
Este é um artigo ou crônica pessoal de Farley Rocha.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

Certo da beleza que não vejo quando me encaro no espelho, há algo em absoluto que me identifica com as Misses: O Pequeno Príncipe também é um dos meus livros de cabeceira.
Não o considero o melhor, nem o segundo melhor, nem mesmo o terceiro. Mas como aquelas obras poderosas que nos atravessam ao meio quando lidas, é nesta mesma prateleira da estante onde guardo esse clássico.
Igual a muitos da minha geração, meu primeiro contato com o personagem do asteróide B612 foi através da animação exibida pelo SBT, no início dos anos de 1990. Embora me faltasse destreza para compreendê-los à época, seus conceitos me deixariam marcas para a vida toda: o valor da amizade, da solidariedade, da empatia.
Só muito depois, numa ocasião planejada pelo acaso, é que me interessei pelo livro. Estava no último período da faculdade e, às vésperas de participar de um concurso de literatura, ler O Pequeno Príncipe como inspiração me pareceu oportuno. Tanto que, em menos de uma semana li a obra, escrevi minha história e acabei tirando o primeiro lugar na competição.
Mas não foi a vitória nem os R$ 500 da premiação que me marcaram, e sim a experiência de ter nas mãos um texto a cuja potência de encantamento é impossível passar impune – o que justifica sua fama ao redor do mundo e os números absurdos de traduções que ultrapassam 220 idiomas e dialetos.
Por ser compacto, com capítulos curtos e repleto de ilustrações do próprio autor, percorri o volume em duas noites seguidas. Era um agosto atípico. Lá fora, um vento abafado que corria na madrugada contribuiu para uma sensação estranha que tive: a vontade de desacelerar a leitura quando me aproximava das últimas páginas – talvez porque quisesse prolongar ao máximo aquela história, ou porque soubesse que uma parte de mim, de alguma forma, seria irreversivelmente transformada quando terminasse o livro.
Pode parecer exagero, mas Antoine de Saint-Exupéry, o aviador francês que emprestava à escrita a maestria com que pilotava aviões, fez de uma obra aparentemente simples um dos maiores legados filosóficos da cultura ocidental. Pois no livro, o ser humano é retratado em seu mais primitivo estado de pureza, sem casca ou pudores, levando-nos a pensar sobre quem somos e, principalmente, sobre aquilo que nos torna o que somos.
Através de uma fábula atemporal, O Pequeno Príncipe é uma espécie de tratado universal do pensamento no qual, independente da cultura ou idade do leitor, diferentes reflexões se convergem. O que significa não tratar-se de mera literatura de “autoajuda”, como ficou estigmatizado no Brasil. Aliás, classificá-lo de “o preferido da Misses” é um imenso preconceito – com as candidatas e também com o livro.
Assim, um piloto perdido no deserto, um menino em busca de companhia, uma rosa possuída pelo desprezo, uma raposa arisca na relva são mais do que passagens lúdicas enfeitando a narrativa. São lições a respeito da solidão, da carência, da arrogância e da incompreensão que nos atrapalham a existência e nos distanciam de nossas relações mais sinceras.
Li o livro muitas outras vezes. E sempre que revisito aquelas páginas, é como se uma faceta inédita do mundo se descortinasse, revelando a cada parágrafo um jeito novo de enxergar a vida, seja pela carga de humanismo que ele contém ou pelo simples exercício da imaginação.
Por isso, quando meu deserto interior se torna mais árido ou minha rosa mais espinhenta, retorno a’O Pequeno Príncipe para que eu veja o mundo com mais delicadeza – afinal, como escreveu Exupéry, “para enxergar claro, basta mudar a direção do olhar.”
Por Farley Rocha.

Farley Rocha é professor, fã do Radiohead e do Seu Madruga. Já plantou uma árvore, escreveu um livro e edita o blog http://palavraleste.blogspot.com