Farley Rocha

Este é um artigo ou crônica pessoal de Farley Rocha.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

Meandros Abandonados: os rios fossilizados do Caparaó (capítulo II)

Considerando que os assentamentos humanos sempre estiveram associados a cursos d’água, nossos antigos canais fluviais talvez guardem importantes sítios arqueológicos capazes de remontar a cronologia local.

Publicado em 09/02/2022 - 16:52    |    Última atualização: 09/02/2022 - 16:52
 

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Lavoura arcaica: plantio e criação de gado entre as curvas dos rios

Se os meandros abandonados alagadiços são mananciais multitudinários para a vida animal, aqueles que se preservam secos, no entanto, são Jardins do Éden para o reino vegetal.

(Área de plantio de milho próximo aos meandros abandonados – Comunidade do Boiadeiro)
(O mesmo local em panorâmica)
 

A partir do neolítico, quando a agricultura redefiniu o conceito de desenvolvimento humano, a experiência egípcia foi parte fundamental desta virada de chave evolutiva. 3.000 anos antes de Cristo, os egípcios compreenderam que as inundações intermitentes do Nilo em direção ao Mediterrâneo, provocadas por chuvas e degelo em suas nascentes na África profunda, enriquecia o solo das margens com uma espessa camada de sedimento orgânico depositada pelo fluxo caudaloso do rio. Ali, a agricultura praticada em larga escala servia não só para sustentar nobres e plebeus como também para alavancar a economia do Oriente Médio, alçando o velho Egito ao seu lendário apogeu.

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Resguardadas as diferenças de tamanho, importância e localização geográfica, tanto o rio São João quanto o rio Preto fazem lembrar dois pequenos Nilos que brotam da Serra do Caparaó, como se trouxessem na memória das águas o mesmo sentido hereditário da fertilização. Embora não tenham feito florescer civilizações complexas como aquelas do deserto – quando muito nebulosas aldeias indígenas que se quer temos pistas de sua existência – nem tenham inspirado monumentos eternos como obeliscos e pirâmides – quando muito taperas de palha onde dormiam os aborígenes – ambos exerceram, como ainda exercem, vital importância para a agricultura e agropecuária locais.

(Cinturão de meandros abandonados da Vargem Alegre)

Em sua maioria, os meandros abandonados da zona rural de Espera Feliz possuem duas utilidades para quem vive da terra: servem tanto como áreas de plantio quanto para campos de pastagem. Nas imediações de São Sebastião da Barra, por exemplo, há inúmeros rebanhos em cativeiros geométricos de arame farpado dissipados nas pradarias por onde o São João se arrasta. Ou, de quando em quando, protegidas por cercas de fios de aço, vê-se as capineiras que alimentam o mesmo gado quando confinado nos currais para a retirada do leite ou parindo bezerros. Já nas extensas baixadas da Vargem Alegre e do Vale do Paraíso, embora também se criem bois, cabritos e outros ruminantes, a maior parte das planícies do rio Preto é utilizada para o cultivo de hortaliças, legumes e grãos que abastecem diariamente as feiras de Espera Feliz e de cidades vizinhas.

De acordo com o professor Valcy Faria, proprietário de terras na região da Vargem Alegre, a dragagem do rio Preto, realizada em 1971, ampliou consideravelmente as áreas de plantio. “O objetivo era evitar as constantes enchentes provocadas pelas curvas do rio e aproveitar as várzeas para o cultivo de batata, inhame, arroz, cebola, tomate, feijão e milho”, afirma o professor. Como o rio serve de fronteira natural entre os estados de Minas Gerais e Espírito Santo, além de demarcar a divisa das propriedades particulares, a transposição do leito não foi uma tarefa simples. “Vários acordos tiveram que ser feitos para que ambos os lados não ficassem com terras a mais ou a menos”, revela Valcy.

(Rio Preto retificado após a dragagem, em 1971)

Consequentemente, a mudança do curso do rio Preto, embora ocorrida de forma artificial, contribuiu para que as terras antes submersas – tanto entre os meandros quanto pelas sucessivas cheias – ficassem enriquecidas pelo húmus proveniente da matéria orgânica sedimentada pelas antigas correntes. Conforme define a engenheira agrônoma Katia Beltrame, formada pela Escola Superior de Agricultura da Universidade de São Paulo, húmus é a substância obtida através da ação de microorganismos que se alimentam de resíduos orgânicos presentes no solo como palha, folhas, gravetos, estercos, insetos e outros animais em decomposição. “O húmus desencadeia efeitos químicos, físicos e microbianos extremamente importantes para o desenvolvimento das plantas”, explica a engenheira.

Como mostra da riqueza daquelas terras, os moradores mais antigos de Espera Feliz relembram que até por volta da década de 1980 realizava-se no município a “Festa da Cebola” – substituída pela atual “Exposição Agropecuária” –, que celebrava a farta colheita do vegetal cultivado majoritariamente nas planícies da Vargem Alegre. Por outro lado, a partir das imagens aéreas é possível constatar que nas várzeas destinadas à criação de gado, especialmente na região de São Sebastião da Barra, o capim verdejante é bem mais destacado do que o que nasce nas encostas dos morros.

