O batom vermelho

Por Amanda Gerardel.

Foto: Abner Almeida.

Maria se levantou mais debilitada que o normal, naquele domingo frio, seus passos eram vagarosos e o peso da idade atrapalhava o caminhar. Dirigiu-se até a cozinha, fez um café fresco, cortou uma fatia de queijo e se sentou frente à porta dos fundos de casa, que dava vista a grandes colinas, onde o sol acariciava suavemente as gotas de orvalho que cobriam a vegetação.

Com olhos vagarosos Maria olhava cada detalhe, cada pedaço de terra, aquela terra que anos atrás serviu como espaço de felicidade nas brincadeiras do filho, a terra que alimentou por anos sua família, e em tempos mais distantes, entre aquelas árvores, a terra que se tornou confidente de sua história de amor.

Enquanto divagava seus pensamentos, não viu que Augusto também acordara e estava agora parado à suas costas, olhando sua mãe com olhos interrogadores.

Quando se virou para dentro de casa, viu que Augusto já estava de pé, então fez um gesto para que ele se sentasse a seu lado na porta. Mal Augusto se sentou, Maria se pôs a cantar, uma melodia baixa e leve, que o fez lembrar de sua infância, de quando era embalado pelo colo de mãe quando o medo era maior que o sono.

Maria foi parando seu canto aos poucos, à medida que ia colocando para fora as lembranças que aquela música lhe trazia.

– Augusto, seu pai nunca me amou.

– Como assim, mãe?

– Ele me deixou com ocê na barriga ainda, eu nem tinha pra onde ir.

– E como a senhora se virou?

– Seu pai era rico, dono da fábrica de sabão, e eu só mais uma pobre que trabalhava a troco do pão. Menina nova, bonita, tinha as anca de paridera, todos os homens cantava quando eu passava, atirava o chapéu no chão. Minha mãe se enchia de orgulho, meu pai ficava a ponto de matar um. Mas seu pai, ele nem me via, eu era só mais uma pobre trabalhando a troco de pão.

– Mãe, a senhora nunca me contou sobre isso. Quem é meu pai?

– Pois eu num tô falando? Seu pai era o Seu Juarez Quintão, homem bonito, imponente, inteligentíssimo, é dele que ocê puxou essa cabeça boa pros estudo, porque sua mãe, meu filho, nunca aprendeu a ler.

– Se meu pai era o Juarez, como a senhora se relacionou com ele, mãe?

– Eu era muito bonita, Augusto. Ficava naquelas caldera, mexendo o sabão, os home ficava tudo olhando, admirando minha beleza. Eu cantava e todo mundo aplaudia. Seu pai ficava só de longe, fumando o cigarro e me olhando como que ia me comer com os zói. Teve um dia que ele me levou uma caixa de bombom, ahh eu adoro chocolate, ocê sabe né, Augusto. Ele me levou o chocolate e disse que era pra eu levar a outra caixa pra minha mãe dividir com meus irmão. Eu perguntei pra ele porque tava me dando a caixa e ele só riu. Lembro como se fosse ontem. Cada dia que passava ele ia me cercando, levando presentinho, perguntando se eu tava bem, espantando os menino que me via mexer o sabão.

– Mas a senhora não disse que ele não te notava?

– Ele num me notava mesmo não, Augusto, ele só queria o que todos os homem queria.

Teve um dia, na festa junina, eu tava tão linda de batom vermelho, ocê sabe como gosto de um batom vermelho. Meu cabelo ainda era loiro, grande. Eu tava lá dançando um forró com o Jonas, era com ele que eu ia me casar, já tava prometido e tudo, meu pai fazia muito gosto. Eu tava dançando toda feliz e ele chegou, todo pomposo, com aquele terno, aquele chapéu, era tão cheiroso que dava pra sentir de longe.

Ninguém entendeu porque o patrão tava naquela festa de pobre, num tinha nenhum dos dele lá e mesmo assim ele tava lá, dançando e rindo com aqueles dente branco igual ao seu. Eu ficava admirada, vendo aquele homão alto dançando como se fosse um de nóis, e o Jonas ficou bravo comigo, disse que eu tava me engraçando pra cima do patrão. Eu nem ouvia o que o Jonas falava, tava é embasbacada com o Seu Juarez no meio de nóis.

Na hora que eu sentei pra descansar, o Jonas foi embora porque tava enciumado e eu fiquei lá, é ruim que ia embora por causa de ciúme.

Eu sentei na mesinha, distraída, seu pai chegou com um quentão e me entregou, disse que era pra matar minha sede. Eu bebi num gole, aquilo me queimô inteirinha, e eu olhava pro seu pai e sentia um fogo vindo que só Jesus!

– Mãe, ahaha, essa parte a senhora pode pular.

– Deixa de ser besta, menino! Nóis só dançamo aquela noite, dançamo e rimo muito. Seu pai sabia ser interessante. No final da noite ele insistiu em me trazer de carro, deixei que ele me levasse só até o pé do morro da Canoa, não queria que meu pai me visse chegando com outro homem e naquela hora da noite o Jonas já tava babando de dormir. Depois daquele dia a gente virô amigo, seu pai passô a ir nos forró que eu ia, e eu acabei terminando com o Jonas, porque não podia ficar namorando ele enquanto gostava de outro. Seu pai começô a vir aqui em casa, conquistô meu pai e minha mãe e começamo a dar uns beijo, logo esses beijo foi ficando quente e com menos de três mês que a gente tava namorando, seu pai levou minha virgindade. Eu não me importei na época porque sabia que ia me casar com ele. Ele pediu permissão aos meus pais, e eles estavam todos felizes que a filha pobre e burra ia se amarrá no homem mais rico da cidade. Mas a minha alegria logo foi acabando, quando eu vi que tava se engraçando pra Clara, pra Josélia, pra Rita e pra todas as mulher que ainda tinha um cabaço. Cada dia que passava ele me tratava pior, já num levava bombom mais, ia no forró quando não tinha nada melhor, e começô a ficar agressivo, gritava comigo e teve um dia que me deu um tapa na cara. Aí um dia chegô na cidade uns francês, e tinha uma mulher com eles, linda e de nariz empinado, todo mundo começô a falar que aquela era noiva dele, e começaram a comentar que ele tava indo embora com ela e vendendo a fábrica. Eu chorei muito, meu filho, chorei de doer a cabeça, nessa época já tava buchuda docê e não sabia. Ele foi embora, vendeu a fábrica e eu fiquei desempregada. Logo depois descobri que ia ter ocê, seu avô quase morreu de decepção e sua avó ficô de cama, me colocaram pra fora de casa e eu vim morar nesse sítio, de favor, pra cuidá da velha que morava aqui. Quando as coisa apertava, eu colocava ocê debaixo do braço e ia pra rua catá latinha. Os outro me chama de doida, porque gosto de usá meu batom vermelho, mas quem num é doido nessa vida?! E quem nunca ficou doido por amor, um dia ainda vai ficar.

E no fim dessa frase, Maria voltou a cantar sua cantiga lenta e triste, já sem perceber que Augusto chorava como uma criança. Afinal, era de seu pai que ela falava ou era somente mais um de seus delírios?

Sobre a autora:

Amanda Gerardel, 25 anos, nascida e residente da cidade de Espera Feliz.
É professora de Língua Espanhola e Educação Especial no Colégio Portal do Saber.
Estudante de Letras e mãe. Amante de bons livros e de filmes de terror.

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