Farley Rocha

Este é um artigo ou crônica pessoal de Farley Rocha.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

Encruzilhadas: uma conversa em mesa de bar

Escolhas e acasos são estradas cheias de encruzilhadas cujo mapa só se desenha no instante em que as percorremos.

Publicado em 19/12/2019 - 15:27    |    Última atualização: 19/12/2019 - 15:27

Enquanto os da mesa ao lado falam do Flamengo na Libertadores, à nossa direita uma dupla combina cachoeira no final de semana. No balcão, um casal de estranhos flerta olhares por sobre tulipas de chope e um rapaz fingindo lucidez disputa a atenção do paciente garçom. Aqui, ao redor da mesa na calçada estreita, José e eu falamos sobre compositores antigos, concepções filosóficas a respeito de Deus e outras importantes inutilidades.

É noite e estamos no Bar do Alemes, principal reduto onde todos os tipos da cidade – incluindo os exóticos, os baladeiros e nós – costumam se encontrar.

Em meio a burburinhos futebolescos, rituais de sedução e gargalhadas alheias, do lado de cá José e eu explanamos anonimamente nossas trivialidades cotidianas. Entre uma frase e outra, petiscamos salgadinhos da Elma Chips e bebericamos da garrafa de uma gelada Cacildis.

Uma em cada 14 pessoas no mundo – explica José – sofre de depressão. E não há ricos ou pobres, ocidentais ou asiáticos, homens ou crianças, esperafelicenses ou nova-iorquinos que não saiam incólumes. Pois quando se trata de crises emocionais, somos todos vítimas dos fantasmas que nós mesmos criamos – inclusive eu e você que lê estas linhas.

É que José, além de professor, escritor, psicanalista, boêmio e piadista de WhatsApp é também um profundo observador dos dramas existenciais. Por isso, de forma curiosamente interessante, consegue linkar em um mesmo raciocínio as teorias de Freud, mitologia grega, memes de Facebook e marcas de cachaça sem que isso soe a filosofia de botequim – muito embora estejamos em um neste momento.

Na rua em frente, um Corola ostentando tentáculos tatuados deixa um rastro sísmico de funk no ar abalando a noite e o chão abstrato de nossa despretensiosa conversa.

Enquanto sirvo nossos copos – e à medida em que o som se distancia – reflito sobre o que dizia meu amigo. Se há na depressão o DNA de nossas tragédias, haverá na alegria o triunfo de nossas escolhas?

José responde que sim. E acrescenta: como a vida é uma sucessão de casualidades, ainda que as escolhas sejam conscientes, os rumos que tomamos são imprevisíveis. Questão de sorte? – perguntaria o leitor. Questão de saber o que fazer com o que a vida faz da gente – responderia José.

Nisso, penso no repertório de acasos que nos ocorrem diariamente, que independem das ações que por ventura planejamos. São improváveis amizades de raspão nos bares como este, amores sinceros que se acham na superficialidade da internet, oportunidades que nos caem ao colo quando não esperamos, acontecimentos efêmeros que preenchem o cotidiano e todas as invisíveis pontes entre o que éramos e o que somos.

No meu caso, por exemplo: a fita K7 do Pink Floyd que ouvi aos treze anos e definiu meu ouvido para a música; a aula que tive aos dezesseis em que me descobri professor; o poema que li aos dezoito e me contaminou com o vírus da literatura; a mulher que conheci aos vinte que, desde então, me cultiva flores no peito; o escritor que li aos vinte e cinco que me ensinou o olhar de cronista; a viagem que fiz aos trinta e dois que me fez experimentar o mundo; e mais uma multidão de pequenos e grandes eventos que determinaram minha anônima existência até aqui.

Evidentemente, José também coleciona seus pormenores e acasos. E enquanto ele desfia as crucialidades de seu passado, imagino: por dois ou três acontecimentos a menos, poderíamos estar agora – ele ou eu – comendo fígado com jiló num boteco do Mercado Central de Belo Horizonte, ou vendendo miçangas em algum paraíso do litoral da Bahia, ou virando whisky barato num pub caipira no interior da Irlanda, ou jogando sinuca numa vendinha de mortadelas em São Sebastião da Barra.

Falando assim, tanto eu, José, o garçom, o bebum que enfadonha o garçom, os funkeiros do Corola e até mesmo você, leitor, parecemos a soma de nossa própria história, o resultado matemático de nossas equações pessoais. Se seremos felizes ou se faremos parte da estatística de uma entre quatorze pessoas do planeta etc., não dependerá da lógica incompreensível do universo. Mas da habilidade que temos para conter os fantasmas dos caminhos que nós mesmos, ainda que sem querer, escolhemos.

Enquanto isso, o casal de desconhecidos no balcão agora se beija. Poderá ser ela a mulher da vida dele. Ou poderá ser ele a maior decepção da vida dela.

Porque escolhas e acasos – como diz José por de traz da autoridade de seus óculos – são estradas cheias de encruzilhadas cujo mapa só se desenha no instante em que as percorremos.

Por Farley Rocha.

Sobre Farley Rocha

Farley Rocha é professor, fã do Radiohead e do Seu Madruga. Já plantou uma árvore, escreveu um livro e edita o blog http://palavraleste.blogspot.com


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