(Pastagem em meandro abandonado em São Sebastião da Barra

Por esse motivo, os antigos canais que descrevem geoglifoscirculares quando vistos de cima desempenham papel fundamental, pois o resultado desse laborioso dinamismo fluvial do passado foi a fertilização abundante do solo. Isto é, enquanto o rio Nilo, 5.000 anos atrás, transbordava sobre o deserto a lama primordial das entranhas da África, o São João e o Preto deixavam nos meandros abandonados os resíduos que hoje fecundam nossas lavouras e pastagens.

(Agricultura e pecuária nos meandros abandonados)

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Sertões do leste: uma jornada histórica pelos rios do Caparaó

(Mata Atlântica no sudeste do Brasil)

Devido à carência de pesquisas e à escassez de documentos, boa parte da história de Espera Feliz se mantém incógnita, restringida a poucos e imprecisos relatos orais. Mas os rios que banham o município podem trazer à tona elementos desse passado submerso em mistério. Considerando que os assentamentos humanos sempre estiveram associados a cursos d’água, nossos antigos canais fluviais talvez guardem importantes sítios arqueológicos capazes de remontar a cronologia local, desde a composição da fauna pré-histórica, passando por ocupações indígenas, até a incursão dos primeiros desbravadores e colonos que conquistaram a região.

Segundo estudiosos, o povoamento da Serra do Caparaó é bastante recente, como indicam os raros registros feitos a partir do início do século XIX. No entanto, como propõe o professor Wellington Silveira, graduado em História pela Universidade do Estado de Minas Gerais, se pesquisar a fundo é possível descobrir que a chegada do homem branco tenha ocorrido bem antes da datação que se tem como oficial. “Por isso, acredito que esses meandros abandonados possam estar cobrindo muitos achados arqueológicos”, afirma o historiador.

Tal afirmação se baseia no fato de que a região sempre foi acometida por enchentes. Certamente, essas grandes inundações do passado podem ter arrastado diversos objetos de antigos moradores, depositando-os no subsolo dos leitos atualmente secos. “Não é de hoje que nossos rios enchem e acabam levando muita coisa com eles. Imagino que na formação dessas curvas devem ter muitos registros que foram embora com as enchentes”, explica o professor.

Seguindo esse raciocínio, é possível retroceder ainda mais no tempo, ao supor que os meandros abandonados do rio São João e do rio Preto talvez abriguem, abaixo da sedimentação acumulada, artefatos que remontem a milhares de anos. De acordo com paleontólogos, que há décadas vêm pesquisando os primórdios do solo mineiro, diversas escavações já revelaram fósseis de animais que se extinguiram no final da última era do gelo, como a preguiça-gigante de Lagoa Santa e os mastodontes de Araxá, exemplares da chamada “megafauna” que habitou a América do Sul há mais de dez mil anos. No caso da Serra do Caparaó, não há evidências concretas se esses animais também viveram por aqui. Mas se forem realizadas escavações nas áreas dos meandros abandonados, é muito provável que se encontrem vestígios preservados de uma fauna pré-histórica local, como fósseis de peixes, crustáceos de água doce, insetos marinhos, mamíferos e répteis que já não existem mais.

A mesma lógica também se aplica aos primeiros seres humanos que povoaram a região séculos atrás. De acordo com o livro “Indígenas de Minas Gerais: aspectos sociais, políticos e etnológicos”, publicado em 1965 por um dos pioneiros nos estudos indigenistas no estado Oiliam José, a presença nativa se desdobrou em diversas etnias disseminadas de norte a sul no território mineiro. Embora suas pesquisas deem foco às tribos que haviam nas áreas centrais de Minas, em função do garimpo nos anos de 1700, o autor destaca pelo menos duas grandes etnias que proliferaram na região hoje denominada Zona da Mata: os Puris e os Coroados, genericamente chamados de Botocudos.

(Índios Botocudos)
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Segundo o autor, os Botocudos – em referência ao ornamento de madeira e pedra usado nas orelhas e no lábio inferior cujo nome era “botoque” – eram índios de feições robustas e caráter rebelde, extremamente resistentes às invasões do homem branco. Com o avanço territorial dos exploradores entre os séculos XVIII e XIX, as tribos foram se confinando cada vez mais a leste da província, o que sugere que uma de suas últimas escalas antes de serem totalmente dizimados, foi exatamente a região montanhosa da Serra do Caparaó, uma vez que o litoral capixaba já vinha sendo ocupado pelos europeus desde os tempos do descobrimento.

