Enrique Natalino

Este é um artigo ou crônica pessoal de Enrique Natalino.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

Redes sociais em tempos de pandemia

A população está preparada para lidar com esse mundo digital? Sabe distinguir notícias e análises aprofundadas de Fake News?

Publicado em 26/03/2020 - 19:44    |    Última atualização: 26/03/2020 - 19:44

Num mundo que luta diariamente contra a pandemia do coronavírus em todos os continentes e, particularmente, num país como o nosso que se prepara para enfrentar o maior desafio deste século, as redes sociais são um instrumento fundamental para a divulgação de informações úteis e o compartilhamento de boas análises para a população. O que escrevemos deve estar investido, portanto, de bom senso e responsabilidade.

Ao aceitar o título de Doutor Ho­noris Causa em Comu­ni­cação e Cultura na U­ni­versidade de Turim, em 2015, o es­critor italiano Umberto Eco (1932-2016) disse: “As mí­dias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel”.

Umberto Eco foi um dos maiores especialistas em semiótica e um dos mais renomados intelectuais italianos do século XX. Sua percepção do poder das mídias sociais no mundo de hoje ganhou uma dramaticidade ainda maior com a vitória de Donald Trump nas eleições dos EUA em 2016.

Com a força do Twitter, um bilionário fanfarrão venceu as eleições presidenciais atacando as instituições e a ciência em uma das democracias mais antigas do planeta. Com o contato direto entre o líder de massas e seus seguidores, via redes sociais, narrativas como a de que a Terra é plana tornam-se verdades absolutas para alguns grupos. O uso que líderes populistas dão para as redes sociais, confundindo uma bolha de fanáticos com toda a pluralidade da sociedade, mostra que a arena política também se nutre da combinação entre elevada conexão à internet e escolarização deficiente.

As tentações totalitárias voltam a rondar as nossas democracias latino-americanas com o enorme poder proporcionado pela comunicação direta, sem intermediários, entre líderes e seguidores num continente com tradições autoritárias e caudilhescas. Líderes demagógicos usam da liberdade de opinião para destruir as bases de uma sociedade plural. Em países em que a elevada taxa de conexão da população à internet convive com baixas taxas de escolaridade, qualidade de ensino sofrível, índices baixíssimos de leitura, fraca tradição cidadã e pouca valorização da Educação, da Ciência e da Cultura, as redes sociais trazem desafios igualmente problemáticos.

A professora e historiadora Carmen Lícia Palazzo resumiu com muita propriedade o que isso significa em um país como o nosso:  “Tão ruim para o Brasil quanto este vírus terrível é o espaço que vão tomando os medíocres, os mal-intencionados, os frustrados. São pessoas que se travestem de um tênue véu de credibilidade para engrossar o bloco dos que passaram a se sentir importantes a partir do momento em que começaram a integrar um grupo que faz da internet a sua voz, tendo como guia uma personalidade tosca, torpe, doentia que nos governa”.

Em uma sociedade aberta e globalizada, a ética nas redes sociais deveria ser objeto de disciplina escolar e de letramento digital, tanto quanto o Português, a Matemática, a História e as Ciências. Até os governos se comunicam com cidadãos e divulgam suas políticas sociais por meio das redes sociais. A capilaridade e a instantaneidade do mundo digital o fazem invadir a intimidade de nossos lares todos os dias, do nascer ao pôr do sol. Em um momento no qual precisamos enfrentar juntos o maior desafio de saúde pública da história brasileira, o acesso à internet torna possível acessar informações, trabalhar à distância e o manter o contato diário com familiares, amigos, colegas e entes queridos. A população está preparada para lidar com esse mundo digital? Sabe distinguir notícias e análises aprofundadas de Fake News? Certamente temos desafios imensos a galgar, sobretudo em função das desigualdades sociais e educacionais que atravessam gerações.

A maior vantagem da internet é levar todo o estoque de conhecimento disponível no mundo até a comodidade dos nossos lares. Como diria o educador mineiro Darcy Ribeiro (1921-1997), fundador da Universidade de Brasília: “Trate de aprender tudo o que puder. Saber demais não ocupa lugar. Ignorância, sim. A sabedoria anda solta por aí para a gente aprender o que quiser”.

Por Enrique Carlos Natalino.

Sobre Enrique Natalino

Enrique Carlos Natalino é doutorando em Ciência Política na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e mestre em Administração Pública pela Escola de Governo da Fundação João Pinheiro. É graduado em Direito na Universidade de São Paulo (USP). É professor-colaborador do Instituto de Ciências Econômicas e Gerenciais da PUC-Minas. Foi pesquisador-visitante do German Institute of Global and Area Studies (GIGA), na Alemanha. Co-edita o blog de Política Internacional Fora da Cadência (www.foradacadencia.com).


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