Farley Rocha

Este é um artigo ou crônica pessoal de Farley Rocha.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

O significado da tatuagem

As tatuagens são como signos filosóficos de nossa própria essência.

Publicado em 22/04/2020 - 14:27    |    Última atualização: 22/04/2020 - 14:27
 

Todos os que conheço que possuem tatuagens falam que entre a pele e o desenho existe uma relação pessoal. Os motivos para se tatuar o corpo são vários, da simples e objetiva realização estética aos sentidos mais profundos da personalidade humana. Por  isso são escolhas muito bem planejadas, já que levarão para sempre a lembrança dessa decisão.

Desde cedo esta arte me fascina. Porque através da beleza quase mística de suas cores e formas, as tatuagens são como signos filosóficos de nossa própria essência. Pode ser um dragão, uma cacto ou o retrato de um filho, cada uma desvenda um pouco de quem as tem.

No meu caso, por restrições de valores hereditários e incertezas quanto à figura a ser estampada, sempre adiei as agulhadas. Mas há seis anos tive um insight. Como quem descobre num sonho a fórmula da alquimia, decidi tatuar uma imagem com duplo conceito: que contivesse um significado único e duradouro, mas que também comunicasse por si só uma história. Então tatuei a silhueta do símbolo máximo da região onde nasci: a Serra do Caparaó.

Eu mesmo projetei o desenho, com traços primários como pintura rupestre. Nele, esbocei o contorno do maciço com os três picos principais — Cristal, Calçado e Bandeira — pontilhados pela lua e pequenas estrelas à esquerda, e pelo sol nascente por trás das montanhas, à direita.

Talvez por ter sempre vivido aqui, minha conexão com a região chega a ser transcendental. Até porque não há como permanecer impune a estas cordilheiras enraizadas no DNA de nossa cultura serrana. Certamente as colinas, os vales, as cachoeiras, as pastagens, os cafezais, o luar, as manhãs de inverno e o calor do fogão a lenha – elementos tão essenciais ao nosso cotidiano – moldaram meu espírito e meu jeito particular de enxergar o mundo, como se a paisagem interiorana que nos cerca refletisse a arquitetura da minha própria existência. Por isso escolhi este desenho, não só por representar meu sentimento de pertencimento, mas por registrar na superfície da carne minha identidade geográfica pigmentada a ferro.

Esta mesma imagem que tenho no braço também simboliza uma tradição local. Desde os índios Botocudos que consideravam a serra território sagrado até os antigos do Caparaó que criavam gado em seus campos de altitude, nós, os serranos, mantemos vivo o hábito secular de escalar as entranhas do Pico da Bandeira. Ainda que este cenário nos faça parte do quintal de casa, testemunhar o amanhecer lá do alto é sempre revelador de uma experiência inédita. Pois, de um lado, o sol se desponta a leste feito uma pérola de fogo num mar de nuvens; de outro, corpos celestes ainda cintilando no escuro marinho além do horizonte; e acima, o céu repartido ao meio dividindo a vista entre noite e dia. Minha tatuagem ilustra este momento raro, quando homem e montanha se integram a uma só natureza.

Além disso – e de forma ainda mais subjetiva – o desenho que decidi eternizar no corpo indica nossa coordenada na galáxia. O sol, a lua e as estrelas representam o sistema solar onde orbitamos. As montanhas determinam as feições geológicas do planeta Terra. A torre de ferro e o cruzeiro são evidências de que neste mundo habita uma complexa civilização, com tecnologia, ciência, arte e fé. A posição da imagem é a perspectiva que tenho de onde moro quando olho para a serra – e também quando olho para o universo. Por isso, mesmo que pequena e delicada como rabiscos rudimentares de criança, minha tatuagem é uma espécie de selo de nascença: por onde for, sempre me lembrará de onde e quem eu realmente sou.

Por Farley Rocha.

Sobre Farley Rocha

Farley Rocha é professor, fã do Radiohead e do Seu Madruga. Já plantou uma árvore, escreveu um livro e edita o blog http://palavraleste.blogspot.com


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