Farley Rocha

Este é um artigo ou crônica pessoal de Farley Rocha.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

Edson, o plebeu negro que se tornou Rei

Como muitos gênios que a humanidade já produziu, Pelé foi daqueles que fizeram do ofício sinônimo da própria existência.

Publicado em 09/01/2023 - 09:35    |    Última atualização: 09/01/2023 - 09:35
 

Desde sempre falam sobre ele como se fosse um anjo, um semideus, por assim dizer, para os da sua geração – e para as gerações posteriores, um mito.

Seria exagero, já que se trata de um personagem de carne e osso. Mas é que Edson, o plebeu negro que com o cetro das chuteiras tornou-se Rei, possuía mesmo algo de imaterial como se o apelido que o fez célebre para o mundo significasse mais do que um nome. Pelé deixou de ser uma pessoa para virar um conceito, uma era, uma identidade cultural de uma nação inteira. Por isso, é difícil evocá-lo sem que haja na voz algum tom de reverência.

Como muitos gênios que a humanidade já produziu, Pelé foi daqueles que fizeram do ofício sinônimo da própria existência. Ele está para o futebol assim como Sócrates está para a filosofia, Shakespeare para o teatro, Einstein para a física. Porque não haveria futebol sem Pelé – ou, caso houvesse, seria outra coisa, uma coisa menos mágica, menos fascinante, menos arrebatadora.

O que dizer de um jogador que serviu, ao mesmo tempo, de parâmetro e inspiração para os que vieram depois dele? De longe, Pelé encarnou bem mais do que o atleta de alta performance que sempre foi, merecendo uma nota muito acima de um 10 conforme estampava no verso da camiseta.

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São unânimes os depoimentos dos que o viram atuar ao descrevê-lo como um jogador extraordinário e insuperável. Exatamente como constatam os raros e ruidosos registros de seus lances, que já antecipavam o que os craques de hoje em dia imitam até com certa perfeição, mas sem a glória de quem os inventou 60 anos atrás.

De modo natural e instintivo, o mineiro de Três Corações, que marcou 1.283 gols oficiais e único da história a conquistar 3 Copas do Mundo, foi uma espécie de maestro do futebol, compondo dribles sofisticados para a época que imprimiram ao esporte o ritmo e a cadência de uma obra de arte. Com ele a partida ia além da mera competição. Seu estilo de jogo era um verdadeiro objeto de culto, um deleite ao belo, um convite à contemplação.

Nelson Rodrigues, profetizando sua majestade em crônica de 1958, escreveu que a realeza de Pelé “é, acima de tudo, um estado de alma”, ao supor que o então jovem de 17 anos possuía um talento que transcendia o corpo, que se impunha ao adversário e à torcida como uma condição superior. A bola, o campo e ele pareciam três elementos indissociáveis, um completando o outro; um sendo a extensão do outro.

Pelé partiu. Mas seu reinado, assim como seu estado de alma, haverá também de transcender o tempo, de perdurar feito uma lenda de anjos, semideuses e mitos na história dos homens.

Por Farley Rocha.

Sobre Farley Rocha

Farley Rocha é professor, fã do Radiohead e do Seu Madruga. Já plantou uma árvore, escreveu um livro e edita o blog http://palavraleste.blogspot.com


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