Farley Rocha

Este é um artigo ou crônica pessoal de Farley Rocha.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

Morro da Canoa

Uma verdadeira lenda pelas páginas secretas da história de Espera Feliz.

Publicado em 05/04/2019 - 15:17    |    Última atualização: 05/04/2019 - 15:17
 

Em toda cidade existe um lugar com fama de tabu, sobre o qual se comenta em voz baixa como se esquivando do julgamento alheio. No caso de Espera Feliz, este célebre lugar proibido se chama Morro da Canoa.

Envolto em uma aura de mistério, segredo e devoção, o nome que batiza o local é tão curioso quanto incerto. De fato se trata de um morro, na verdade um conjunto de três pequenas colinas próximas à área urbana, com uma verde pastagem que adquire diferentes tonalidades conforme as estações do ano. Mas não há rios nem lagoas por perto que justifiquem o sobrenome – exceto pela nascente que se estende como um filete d’água pelo vale até formar o córrego subterrâneo da Avenida Roque Ferreira de Castro.

Ouvi dizer que, em tempos remotos, havia palmeiras em seu topo cuja espécie gera uma folhagem com a base grossa, larga e comprida. Depois de seca, a molecada dos anos de 1940 a utilizava para escorregar pelo pasto abaixo como se fosse uma canoa. Daí o nome.

Mas qualquer que seja sua origem etimológica, é interessante ressaltar que o local, embora reconhecido por um nome só, é dividido em dois ambientes distintos: a “Jaqueira” e o “Morro da Canoa” propriamente dito.

O primeiro, localizado num espaço mais reservado do morro, com vistas para Caiana e Serra da Ernestina, possui mesmo uma velha e robusta jaqueira sob a qual casais de namorados costumavam estacionar o automóvel na calada da madrugada de modo que não fossem incomodados. É bem provável que algum leitor tenha sido concebido ali, no romantismo noturno desta folclórica árvore à luz da lua e das estrelas cadentes.

Já o segundo traz uma conotação mais carregada. Com dois platores pontilhados por estrume de boi e com vistas para a cidade como se formassem um mirante, o Morro da Canoa sempre foi reduto de baladas alternativas para os adeptos de good vibes, euforias etílicas de fim de festa e rodas de violão em meio à natureza. Por isso foi rotulado pelos malucos de Espera Feliz como “quebrada”, estigmatizando as opiniões que se tem sobre o local.

Esta fama pejorativa vem lá dos anos de 1980, quando grupos de jovens, entediados com a monotonia de cidade pequena, subiam até lá para se divertir e ouvir Cazuza, Legião Urbana ou Iron Maiden no toca-fitas do Opala com o porta-malas aberto. Independente se todos praticavam ou não atos considerados “proibidos” ou “imorais”, só de estar lá já era motivo para suspeitas – principalmente por se tratar de uma propriedade particular, embora nunca tenha havido uma porteira com cadeado que impedisse o acesso.

Mesmo assim, durante os últimos 40 anos o Morro da Canoa vem sendo palco para centenas de histórias pessoais. Mas, diferente do que julgam os demais, os eventos testemunhados por lá trazem consigo uma ingenuidade quase juvenil. Fora os excessos, as irresponsabilidades e a falta de bom-senso dos que poluem a área com embalagens plásticas, garrafas, pontas de cigarro e preservativos, a moçada já presenciou não mais do que luais épicos sob a serração do inverno, pores do sol magníficos no entardecer de primavera, rolês inusitados de motocicleta nas tardes de domingo, piqueniques familiares em manhãs ensolaradas, pedais ecológicos de finais de semana ou saudáveis caminhadas após o expediente. Certamente, 90% dos leitores guardam alguma memória afetiva deste emblemático lugar da cidade.

Talvez esta mística do Morro da Canoa advém de sua privilegiada localização geográfica, onde os ventos parecem concentrar toda a energia que emana da região. Utilizado como acesso alternativo ao município de Caiana, ele faz parte do sopé da montanha da Torre – que, por si só, já é um monumento natural da cidade. Devido sua elevação geológica, de cima do morro é possível contemplar as cordilheiras da vertente sul da Serra do Caparaó, com o Morro do Bicudo sobre o Bairro do Roque, seguido pelas montanhas da Vargem Alegre, São Domingos e Vale do Paraíso até os picos do Cristal, Calçado e Bandeira; além, claro, da fantástica vista que se tem da Avenida Jaime Tolêdo até o centro da cidade. Para muitos esta é de longe a perspectiva mais bela de Espera Feliz: toda arborizada durante o dia, toda iluminada durante à noite.

Há quem defenda, em devaneios para lá de criativos, que o Morro da Canoa é o local perfeito para se construir uma luxuosa mansão, tamanho seu charme de cartão-postal. Outros acham que um restaurante ou um bar com arquitetura em estilo rústico faria um super sucesso entre nativos e turistas. Para os sonhadores mais ousados, não haveria lugar mais adequado para sediar um festival de rock.

Mas, projetos irrealizáveis à parte, mesmo que o lugar possua a notoriedade típica dos anti-heróis, o Morro da Canoa ocupa um controverso posto de patrimônio cultural da cidade. Pois do alto de suas colinas bucólicas há pelo menos quatro décadas de memórias acumuladas por diferentes gerações, compondo uma verdadeira lenda pelas páginas secretas da história de Espera Feliz.

Por Farley Rocha.

Sobre Farley Rocha

Farley Rocha é professor, fã do Radiohead e do Seu Madruga. Já plantou uma árvore, escreveu um livro e edita o blog http://palavraleste.blogspot.com


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