
Este é um artigo ou crônica pessoal de Farley Rocha.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

Era um outono quando a professora me repreendeu. Aos dezesseis anos, eu era um jovem com inclinação neo-hippie e confeccionava artesanato para vender na escola durante o Ensino Médio. No meio de colares de bambu, pulseiras de arame e duendes de durepoxi, a professora ordenou que recolhesse minha tenda entre cadernos e lapiseiras, dizendo: “termina logo esse mercado persa, por gentileza…” A disciplina era Geografia e a professora era a Dona Maria.
Acatei seu comando, mas só depois fui perceber o sentido do seu gesto. Não fora uma censura, mas uma forma de me mostrar que havia existido uma civilização tão importante quanto, para mim, eram aquelas bijuterias que vendia ao preço de R$ 1,00 cada. Por conta disso aprendi que a Pérsia fora um antigo império da Mesopotâmia, região onde hoje fica o Irã, no Oriente Médio, e que por isso o local de uma guerra ocorrida em 1991 chama-se Golfo Pérsico por causa do nome desse império; e aprendi também que os persas da antiguidade eram muito bons em batalhas, agricultura, metalurgia, artesanato e comércio. A analogia que a professora fizera aos meus penduricalhos de missanga e barbante me fez aprender mais sobre Geografia (e História) do que o próprio livro pudesse me ensinar. Foi assim que me tornei próximo da professora Dona Maria, de quem conquistei, desde então, a liberdade que só os amigos tinham de chamá-la pelo segundo nome: “Du Carmo”.
Quanto mais convivia com Du Carmo, mais descobria a mulher por trás da professora. Quanto mais conhecia sua história, mais admirava e valorizava o que ela tinha a dizer. Du Carmo era daquelas pessoas que, se não existissem, nossas vidas seriam menos rica. Ela pertencia a uma categoria de gente que, por natureza, é necessária para toda cidade, seja pelos feitos que nos deixa ou pelo exemplo que é para todos nós.
Sua biografia começa numa Espera Feliz ainda em preto-e-branco, lá pelos anos de 1940, a filha mais velha entre três irmãs e um irmão. Aos quinze anos já alfabetizava as crianças, aos dezessete já era Diretora Escolar. Aprendendo com os livros e com a vida, fez do magistério a profissão que exerceu por mais de meio século, tornando-se uma icônica personagem na formação de muitos das nossas gerações. Comparada ao mesmo expediente da mãe – nossa saudosa Dona Dadá –, Du Carmo era uma mulher de fibra, com palavras decididas e dona de um olhar forte que imprimia na expressão um tom de severidade, mas com atitudes tão serenas que só os experimentados na vida conseguem ter.
De personalidade inquieta e preocupada com os problemas de sua época, Du Carmo era um ser de muitas facetas e dedicava a própria vida a serviço dos outros. Disfarçada por um discurso prático e racional, sua fala revelava a pessoa humana e solidária que era, disposta a ajudar a quem quer que fosse: o pedinte de rua, o prefeito com suas tarefas burocráticas, a recuperação dos menores infratores, a mãe adolescente que fora abandonada. Até os cães sem dono eram merecedores de sua atenção, os quais alimentava diariamente na Praça Cira Rosa de Assis.
Famosa por seus trabalhos voluntários, Du Carmo deixou sua marca em vários projetos e empreendimentos da administração pública local. Fez colaborações imprescindíveis junto ao Conselho Tutelar, à Prefeitura Municipal, à Secretaria de Educação, ao Conselho do Patrimônio Histórico e Cultural, à Secretaria de Agricultura, ao Fórum… Era comum encontrá-la nas repartições públicas, realizando algum serviço ou orientando sobre a importância de se fazer o melhor para Espera Feliz.
Por isso, à medida que o progresso foi transformando a cidade em um quadro colorido, muitas das pinceladas foram dadas por esta cidadã destemida, dedicada e cheia de fôlego, fazendo com que sua própria história se fundisse com a história da cidade onde nasceu e que ajudou a construir ao longo de sua prestativa existência. Inteligente e antenada, Du Carmo representava o elo entre o velho e o novo, mesclando a experiência que trazia junto aos característicos cabelos brancos à jovialidade estampada nas roupas e trejeitos, sempre com muita modernidade na forma de pensar e de agir. Du Carmo era uma autêntica mulher do seu tempo.
Quase vinte anos depois daquele acontecimento na sala de aula em que surgiu nossa amizade, Du Carmo escolheu uma linda tarde de outono para partir. Ao despedir-se, deixou-nos como sua última obra um dia ensolarado e tão cheio de cores quanto era a cidade que ela sempre sonhou para todos nós. E ainda que o sol, os pássaros e o céu trouxessem leveza para nossas praças e ruas, a notícia de sua morte nos abateu como a um povo quando perde uma autoridade. Mas também nos enobreceu com ternura e gratidão, como uma cidade que teve o privilégio de conceber em seu berço a consagração de um mito.
À Maria do Carmo Rocha Rezende, com carinho.
Por Farley Rocha.

Farley Rocha é professor, fã do Radiohead e do Seu Madruga. Já plantou uma árvore, escreveu um livro e edita o blog http://palavraleste.blogspot.com