Farley Rocha

Este é um artigo ou crônica pessoal de Farley Rocha.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

A vigília

Seriam cenas triviais não fosse o fato de que todos, neste momento, se mantêm alerta numa vigília que atravessará a madrugada.

Publicado em 13/01/2022 - 17:02    |    Última atualização: 13/01/2022 - 17:02
 

Sábado, 9h da noite. Capricornianos celebram aniversários num prédio da Área de Lazer, famílias assistem novelas no Bairro João do Roque, jovens bebem cerveja nos bares do centro e pedestres transitam sob marquises da José Grillo. Seriam cenas triviais não fosse o fato de que todos, neste momento, se mantêm alerta numa vigília que atravessará a madrugada.

É que nas últimas vinte e quatro horas chove pesado na região e, com o trauma de duas grandes enchentes em menos de dois anos, a preocupação tornou-se uma companhia indesejada que se faz presente quando chega janeiro.

Por isso, entre uma música e outra dos que comemoram no apartamento, entre um gole e outro dos que bebem nos bares, entre um intervalo e outro dos que assistem TV e entre um passo e outro dos que caminham na rua, todos checam suas redes sociais para acompanhar de longe o nível do São João.

De hora em hora a Defesa Civil emite boletins oficiais, o Portal Espera Feliz publica imagens em tempo real da cheia, e aplicativos de mensagem superlotam smartphones com notícias de parentes e amigos que residem nas áreas de risco.

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Mesmo com a situação sob controle, com autoridades monitorando o rio e as previsões meteorológicas, paira no ar um clima de apreensão como se as nuvens sobre a cidade fossem presságios de mau agouro. E é com razão: há dois verões que parte da zona urbana se submerge em lama e destruição, instalando o caos até aonde a violência das águas alcança.

Apesar das recentes obras da prefeitura para conter a inundação, uma espécie de sinal vermelho coletivo perturba o sono de Espera Feliz – nesta noite, os que conseguirão dormir terão sonhos vertiginosos com dilúvio e ruínas.

Não só os que moram próximos ao rio mas também os que estão a cem, duzentos metros das margens, começam a suspender os móveis ou empreender mudanças de urgência antes que o mal maior se repita. E sob a chuva, na iminência de uma madrugada incerta, cidadãos se movimentam, aflitos, atenuando o temor com amparo e solidariedade.

As luzes da Major Pereira, dos bairros João Clara e Santa Cecília, da Rua Nova e da Beira Rio permanecerão acesas até bem depois da meia-noite – muitas delas só se apagarão quando a manhã de domingo chegar.

Viaturas percorrerão de ponta a ponta a cidade. Secretários municipais em capas-de-chuva discutirão planos em caso de calamidade. E as memórias ainda não cicatrizadas de 2020 e 2021 serão fantasmas a assombrar a paz de todos, sem exceção.

As horas avançam. O temporal aos poucos arrefece. E entre preces, telefonemas e conversas de portão o rio não transborda. Mas a vigília continua, atenta, como se a enchente fosse um bicho traiçoeiro que desfere o bote quando menos se espera.

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Por Farley Rocha.

Sobre Farley Rocha

Farley Rocha é professor, fã do Radiohead e do Seu Madruga. Já plantou uma árvore, escreveu um livro e edita o blog http://palavraleste.blogspot.com


  • JOSE EDUARDO VIEIRA DE SOUZA
    conhecido como EDUARDO CAWBOY

    ✰25/07/1965     ✞24/01/2022

    O corpo está sendo velado no(a) CAPELA VELÓRIO VIDA DE ESPERA FELIZ e será sepultado às 12:00 horas do dia 25/01/2022 no cemitério MUNICIPAL, em GUAÇUÍ

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