Farley Rocha

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Luneta, duo musical de Espera Feliz, lança álbum produzido na quarentena

A dupla aproveitou o isolamento social devido à quarentena para materializar um projeto que começou a ser gestado em março deste ano.

Publicado em 17/07/2020 - 17:02    |    Última atualização: 17/07/2020 - 17:10
 

O duo esperafelicense Luneta, composto por Igor Grillo e Lucas Fernandes, acaba de lançar “Ócio”, seu álbum de estreia com onze composições autorais.

Os dois músicos são estudantes universitários –Igor cursa Licenciatura em Música na UFMG e Lucas Administração na UFV – e, embora sejam jovens (20 anos), apresentam um trabalho maduro e consistente, reflexo da experiência musical acumulada desde a infância.

A dupla aproveitou o isolamento social devido à quarentena para materializar um projeto que começou a ser gestado em março deste ano e, já em abril, iniciaram as gravações.

Como os dois são músicos multiinstrumentistas e hábeis com recursos tecnológicos, a execução, produção e gravação foram feitas por eles próprios, em consórcio com outros amigos. Tendo como instrumento principal a bateria, Lucas Fernandes revezou na variedade de percussão, enquanto Igor Grillo ficou por conta da voz e dos instrumentos de corda e tecla. A confecção do disco também teve a colaboração de outros artistas: em “Sobre Nós”, Brandon Alves participa na sanfona; Gabriela Viegas e Leo Middea nos vocais, em “Elevador” e “Pequenas Coisas do Mundo”, respectivamente.

A sociedade musical de ambos resultou numa coletânea de onze faixas intercaladas por diversos gêneros. A conjunção equilibrada de ritmos, como samba em “País do Futebol” e xote em “Sobre Nós”, dá o tom de brasilidade ao disco, que também explora baião, bossa nova e o vigor sonoro dos tambores africanos, ancorando Ócio sob a mesma aura tropical da Nova MPB. Ao mesmo tempo em que se percebe a delicadeza do fazer artesanal, há em cada música uma linha híbrida entre simplicidade e sofisticação – certamente devido à teia interligando os acordes, que tanto flertam com ritmos tradicionais do interior do país quanto com a atmosfera cosmopolita dos grandes centros.

Os dois compositores são nascidos e criados em Espera Feliz, extremo leste de Minas Gerais. Por isso, parte do DNA das canções vem do ambiente do campo, do ar das montanhas, como um traço hereditário da cultura original do Brasil. Já o fato de Igor Grillo estudar e residir na capital Belo Horizonte, a música da vanguarda mineira é que dá o matiz pop à harmonia e aos arranjos, especialmente pela influência de Milton Nascimento, Lô Borges e os pioneiros do Clube da Esquina. Por outro lado, a conexão com a metrópole possibilita aos músicos o contato com panoramas mais globais, como a tonalidade indie que orbita todo o trabalho e o experimentalismo sonoro e rítmico – há experiências com tilintares de um abridor de latas e a vibração do plástico envolvido num pente, por exemplo, dialogando com estéticas a la Tom Zé e Hermeto Pascoal. O efeito é um álbum com temperatura e cadência latinas, mas com engenharia projetada em pranchetas da música contemporânea.

Com um apanhado de canções escritas pelos dois desde há um ano e meio, a ordem das letras compõe uma sequência narrativa a respeito do ciclo de um relacionamento amoroso, que tem origem, duração e fim. Mas apesar desta bem elaborada estrutura conceitual, cada faixa pode ser ouvida de forma aleatório e espontânea, pois trazem em si seus próprios significados, que vão se complementando conforme a percepção do expectador.

O nome do duo denota a mesma poética das composições. “Luneta” significa enxergar além, trazer para perto o que nos parece ausente, a alquimia entre o transitório e o infinito. Nesta pegada lírica, as letras alternam instantes de  reflexão e contemplação com contextos de saudade, solidão e amadurecimento. Assim, a construção de paisagens cotidianas na arquitetura dos versos evoca de forma leve e orgânica emoções e sentimentos complexos do ser humano.

“Fórmula da Paz”, faixa de abertura da coletânea, articula num jogo de palavras e rimas elementos da natureza à casualidades da rotina. Já em “País do Futebol”, um dos muitos pontos altos da obra, o lirismo tem a cor do céu, do mar e dos quintais como pano de fundo para a nostalgia e instantes passageiros de alegria. A terceira faixa, “Pequenas Coisas do Mundo”, cuja letra é de autoria de Leo Middea e baseada numa temporada de intercâmbio que Lucas passou no Egito no início de 2020, provoca uma imersão sensorial mais intimista, com frases fortes como “uma sequela de amor é a felicidade, uma sequela de vida é a liberdade” ou “ser poeta cantor, se redescobrir, uma vida ecoa quando tenta se abrir na dança… na dança do mundo”.

“Ágape” é outra que sugere o mergulho profundo no eu-interior. Introduzida por uma fala de domínio público da monja zen budista Coen Rōshi e acolchoada por acordes de piano, a canção remete ao exercício do autoconhecimento, da resiliência e da aceitação – o amor como aprendizado e superação. No entanto, o caráter despojado de algumas faixas faz o contraponto da narrativa do disco, como nos versos “eu caí da laje, fraturei ainda mais as fraturas do meu coração” ou “Sebastião separou de Maria por um pedaço escasso do vazio”, em “Caí da Laje”.

Mas é a quinta (e mais curta) canção do álbum, cujo título é o mesmo que dá nome ao duo, que traz a maior carga subjetiva. Em “Luneta” a ambientação psicodélica produzida pelo dedilhado do violão e sintetizadores combinada à letra minimalista e onírica escrita por Lucas sinalizam que algo está acontecendo ali, despertando de propósito a atenção de quem ouve como um mantra cósmico comunicando à alma.

Somados às demais peças, estes temas justificam a palavra “ócio” do título que, simultaneamente, traduz a introspecção provocada pela quarentena e a dedicação à música como produto do isolamento, um convite à observação do universo interior.

Esta sequência bem delineada de ideias é sintetizada por uma arte de capa não menos sugestiva: o perfil de uma silhueta mirando o firmamento e, a partir do que vê, um feixe de luz incidindo sobre o coração. Quem assina é a artista esperafelicense Estela Fófano, que condensou na ilustração com ares surrealistas a essência proposta na concepção das músicas.

Por isso, apreciando-o parcial ou integralmente, Ócio se apresenta como um trabalho extremamente refinado, não só pelo apuro técnico e criativo, como também pela riqueza de detalhes conceituais e sonoros, que conferem à dupla do Luneta o mesmo selo de competência de artistas como Castelo Branco, Cícero e do grupo O Terno.

* * *

“Ócio” foi lançado no dia 10 de julho e está disponível em todas as plataformas digitais. Para divulgar o trabalho, a estratégia do duo é publicar no Instagram (@o_luneta) três vídeos semanais sobre cada faixa: um relatando o bastidor das músicas, outro ensinando a tocá-las e o terceiro em formato de webclip.

Para conhecer o álbum do Luneta no Spotify, acesse: https://open.spotify.com/album/1EPWULj5NLRFhOCr1HQhyH?si=6bB0Cld_QYi1ejx0zzI4wA

Por Farley Rocha.

Sobre Farley Rocha

Farley Rocha é professor, fã do Radiohead e do Seu Madruga. Já plantou uma árvore, escreveu um livro e edita o blog http://palavraleste.blogspot.com


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