Mara Rubia

Este é um artigo ou crônica pessoal de Mara Rubia.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

A primeira vez a gente nunca esquece – beijo

E foi do jeito que eu queria, a não ser pela plateia!

Publicado em 08/01/2021 - 13:33    |    Última atualização: 08/01/2021 - 13:34
 

Eu fui a última do meu grupinho de amigas a dar o tão esperado primeiro beijo. É que, naquela época, pra beijar tinha que ir no final da rua, um lugarzinho meio escuro, nada convidativo e que me parecia cheio de pecado (eu era uma mocinha da igreja, só para lembrar). Então, beijar atrás de rua não era uma boa opção. Mas, óbvio que queria dar meu primeiro beijo, de preferência em alguém desconhecido, que eu nunca mais fosse ver, que não teria como me dizer se fiz certo ou errado. Desejo projetado para o universo, desejo cumprido.

Quando eu estava na sétima série (atual oitavo ano), minha escola estava participando do ENCAPA – Encontro de Adolescentes em Prevenção à Aids, um evento organizado para as escolas municipais de Cubatão. Foram escolhidos alguns representantes das várias escolas de lá e, entre eles, euzinha – que nunca tinha beijado, mas precisava saber como me proteger nas relações sexuais.

Imagine um lugar cheio de adolescentes – uns 300 – para um dia cheio de conversas sobre sexo – e prevenção. Pois é! É claro que fomos acompanhados pelos professores, né!? Oras!

Várias oficinas para fazer e conhecimentos para adquirir.

Minha amiga – mui amiga – era uma das responsáveis pelo estande da nossa escola, por isso, ela participou da organização do evento e já conhecia mais gente dali, os outros adolescentes organizadores. Quando nos aproximamos dos estandes, ela logo nos chamou e nos apresentou alguns colegas que tinha feito. Três beijinhos pra cá, três beijinhos pra lá – na bochecha, claro –, e seguimos com aquele dia agitado.

Calma que o beijo de verdade vai chegar!

À tardinha, num momento de descanso, todos os muitos adolescentes presentes estavam reunidos num pátio grande. Momento de descontração, bate-papo e tal. Um adulto, contratado para nos animar, resolveu fazer uma dinâmica – nunca gostei de dinâmicas. Entre as gracinhas que ele nos propunha, teve tipo um “correio elegante”. Óbvio que a caixinha do correio elegante ficou lotada. Depois de um tempo, ele foi ler algumas mensagens.

Eis que eu, sentada em cima de uma carteira, ao lado da minha professora, no canto do pátio, totalmente anônima e alheia, recebi um bilhetinho. O infeliz do adulto animador de adolescentes lia tudo no microfone, em alto e bom som.

– Mara Rubia. Quem é Mara Rubia?

Pausa dramática para a minha timidez aos treze anos.

É claro que o pessoal da minha escola gritou e me apontou.

– “Mara Rubia, sabia que te amo?” – ele leu com voz de locutor – Olha, tem gente apaixonado aqui, mas não se identificou.

Tudo bem, eu sabia quem era. Um menino da oitava série. Eu gostava dele, na quinta, na sexta, mas na sétima deixei de gostar, porque gostar sozinha não é legal. Foi quando ele começou a gostar de mim. Dá pra crer!? Daí, ele começou a mandar cartões com a frase “Sabia que te amo?”. Tarde demais, mocinho.

Depois de alguns outros bilhetinhos lidos, escutei meu nome novamente. Putz grila!

– De Mara Rubia para Kadu.

Primeiramente, eu não tinha escrito nenhuma mensagem. Segundamente, quem era Kadu?

– “Gostei muito de te conhecer, acho que rolou um clima” – terminou de ler o carinha com voz de locutor.

Se no primeiro correio elegante eu fiquei tímida, nesse eu não consigo nem descrever como eu queria me esconder. Até porque era uma grande mentira.

– Fui eu que escrevi – disse baixinho, e rindo, aquela minha mui amiga. Ela tinha me apresentado o tal do Kadu, nos estandes.

– A Mara Rubia já sabemos quem é. Agora, quem é o Kadu? – incentivou o adulto responsável.

O garoto estava do lado oposto ao que eu estava. É sério! Entre mim e ele, um mar de adolescentes sentados no chão. Claro que começou todo um rebuliço frenético típico da maturidade da faixa etária.

E, de repente, como que numa releitura da passagem bíblica, Kadu se levantou e uma onda de adolescentes gritando “beija, beija” foi para um lado e outra onda, ecoando o “beija, beija”, para o outro lado, abrindo a travessia e possibilitando que ele chegasse à margem contrária. E ele estava vindo na minha direção. E eu não sabia beijar. E tinha muita gente para assistir. E eu era o tipo de aluna que sentava na frente e nunca tinha bolado aula, e minha professora estava ali, do ladinho. E eu não sabia beijar!

Enquanto aquele garoto bonito – bem bonito mesmo –  vinha ao meu encontro, jogando o cabelo para trás – ele era bem bonito mesmo -, eu estava imóvel, no mesmo lugar, só pensando “não posso errar”. Ai, que cena!

Então – rufem os tambores! ou ouçam os gritos da multidão de adolescentes -, eu deixei de ser BV (boca virgem).

E foi do jeito que eu queria, a não ser pela plateia, é claro.

Como foi o beijo? Não faço ideia! Meio que eu estava anestesiada, cheia de vergonha e fora de órbita.

Desde então, adeus, Kadu! E, onde quer que esteja, obrigada por participar desse momento inesquecível da minha vida.

Por Mara Rubia.

Sobre Mara Rubia

Graduada em Letras e Pedagogia, atua como Especialista em Educação Básica na rede estadual, mas para este espaço, esta não é a parte mais interessante sobre ela. Aqui, o que mais importa são as várias facetas das vozes que a habitam e que insistem em emergir através das palavras. Nesse lugar, ela será tantas, mas tantas, que seria impossível uma definição.


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