
Este é um artigo ou crônica pessoal de Farley Rocha.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

Desde sempre falam sobre ele como se fosse um anjo, um semideus, por assim dizer, para os da sua geração – e para as gerações posteriores, um mito.
Seria exagero, já que se trata de um personagem de carne e osso. Mas é que Edson, o plebeu negro que com o cetro das chuteiras tornou-se Rei, possuía mesmo algo de imaterial como se o apelido que o fez célebre para o mundo significasse mais do que um nome. Pelé deixou de ser uma pessoa para virar um conceito, uma era, uma identidade cultural de uma nação inteira. Por isso, é difícil evocá-lo sem que haja na voz algum tom de reverência.
Como muitos gênios que a humanidade já produziu, Pelé foi daqueles que fizeram do ofício sinônimo da própria existência. Ele está para o futebol assim como Sócrates está para a filosofia, Shakespeare para o teatro, Einstein para a física. Porque não haveria futebol sem Pelé – ou, caso houvesse, seria outra coisa, uma coisa menos mágica, menos fascinante, menos arrebatadora.
O que dizer de um jogador que serviu, ao mesmo tempo, de parâmetro e inspiração para os que vieram depois dele? De longe, Pelé encarnou bem mais do que o atleta de alta performance que sempre foi, merecendo uma nota muito acima de um 10 conforme estampava no verso da camiseta.


São unânimes os depoimentos dos que o viram atuar ao descrevê-lo como um jogador extraordinário e insuperável. Exatamente como constatam os raros e ruidosos registros de seus lances, que já antecipavam o que os craques de hoje em dia imitam até com certa perfeição, mas sem a glória de quem os inventou 60 anos atrás.
De modo natural e instintivo, o mineiro de Três Corações, que marcou 1.283 gols oficiais e único da história a conquistar 3 Copas do Mundo, foi uma espécie de maestro do futebol, compondo dribles sofisticados para a época que imprimiram ao esporte o ritmo e a cadência de uma obra de arte. Com ele a partida ia além da mera competição. Seu estilo de jogo era um verdadeiro objeto de culto, um deleite ao belo, um convite à contemplação.
Nelson Rodrigues, profetizando sua majestade em crônica de 1958, escreveu que a realeza de Pelé “é, acima de tudo, um estado de alma”, ao supor que o então jovem de 17 anos possuía um talento que transcendia o corpo, que se impunha ao adversário e à torcida como uma condição superior. A bola, o campo e ele pareciam três elementos indissociáveis, um completando o outro; um sendo a extensão do outro.
Pelé partiu. Mas seu reinado, assim como seu estado de alma, haverá também de transcender o tempo, de perdurar feito uma lenda de anjos, semideuses e mitos na história dos homens.
Por Farley Rocha.

Farley Rocha é professor, fã do Radiohead e do Seu Madruga. Já plantou uma árvore, escreveu um livro e edita o blog http://palavraleste.blogspot.com