Pricila Magro

Este é um artigo ou crônica pessoal de Pricila Magro.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

O que a enchente arrancou de nós?

Alguns objetos estavam ali ocupando um espaço desnecessário e demandando uma energia inútil de nós.

Publicado em 07/02/2020 - 20:20    |    Última atualização: 07/02/2020 - 20:20
 

Criada e crescida na zona rural de Espera Feliz, sempre estudei na cidade. Nos dias de chuva saía de casa com sacolas nos calçados para que não acumulasse terra ali. Deus me livre se embaixo da minha carteira formasse torrões de lama seca desagarrados das solas dos pés. Meu dia seria um inferno de zoações.

Sofri muito bullying numa época em que ele nem tinha esse nome.

“Dá roça”, essa era eu.

Nos primeiros anos escolares carreguei uma vergonha escondida. Ainda não tinha a maturidade para perceber e me orgulhar das minhas origens, o que só fui aprendendo mais tarde.

Há alguns dias acordei e descobri que a minha cidade estava submersa, Espera Feliz tinha sido atingida pela maior enchente da sua história, nada seria como antes, ninguém aqui seria igual.

De lá pra cá tivemos a oportunidade de experimentar e vivenciar a realidade humana de forma nua e crua, tanto seu lado bom quanto o pior lado de nós. Ouvi relatos de solidariedade e de crueldade, ambos de arrepiar a pele.

Vi casas se reciclando, jogando fora e separando o desnecessário do essencial. Quantos objetos inúteis carregamos pela vida sem motivo algum? Quanta coisa ocupando espaço sem necessidade e que só agora lavando a lama descobrimos que não nos fazia falta, mas que o apego não nos permitiu jogá-los fora? Alguns objetos estavam ali ocupando um espaço desnecessário e demandando uma energia inútil de nós.

Do mesmo modo, e muito mais profundo, preconceitos estão sendo arrancados junto com o barro, de uma forma dolorosa, nos fazendo repensar sobre quantas vezes repetimos comportamentos de segregação que agora caem por terra e vão embora com a água da limpeza.

A zona rural veio para a cidade…

E é de lá que tem vindo a água que parte da população da cidade limpa suas casas. É das suas minas que a água potável molha a boca seca de quem passou o dia trabalhando. É de lá que as verduras, frutas e legumes vêm matando a fome de um povo que perdeu tudo. E das mãos calejadas dos produtores rurais que a cidade tem recebido ajuda. Hoje mais do que nunca eu tenho orgulho de dizer: “Dá roça”, essa sou eu e meus familiares também!

Por Pricila Magro.

Sobre Pricila Magro

Pricila Magro é bacharela em Direito por escolha; professora por vocação. Desde os 15, não sabe gostar de outra banda senão Coldplay. Escreve por prazer, lê porque acredita que essa é a melhor forma de nos humanizar. A filha mais nova que não é nem meiga nem fofa. Sincera demais para os padrões "mimimi".


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