Farley Rocha

Este é um artigo ou crônica pessoal de Farley Rocha.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

No retrovisor da história

E se a forja da nossa mente nos fabricasse ideias ásperas, lapidávamos os pensamentos antes de convertê-los em gestos.

Publicado em 14/06/2021 - 16:36    |    Última atualização: 14/06/2021 - 16:37
 

Bonito era quando fechávamos os olhos e víamos no retrovisor o rastro que deixávamos. Do chão da estrada percorrida, atrás de nós, não era poeira que o vento alçava, mas pétalas. Milhares de pequeninas flores chuviscadas pelas árvores em arco sobre a via. Acima, do esconderijo das folhagens quase podíamos ouvir nossa história traduzida na linguagem dos passarinhos. Havia algo de onírico nas lembranças que cultivávamos.

É assim, com essa tentativa ingênua de alegoria primaveril que percebo e descrevo as lembranças de nosso passado de não muito tempo atrás, quando nós, brasileiros e brasileiras de toda fé e profissão congestionávamos calçadas em efusivos cumprimentos de afeto, demorávamos nas esquinas pela sorte dos encontros inesperados, abarrotávamos bancos de pracinha roubando dos casais seu lugar de direito. Era um tempo em que em nossas memórias – apesar das tempestades e trovoadas do cotidiano – se conservavam certas cores das manhãs de sol e a temperatura revigorante dos abraços fraternos.

Embora não fosse leve o fardo de se levar o mundo às costas desde o despertar, haviam múltiplos ombros ao longo do dia caso não suportássemos a carga da realidade. Embora em sua forma bruta a vida se fizesse árdua, era nos detalhes que encaixávamos nossos sonhos como se tijolos fossem para alicerçar as paredes da nossa rotina de pedra.

E de alguma forma, apesar dos pesares, das diferenças e das desigualdades, os sonhos de uns complementavam os sonhos dos outros. E juntos, nessa teia tecida pelos vários sonhos sonhados em comunidade, nos sentíamos interligados, irmanados, emaranhados por uma grande vontade de nos vermos não como um país geograficamente destacado nos mapas, mas como um povo que se reconhece e se fortalece a si mesmo a despeito da indiferença de qualquer outro povo. Entre quase todos, ao menos em nosso círculo mais íntimo, não havia distinção de ele, tu ou eu. Porque unidos nos conjugávamos como a soma de um só pronome plural: nós!

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Nesse passado não tão distante, apesar da violência açoitar os esperançosos e das garras gigantes do egoísmo esmagarem o trabalho de formigas dos solidários, entre nós nenhum ato carecia de perdão. Porque todo riso tinha virtudes de inocência, todo olhar era filtrado pela pureza. E se a forja da nossa mente nos fabricasse ideias ásperas, lapidávamos os pensamentos antes de convertê-los em gestos.

Porque lá atrás, quando olhávamos pelo retrovisor, parecíamos participar de um constante carnaval sem as cinzas melancólicas de nenhuma quarta-feira. Nas mesinhas depois do expediente, ou reunidos na laje em um sábado de verão, cada encontro era uma festa, cada abraço uma celebração. E as palavras que dizíamos numa roda de amigos eram brindes e confetes comemorando nossa paz, comemorando o simples fato de estarmos ali, vivos, juntos, próximos.

Mas de repente tudo isso mudou. Nos tornamos distantes, nos tornamos ríspidos, nos tornamos outros. E não me refiro aos efeitos cáusticos da pandemia que por si só já nos roubam até o último fiapo de alegria. Falo de um outro vírus que nos infectou e vem afetando uma parte considerável de nós tão vital quanto nossa própria saúde física. É o estado de espírito de um povo inteiro que, sem que déssemos conta da gravidade do caso, adoeceu.

Pouco a pouco, ludibriados por ideias e emoções inflamadas, fomos nos enredando por uma sórdida percepção de que amigos reais se transformaram em inimigos imaginários. De que nossas convicções, se contrariadas, materializariam a eterna luta entre o bem e o mal. Por arrogância ou ignorância, saímos condenando sumariamente a responsabilidade do outro por nossas próprias insatisfações. E fomos perdendo o senso de unidade, rompendo com nossos mais antigos laços, bombardeando pontes, construindo abismos.

Por alguma força obscura que sustenta os discursos imediatistas de certos líderes, não percebemos que são eles, os porta-vozes de teorias conspiratórias, os intelectuais blogueiros de redes sociais e os cavaleiros do apocalipse com bíblias e fuzis nas mãos os verdadeiros responsáveis por nossas rivalidades insanas.

Então me lembro da sentença de Ferreira Gullar dizendo que “tenho que baixar a voz, porque, se falo alto, não me escuto”, quando constato que, por divergências políticas e ideológicas, o estado de espírito do brasileiro atual, tradicionalmente tão cheio de sambas, plumas e carnavais, tornou-se oco, estéril, um imenso espaço vazio de ressentimentos que tentamos a todo custo preencher com a ressonância surda de nossos gritos revoltosos. E, preocupados em calar o que diz a voz do outro, acabamos esquecendo de dar sentido àquilo que nós mesmos dizemos.

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Observando o todo, devido à equívocos conceituais de uma educação secularmente falha e mal gerida, negligenciamos a argumentação racional dos debates lúcidos e sadios em favor da troca de farpas emocionais com frases prontas tantas vezes repetidas que chegam a converter desinformações grosseiras em autênticas verdades. Para piorar, nesse confronto de interpretações estapafúrdias da realidade não há meio termo: ou somos comunistas ou somos fascistas. Mas no fim, vítimas é o que todos realmente somos, de nós mesmos e de nossa colossal incompreensão do mundo sensível que nos cerca.

Como resultado dessa hostilidade gratuita que nos sucumbe amizades, distancia familiares e promove a discórdia propagada em larga escala por um presidente de hábitos primitivos e, em parte, por uma oposição arrogante disfarçada de civilidade, acabamos criando um país rachado ao meio, fraturado pelos golpes que diariamente recebemos mas que também desferimos em nome de ideologias que pouco ou nada representam nossa legítima essência.

O Brasil dos brasileiros, o Brasil real, aquele que nos define como nação se perdeu nesse emaranhado de contradições retóricas. E parece que quanto mais desorientados ficamos nesse labirinto, melhor para quem agora nos governa. Porque assim, cria-se a falsa impressão de que somente eles, os senhores do atraso, os preletores da moral seletiva, os detentores das verdades inventadas, os defensores dos valores anacrônicos detêm os mapas, as chaves da porta de saída. No entanto, conduzem-nos descaradamente ao caos, único meio possível de se manterem no poder nesse país esgarçado pelo rancor e pelos agravos de uma peste há muito descontrolada.

Por isso que agora, olhando pelo retrovisor de nossa história mais recente, sinto e percebo que o rastro que vamos deixando para trás é esse cenário de terra devastada pelos desencontros afetivos e destruição de boas memórias. Uma paisagem sombria, cinzenta, onde os abutres sobrevoam em círculo a nossa estrada empilhada de corpos entre árvores carbonizadas e flores mortas.

Por Farley Rocha.

Sobre Farley Rocha

Farley Rocha é professor, fã do Radiohead e do Seu Madruga. Já plantou uma árvore, escreveu um livro e edita o blog http://palavraleste.blogspot.com


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