Farley Rocha

Este é um artigo ou crônica pessoal de Farley Rocha.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

On The Road: a estrada de um livro

Ler On The Road foi revolucionário. Cada frase, cada página, cada capítulo mudaram tanto minha visão de mundo que ainda hoje, dezessete anos depois, ouço os ecos do que experimentei com o livro.

Publicado em 05/05/2022 - 14:36    |    Última atualização: 05/05/2022 - 14:36
 

Já virou clichê de mesa de bar aquela máxima de que somos a soma dos livros que lemos, dos discos que ouvimos, dos filmes que assistimos, das viagens que fazemos, das pessoas que amamos etc. Mas se levada ao pé da letra, a frase ganha peso de uma autêntica filosofia.

No meu caso, para ficar em um só exemplo, cito a relação que tenho com o livro “On The Road” (ou “Pé na Estrada”, em tradução livre), publicado em 1957 pelo norte-americano Jack Kerouac – que no último 12 de março completou um século de nascimento.

Ler On The Road foi revolucionário. Cada frase, cada página, cada capítulo mudaram tanto minha visão de mundo que ainda hoje, dezessete anos depois, ouço os ecos do que experimentei com o livro.

Com pegada de autoficção, Sal Paradise, um jovem nova-iorquino de vinte e poucos anos aspirante a escritor, cruza diversas vezes o país ao lado de seu amigo Dean Moriarty, um delinquente criado nas ruas de Denver, tendo na empoeirada e vibrante São Francisco do final dos anos de 1940 uma espécie de Meca para suas incursões andarilhas.

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Apesar de aparentemente trivial, o enredo é uma explosão de deslumbramentos. Ao longo das viagens, pegando carona em calhambeques conversíveis, carrocerias de caminhões ou em vagões de trens de carga, Sal e Dean vão conhecendo pessoas, reencontrando velhos amigos, trabalhando em campos de algodão, dormindo em becos escuros e mergulhando em experiências transcendentais, seja em noitadas de porres homéricos ao som de jazz ou sob a solidão estrelada na beira de estradas e ferrovias. E tudo envolto numa arrebatadora e frenética narrativa poética cujo o próprio autor chamava de “prosa espontânea”.

À época, o impacto que a obra causou foi astronômico. Tornou-se instantaneamente um fenômeno editorial, chamando a atenção da crítica para uma nova geração de escritores e poetas rebeldes que se opunham ao establishment norte-americano e contestavam os padrões do american way of life – entre eles Allen Ginsberg, com seu longo e viceral poema “Uivo”, e William Burroughs, com seus versos transgressores. Por abordarem filosoficamente temas marginais com linguagem altamente despojada, o grupo recebeu a alcunha de “Beatniks”, num trocadilho jocoso entre “beatitude” e o satélite russo “Sputnik”, posto em órbita no início da corrida espacial.

Não por acaso On The Road foi como uma avalanche nas estruturas sociais dos Estados Unidos e de todo o Ocidente, ao materializar em palavras o espírito libertário asfixiado pela sociedade conservadora do pós-guerra. Tanto que, influenciados pelas histórias de Jack Kerouac, jovens embarcaram em viagens mundo a fora, Bob Dylan tornou-se o ícone do folk depois de ler o livro, os Beatles batizaram a banda inspirados pelo prefixo “beat” de “beatnik”, e até a contracultura da década de 60, como o rock’n roll, o Festival de Woodstock, o amor livre e o Movimento Hippie, teve origem a partir do legado narrativo de Kerouac – que até hoje, 65 anos depois do lançamento, continua exercendo poder de sedução.

A primeira vez que ouvi falar em “Beat Generation” e “On The Road” foi em 2005, quando li “Movimentos Culturais da Juventude”, de Antonio Carlos Brandão e Milton Fernandes Duarte, sobre o qual escreveria uma resenha para o extinto Catálogo Cultural A Margem. Pouco depois, ao garimpar um sebo na avenida Rio Branco, em frente ao Parque Halfeld, em Juíz de Fora, encontrei no canto de uma prateleira mal iluminada um exemplar do livro. Era uma 2ª edição da Editora Brasiliense de 1984, com tradução de Eduardo Bueno e supervisão de Antônio Bivar.

Eu não pude prever, mas aquele calhamaço envelhecido cheirando a baú simbolizava uma encruzilhada sem retorno. Uma jornada literária que me apresentaria uma forma inteiramente nova de perceber as coisas.

Atravessei as 326 páginas em três longuíssimos dias. Quando terminei de ler, numa tarde branca de outono, senti-me exausto – não pelas dores e dormências da posição de leitura, mas pela nítida sensação de que tinha sido eu a trilhar cada quilômetro que Kerouac, décadas antes, datilografara no papel.

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Por falta de vocação, não pude pegar a mochila e cair na estrada como muitos o fizeram; e por falta de talento, não pude transformar em arte as revelações da obra como Bob Dylan e Beatles. Mas de alguma maneira, aqueles relatos que ajudaram a forjar a cultura do século XX me explicaram muito sobre o passado e o presente do mundo, definindo desde então minha compreensão política, social, histórica e humana.

On The Road não é o livro mais importante que li na vida, mas certamente é um dos mais completos. Pois contidos na mitologia das estradas descritas por Jack Kerouac há músicas, filmes, pessoas e viagens – a soma de quase tudo que nos faz ser quem somos.

Por Farley Rocha.

Sobre Farley Rocha

Farley Rocha é professor, fã do Radiohead e do Seu Madruga. Já plantou uma árvore, escreveu um livro e edita o blog http://palavraleste.blogspot.com


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