Especificamente no município de Espera Feliz e adjacências, a ausência de pinturas rupestres, cacos de cerâmica ou armas e ferramentas rudimentares dificulta a comprovação se esses povos chegaram a habitar a região, embora recentes descobertas de sítios arqueológicos na zona rural de Carangola e Manhumirim apontem que sim. No entanto, isso não significa que as cordilheiras do Caparaó não tenham sido percorridas como rota migratória por agrupamentos antigos que se deslocavam entre o litoral e o interior da capitania. Por isso, se os meandros abandonados forem sondados por antropólogos e arqueólogos, é bem provável que sejam encontrados artefatos de origem primitiva, como fragmentos de canoa, tigelas de barro, pontas de flecha, machadinhas de pedra e até mesmo restos mortais, já que os rios São João e Preto podem ter sido navegados, ou servido de base para acampamento e local de pesca, por diferentes tribos de épocas remotas.

Por fim, avançando um pouco mais no tempo, chega-se ao limiar da colonização da serra, quando aventureiros, exploradores, fazendeiros e escravizados desbravaram as terras selvagens do Caparaó. De acordo com o professor Patrício A. S. Carneiro, doutor em Geografia pela Universidade Federal de Minas Gerais, em seu trabalho “Conquista e Povoamento de uma Fronteira”, o processo de ocupação da Zona da Mata está atrelado ao Ciclo do Ouro e ao trajeto da Estrada Real. Segundo o professor, por determinação da Coroa Portuguesa a exploração da área além das minas, até o final do século XVIII, era totalmente vedada. A restrição visava combater os descaminhos do ouro, já que toda a região, constituída por densas florestas, indígenas hostis e montanhas intransponíveis, funcionava como barreira natural entre as jazidas e o oceano Atlântico. “No leste da capitania mineira, onde se insere a atual região da Zona da Mata, as faixas orientais de Vila Rica formavam um espaço genericamente conhecido como áreas proibidas ou sertão do leste”, explica o geógrafo.

(Sertões do leste em gravura do século XIX)

Somente com o declínio da extração dos minerais preciosos é que houve a liberação gradativa dessas áreas proibidas, no início dos anos de 1800. Como alternativa econômica para os ex-mineradores, terras foram concedidas, através de sesmarias, à diversas famílias que adentravam cada vez mais no sertão, derrubando matas, construindo estradas e instalando fazendas para atividades agrícolas, em especial o cultivo de café. Foi por esse período que as encostas geladas do Caparaó começaram a ser povoadas. Como muitos dos assentamentos ocorreram próximos aos rios, não seria exagero imaginar que objetos antigos pertencentes a esses primeiros colonos permaneçam até hoje soterrados nas várzeas devido às enchentes do passado, conforme supõe o professor Wellington Silveira.

Por outro lado, a tese de que a incursão do homem branco na região antecede os registros históricos oficiais também faz muito sentido. De acordo com o professor Patrício A. S. Carneiro, o extravio do ouro era uma preocupação constante da Colônia, cujo escoamento do garimpo só era permitido através da Estrada Real (ou Caminho Novo), onde haviam postos para o recolhimento de tributos. No entanto, as “áreas proibidas” não intimidavam a ação dos contrabandistas, que utilizavam o território desconhecido das matas para acessar o litoral do Espírito Santo. “Apesar da restrição normativa [imposta pela Coroa] e da condição de barreira que o mato denso podia desempenhar para conter o contrabando do ouro, somada à presença do indígena que o habitava, os sertões do leste em particular não estiveram rigorosamente intactos durante o século XVIII”, explica Carneiro.

Desse modo, é bem possível que 300 anos atrás centenas de aventureiros tenham atravessado a Serra do Caparaó, e que desses périplos em terras selvagens tenham resultado as picadas que, mais tarde, serviriam para mapear a rota de tropeiros, viajantes e pioneiros que fundaram as diversas cidades que há na região atualmente.

Tal suposição talvez se comprove caso hajam, no futuro, estudos sobre as áreas desses braços mortos. Provavelmente, esses expedicionários clandestinos deixaram vestígios de sua passagem remota pelos lugares onde pernoitavam e caçavam, em geral nas margens de rios e córregos. Se forem feitas escavações nos antigos leitos secos dos rios São João e Preto poderão ser encontrados objetos como facas, fivelas, bússolas, lunetas, espingardas, cartuchos e alforges de couro, já que uma jornada de vários meses embrenhados na mata hostil demandaria equipamentos como armas de fogo para se defenderem de nativos e feras, e instrumentos de navegação para se guiarem no labirinto de montanhas e vales.

(Desbravadores da Zona da Mata)

É por isso que os meandros abandonados de Espera Feliz despertam tanto fascínio. Pois muito além do fenômeno geológico de suas origens, e de sua importância vital para o equilíbrio do meio ambiente e da agricultura, essas formações curiosas são verdadeiros registros do tempo, inscrições forjadas pela natureza que nos permitem ler o passado nas linhas tortas dos rios fossilizados.

Por Farley Rocha.

Sobre Farley Rocha

Farley Rocha é professor, fã do Radiohead e do Seu Madruga. Já plantou uma árvore, escreveu um livro e edita o blog http://palavraleste.blogspot.com


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