
Este é um artigo ou crônica pessoal de Farley Rocha.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

Quem dera se futebol fosse como um texto literário, articulado conforme a imaginação do torcedor-autor. Os quarenta e cinco minutos de cada tempo seriam duas páginas, frente e verso, com palavras e metáforas descrevendo passes certeiros, dribles elásticos, chapéus, pedaladas e canetas que fariam dos personagens vinte e dois craques de alto rendimento.
De um lado, a equipe adversária teria vilões e anti-heróis: atacantes e centroavantes na avant guard da trincheira, zagueiros e laterais como fiéis escudeiros do rei, e o goleiro, arqueiro solitário na torre do travessão.
Ao passo que do lado de cá – e com a licença poética que a ficção permite – escalaríamos um time sem coadjuvantes, apenas protagonistas de toda época e lugar como numa seleção dos sonhos: Taffarel, Branco, Godín, Maldini, Nilton Santos, Garrincha, Pirlo, Zico, Maradona, Ronaldo e ele… o ponta de lança Pelé.
Tivesse no esquema tático do futebol a estrutura da narrativa, o torcedor-autor construiria um enredo 4-4-2 cheio de conflitos e reviravoltas cujo clímax culminaria num surpreendente, hiperbólico e exclamativo gol! da vitória.
No entanto, a depender do jogo a história seria outra e não caberia nas quatro linhas da crônica esportiva. Seria preciso muitas páginas de acréscimos e prorrogação sobre o gramado para alcançar o desfecho improvável de uma novela de aventura ou de um romance modernista, tendo como único técnico plausível nossa atlética e raçuda criatividade – a arbitragem, evidentemente, ficaria a cargo do leitor.
Mas futebol não é literatura já que muitas partidas, de tão insólitas, dão olé até nas melhores mentes da ficção. Que escritor imaginaria um enredo mais dramático do que a final da Copa de 2022? Para quem acompanhou, a sensação era a de estar lendo, sem pausa para respirar, um livro que se escrevia ali mesmo, ao vivo, linha por linha, como um verdadeiro clássico das letras universais.
Quando, aos oitenta minutos, a Argentina parecia já ter sagrado o tricampeonato com os dois gols de vantagem, a França ressurge napoleonicamente com outros dois gols inesperados e estende o manuscrito por mais meia hora. Na sequência, após o terceiro gol argentino sinalizar outra vez o desenlace heróico em favor dos hermanos, eis que, nas últimas páginas do jogo, o destino da bola atravessa uma falta na grande área para que os franceses empatassem, levando o final da história para o imprevisível desfecho dos pênaltis. Como num relato de realismo mágico, dali em diante tudo era possível: mocinhos convertendo-se em bandidos, suspense transformando-se em tragédia, Santos revelando-se algozes.
Se a partida fosse um livro, cada minuto teria sido um capítulo épicodaquela que talvez seja a trama jamais vista em Copas do Mundo. Um livro escrito a quatro chuteiras: Messi com seus dribles mais desconcertantes do que os contos de Julio Cortázar; Mbappé com mais fôlego e precisão do que Marcel Proust no Em Busca do Tempo Perdido.
E no último parágrafo, o gran finale de Emiliano Martínez espalmando um pênalti, como se escrevesse com luvas de goleiro uma frase arrebatadora para concluir a obra – justificando o título “Argentina – Tricampeã do Mundo”.
Futebol, definitivamente, não é literatura. Mas se fosse, a final dessa Copa seria tão inverossímil quanto o são a realidade, a ficção e a própria história sul-americanas.
Por Farley Rocha.

Farley Rocha é professor, fã do Radiohead e do Seu Madruga. Já plantou uma árvore, escreveu um livro e edita o blog http://palavraleste.blogspot.com