Farley Rocha

Este é um artigo ou crônica pessoal de Farley Rocha.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

Seu Genésio e a resistência das formigas

Aos 80 anos, dedica-se a zelar da plantação doméstica desde que se aposentou da lavoura, há mais de duas décadas.

Publicado em 18/03/2022 - 13:57    |    Última atualização: 18/03/2022 - 13:57
 

É manhã de domingo e seu Genésio está na horta onde o almeirão, a serralha, o jiló e o quiabo vicejam sob o sol atrás da casa. Do lado de fora, apoiando as mãos na cerca que divide o chão cretáceo do terreiro e a terra fértil dos canteiros observo seus passos lentos por entre as couves, seu tatear calejado na fina seda das alfaces.

– Quantas vai querer, filho? – pergunta-me desembainhando o canivete da cintura. – Quero duas, e também um molho de manjericão.

Aos 80 anos, dedica-se a zelar da plantação doméstica desde que se aposentou da lavoura, há mais de duas décadas. Como abdicara da carne por prescrição médica, tudo que come diariamente nasce ali, tubérculos, hortaliças e frutas cultivados num retângulo de 60 metros quadrados circundado por uma tela enferrujada de galinheiro. O que não consome, repassa aos vizinhos pelo valor de algumas moedas para complementar o raquítico benefício que recebe.

Em comprar verduras de seu Genésio, há duas apreciações que valem a pena: sua horta é saudável, nutrida apenas pela ação orgânica da natureza – o esterco fermentado pelo sereno, o húmus fresco das minhocas –, e a admiração pela postura cuidadosa que ele tem com as plantas. Naquele compacto espaço, o ancião é bem mais que um lavrador arando o solo; é quase um jardineiro que no preparo das sementes e no manejo do regador faz do seu ofício uma reverência aos seres da terra. Há arte, dignidade e respeito em sua lida.

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Depois de atravessar a fisga de bambu nas alfaces, agora o observo desgalhar o manjericão, selecionando as folhagens mais novas como quem desfia no tear a lã esverdeada de um arbusto perfumado. Cá de fora, seu Genésio parece alheio ao universo que nos cerca, introspectivo entre joaninhas e borboletas, ensimesmado na profissão nobre de alimentar as bocas do mundo.

É quando penso na guerra que estarrece o planeta como um violento contraste àquela cena de profunda delicadeza. Penso nos milhões de ucranianos devastados pelo horror, arremessados pelo medo às fronteiras de seus lares e cidades, esquivando-se da artilharia bruta de fuzis e canhões, e os comparo à calmaria de seu Genésio, o artesão que transforma brotos em frutos, capaz de adestrar passarinhos com a paz de espírito que destila do próprio assovio.

Diante daquele octogenário, de sotaque forjado nas serras e isolado nos grotões do Brasil, que nasceu na mesma época em que nazistas asfixiavam judeus, que capinava sua roça enquanto o Apartheid confinava sul-africanos, que semeava arroz enquanto napalms carbonizavam camponeses no Vietnã, que acordava com os galos enquanto assassinavam refugiados em Ruanda, que pilava o café enquanto armavam crianças no Afeganistão, suponho que seu Genésio, mais atento ao ataque dos pulgões e mandruvás do que à ameaça de soberanias nacionais, nem deve imaginar que neste exato momento bombas estilhaçam o domingo de um país distante.

Para ele, leigo dos acontecimentos que marcaram o último século, os conflitos estrangeiros talvez não passem de contendas sem sentido.

Já nem lembro mais da guerra quando seu Genésio retorna com minhas verduras. “Cinco reais, filho”, ele me diz recolocando o canivete na bainha. Em seguida, aponta para o pé de manjericão e se queixa das formigas, as quais há meses vem tentando exterminar.

– Mas fazer o quê? – Ele diz com a lucidez dos sábios iletrados – Esse chão sempre foi delas. Eu é que sou o intruso, ocupando a terra que elas ajudam a fertilizar.

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Seu Genésio pode não entender de geopolítica, mas ao falar sobre as formigas me fez pensar outra vez nos ucranianos – e na bravura de outros povos que resistem ao invasor.

Por Farley Rocha.

Sobre Farley Rocha

Farley Rocha é professor, fã do Radiohead e do Seu Madruga. Já plantou uma árvore, escreveu um livro e edita o blog http://palavraleste.blogspot.com


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