive em Espera Feliz já há alguns anos.

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