Farley Rocha

Este é um artigo ou crônica pessoal de Farley Rocha.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

E aííííí?!

Em meio à boemia de cidade pequena, sua presença nos cativa o mesmo efeito de uma joia rara.

Publicado em 23/01/2020 - 14:25    |    Última atualização: 23/01/2020 - 14:37
 

(À Ana Cristina Senra, com carinho)

Eu era adolescente quando a conheci. Mas como nossos hábitos, experiências e percepções de mundo estavam a uma década e meia de distância, só depois de mais velho é que nos tornamos amigos. Desde então, sempre a vejo pela noite de Espera Feliz, como quem extrai da lua e das estrelas motivos para se alegrar.

Quando nos esbarrávamos pelo tumulto da Exposição Agropecuária ou na porta da Boate 3ª Dimensão ou nas banquetas do balcão do Restaurante Brasinha, era certo pararmos e trocarmos dois instantes de prosa a respeito do som, do valor das bebidas, do passado nostálgico e da vida. E desses raspões notívagos, descortinamos afinidades e mútuas admirações como nos é natural nas relações de amizade.

Em meio à boemia de cidade pequena, sua presença nos cativa o mesmo efeito de uma joia rara. É que seu cumprimento firme e onipresente (“E aííííí!?”), seu modo particular e criativo de se vestir e, principalmente, seu jeito carismático e despojado de dançar conferem a ela o honroso título de “pessoa genuína” – postura que, num mundo de máscaras despertaria opiniões, para ela é filosofia e empoderamento.

À primeira vista, quem a encontra pelos bares de final de semana ou à frente dos palcos curtindo um show de rock percebe que algo de alternativo compõe o seu aspecto. É porque minha amiga consegue unir com elegância e originalidade as cores de uma antiga estética hippie à moda mais contemporânea – uma Janis Joplin do século XXI, eu diria.

Tanto que um dos acessórios que melhor definem seu figurino são seus chapéus. O simples fato de usá-los sem nenhum receio já revela a mulher com personalidade que ela é – atitude que, aliás, também demonstra na bela rosa desenhada à altura do ombro direito. “Sou verdadeira. O que sou por dentro expresso na forma como me veem por fora” – disse-me outro dia num barzinho.

Célebre em meio a conhecidos e desconhecidos e querida por todos por onde caminha, minha amiga é meio que um elo entre a lendária geração do final dos anos oitenta e a atual juventude de Espera Feliz. Vivenciou os acampamentos à la Woodstock na Festa do Paraíso, desfrutou das músicas e drinks do esquecido Degraus, presenciou luais no Morro da Canoa, experimentou das noites mitológicas do icônico Bar do Celinho… Se ouvimos dos mais experientes histórias sedutoras daquele tempo, é ela uma das personagens – que, determinada, continua a redigir seu emocionante enredo.

Contudo, nem só de rock se resume sua trajetória. Disfarçadas por debaixo do sorriso franco e dos cabelos orgulhosamente encaracolados há muitas páginas por ela preenchidas, escritas com a intensidade de quem não nega coragem à experiência de viver. Como qualquer mortal, ela traz no tronco de suas lembranças certas marcas e feridas que a existência nos grava na superfície da alma. Mas misturado à estrutura de suas perdas e frustrações pessoais, há também suas conquistas, seu orgulho e suas batalhas. Por isso, rompe como se fosse o último o amanhecer de cada dia e dignamente atravessa a cidade anunciando suas guloseimas: sanduiche natural para o lanche da tarde, chup-chup gourmet para o calor do verão, chocolates e bombons para qualquer época do ano… “Porque a vida é chance única, meu brother” – é o que sabiamente diria.

Quando penso na minha amiga, imagino os que nunca nos deixam impunes quando passam. Porque seus olhos refletem a ousadia que nos falta, assim como em sua voz ressoa a bravura que nos diferencia. A salvo o rigor de seu caráter, com o resto ela não se importa. Vive da forma que lhe convém. Se são de força seus passos firmes, são de delicadeza seus apertos de mão. Se é de luta a sua rotina, é para brindar alegrias que propõe comemorações.

Porque minha amiga é assim: arrojada e aguerrida, autêntica e descolada. Um pouco de quase tudo que gostaríamos de ser.

Por Farley Rocha.

Sobre Farley Rocha

Farley Rocha é professor, fã do Radiohead e do Seu Madruga. Já plantou uma árvore, escreveu um livro e edita o blog http://palavraleste.blogspot.com


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