Farley Rocha

Este é um artigo ou crônica pessoal de Farley Rocha.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

Cheiro de jaula

Naquela época, pelo menos uma vez por ano passava um circo pela cidade.

Publicado em 19/11/2021 - 09:03    |    Última atualização: 19/11/2021 - 09:03
 

A primeira vez que vi de perto um hipopótamo foi num circo chamado Circo Di Monza. À certa altura do espetáculo, depois do show de mágica e da apresentação felpuda dos poodles amestrados, o locutor com um postiço sotaque italiano anunciava a atração principal. Então, entrava no picadeiro o domador conduzindo o bicho à frente, que rodava em círculos à direita e à esquerda, subia e descia cubos de metal, saltava por dentro de argolas e tubos, e a cada comando cumprido, aquela simpática e enrugada almôndega de 1.500 quilos se curvava aos aplausos efusivos da arquibancada.

Era meados dos anos de 1990. Naquela época, pelo menos uma vez por ano passava um circo pela cidade. Para nós, meninos e meninas de interior, criados com pé no chão a mais de duas décadas de distância das tecnologias atuais, era o circo nossa conexão mais próxima com o mundo exterior. Porque além do entretenimento de risos, algodão doce e maçã do amor, era através dele que víamos ao vivo os animais fabulosos que só conhecíamos pela televisão – como no caso do hiperbólico hipopótamo.

Geralmente a companhia ficava acampada na parte baixa da Beira Rio, num enorme terreno baldio que havia entre a rua Major Pereira e o bairro Santa Cecília. À noite, pagava-se o valor de duas ou três pipocas pelo ingresso. Mas durante o dia, talvez por estratégia de publicidade, abriam-se os alambrados de acesso, suspendiam as lonas da gigantesca tenda colorida e nos deixava passear entre os ônibus-dormitórios, caminhões de carga e caminhonetes empoeiradas que compunham a trupe.

Lembro-me que à luz do dia o ambiente circense era muito diferente. Nada se assemelhava ao glamour noturno quando apagavam-se os refletores. Ali, às duas da tarde, o que víamos era um espaço caótico de trabalho, com gente para lá e para cá arrastando cordas nos ombros, carregando ferragens ou marretando pinos de metal sobre o chão como se o circo fosse um confuso e barulhento canteiro de obras.

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Os artistas que à noite se apresentavam pomposos no picadeiro – ilusionistas, palhaços, atiradores de faca, engolidores de fogo, pilotos do globo da morte – eram os mesmos que víamos trabalhando duro para além do espetáculo. Alguns, vencidos pela dupla jornada, roncavam alto nas redes à sombra dos toldos; outros enxugavam o suor do rosto com as mangas puídas. E as trapezistas, sempre tão leves e formosas quanto uma libélula, quase não as reconhecíamos fora dos trajes justos e maquiagem de paetês enquanto lavavam louça numa bacia d’água.

Não podíamos imaginar, mas aquela gente que rodava o mundo vendendo sonhos tinha a mesma realidade pesada dos operários de uma fábrica.

No entanto, quando visitávamos o circo nos bastidores da tarde o que mais nos atraía era a ala reservada aos animais. Para nós, aquilo era o mais parecido que tínhamos de um zoológico, ainda que modesto. Mesmo assim, ficávamos fascinados.

De um lado ficavam os chimpanzés com camisetas de futebol. De outro o cercado das lhamas com seu casaco de pele encardido pela poeira. E num local mais distante, como se isolados de tudo, ficavam os leões zanzando em círculos no reduzido cubículo de suas jaulas.

A despeito do que assistíamos no Globo Repórter, aqueles bichos magros e carentes traziam no olhar a melancolia impassível do cativeiro, muito diferente dos que viviam livres nas savanas africanas, fortes e impávidos, capturados apenas pela lente das filmadoras.

Mas por obra da pureza, ainda não tínhamos na época esta consciência de compaixão que a maturidade nos forja aos bichos da floresta. O que nos impressionava mesmo era estar a poucos metros de animais tão selvagens cuja natureza agressiva se repelia apenas pelas barras de ferro entre eles e nós. Principalmente quando dávamos a sorte de um dos felinos, atarantado pela multidão de curiosos, rugir furioso bem na nossa frente.

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Entre a molecada, era comum o boato de que o dono do circo alimentava as feras com cães de rua. Nunca chegamos a presenciar tal crueldade, mas pelo odor pestilento que exalava da jaula, sempre tão suja quanto o chão de um bueiro, acreditávamos piamente que pudesse ser verdade.

Muitos anos depois, quando a exploração indiscriminada de animais tornou-se (tardiamente) proibida nos espetáculos, aqueles circos da minha infância deixaram de visitar a cidade, e junto com eles também se foi a magia que tanto nos encantava.

Mas ainda hoje, toda vez que passo pela Beira Rio é impossível não projetar na memória a imensa lona colorida de outros tempos, naquele mesmo terreno agora ocupado por dezenas de casas. E, com certa nostalgia, quase consigo sentir o cheiro de jaula daqueles leões que faziam nossa alegria apesar de sua profunda e amordaçada tristeza.

Por Farley Rocha.

Sobre Farley Rocha

Farley Rocha é professor, fã do Radiohead e do Seu Madruga. Já plantou uma árvore, escreveu um livro e edita o blog http://palavraleste.blogspot.com


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