Cidade Submersa – Capítulo XI – Entre Suor e Lágrimas, a Limpeza e Reconstrução da Cidade

Capítulo XI da série de reportagens documental "Cidade Submersa".

Publicado em 25/09/2020 - 10:56    |    Última atualização: 25/09/2020 - 10:56
 

CAPÍTULO XI

ENTRE SUOR E LÁGRIMAS, A LIMPEZA E RECONSTRUÇÃO DA CIDADE

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Depois de duas noites mal dormidas a população de Espera Feliz acordou cedo naquele domingo 26 de janeiro para começar a colocar as coisas em ordem – ainda que o suor de muitos se confundisse com as lágrimas que desciam pelo rosto.

Por dezenas de ruas, por sobre calçadas e calçamentos, desde os bairros mais distantes até o centro da cidade, iam-se depositando pequenas montanhas de escombros retirados de dentro das casas. Guarda-roupas e outras mobílias de madeira desmanchados, geladeiras e televisores pifados, roupas e calçados encardidos. Tudo era empilhado no mesmo monte onde álbuns de fotografia, certidões de nascimento, contratos de seguro, brinquedos, sonhos e memórias de uma vida inteira se desfaziam na umidade pegajosa da lama – que cada vez mais exalava um odor de pântano à medida que os dias se passavam.

(Estabelecimento comercial no centro da cidade)

Se para quase todos, ver a cidade submersa foi o mesmo que vivenciar um pesadelo, ter de encará-la nos dias que se seguiram era como estar dentro de um filme de terror que não terminava. Por todos os cantos a realidade mais parecia uma ficção de ruínas e desolação.

Embora os bairros João Clara, Santa Cecília, Patronato e a rua Major Pereira tenham sido os mais afetados, para quem percorresse a cidade era difícil dizer qual lugar havia menos destruição. Afinal, mais de dois terços de Espera Feliz haviam sido tomados pela grande enchente. Só não tinha lama nas partes mais altas da cidade, onde as águas não puderam alcançar.

Muitos dos comércios que não foram inundados nem chegaram a abrir as portas naqueles primeiros dias. Em meio ao caos, era impossível a cidade funcionar normalmente sua rotina. Por isso, durante uma semana inteira houve uma mobilização em massa de voluntários para limpar as residências, os estabelecimentos comerciais, as calçadas, as ruas e o próprio gosto amargo que a tragédia havia deixado na alma da cidade.

Para que as casas atingidas voltassem a se parecer um lar, era preciso remover todo o entulho a que tinham reduzido seus pertences. Em seguida arrastar para fora com enxadas, vassouras e rodos a lama e toda espécie de imundície trazida pela enchente sedimentada no chão, nas paredes e no teto. Por fim, esfregar, enxaguar e desinfetar cada canto num longo e penoso trabalho que durou uma sequência de vários dias.

Para recuperar as escolas acometidas pela inundação, pequenas multidões formadas por professores, alunos e pais de alunos se revezavam em cada uma delas para refazer sua integridade. Como o início do ano letivo teve que ser suspenso por conta do desastre, aquelas primeiras semanas foi de um intenso e prodigioso trabalho dentro e fora das salas de aula. De acordo com os voluntariados envolvidos, cada pá de lama, cada balde d’água e cada caco retirado do chão eram um passo à frente para devolver o alegre aspecto de escola que estes ambientes sempre tiveram antes.

Em qualquer direção que se olhasse, haviam dezenas de pessoas com a mão na massa. Amigos e familiares prestando auxílio, desconhecidos distribuindo ajuda, caminhões e pick-ups de empresas locais cedidos para a remoção dos destroços. O músico Leone Maia e o trabalhador da construção civil Claudio Maia, dois primos residentes no povoado de São Sebastião da Barra, disseram que durante aquela semana vieram por dias seguidos à cidade para se juntar aos mutirões de limpeza. Segundo relataram, eles ajudaram em diversas casas dos bairros João Clara, Santa Cecília, rua Major Pereira e numa madeireira próxima ao, como é popularmente conhecido, Burródromo, que ficou abaixo de 3 metros em pleno curso da enchente na curva da Beira Rio.

(Madeireira na avenida Beira Rio)

Os dois voluntários contam que uma das casas que viram em pior estado foi uma localizada na rua Jurema Ventura Marinho, na viela apelidada de Beco da Pereira. Como a proprietária não estava na cidade no final de semana da catástrofe, a casa só foi aberta na quarta-feira, quatro dias após a enchente. Além da lama retornada pelo sistema de esgoto, que se estendia do chão do banheiro a todos os cinco cômodos da residência na forma de uma nata fétida e lodosa, tudo o que estava dentro da geladeira que tombou foi derramado no meio da cozinha, causando um mal cheiro por todo o recinto devido às carnes, cebolas e laticínios apodrecendo pelos cantos. Só ali, Leone e Claudio gastaram 3 dias de trabalho.

Em quase todas as outras residências a situação não era muito diferente. Entretanto, como a população inteira estava voltada para o mesmo propósito, o duro esforço tornava-se um pouco mais leve ao perceber que cada gesto de ajuda era essencial para fazer a diferença. De acordo com relatos de moradores, não há na memória de Espera Feliz nenhum outro momento em que o espírito solidário foi tão contagiante. Todos se amparavam como se do bem-estar do próximo dependesse a sua própria felicidade.

Por isso, muitos moradores do Morro da Major Pereira, a salvos da enchente devido sua privilegiada localização geográfica, desceram imediatamente para ajudar os moradores da parte baixa da cidade. E durante este período de angústia não havia nenhuma distinção de classe, prestígio ou endereço entre as pessoas. Doutores ou piões, ricos ou pobres, do centro ou dos bairros, todos tinham uma única cor no meio da lama: marrom. Partilhando do mesmo drama, todos tinham uma só identidade: esperafelicenses.

A ESSENCIAL FORÇA DE TRABALHO DAS COMUNIDADES RURAIS

O Secretário Municipal de Obras e Infraestrutura Edson Francisco Simião comandou uma força tarefa para a limpeza da cidade que, entre funcionários públicos e voluntários, reuniu centenas de pessoas. Mas a demanda era tão grande que mesmo utilizando a capacidade máxima de mão-de-obra da prefeitura, o trabalho de remoção do barro e dos entulhos só foi possível graças ao apoio imensurável dos moradores das comunidades rurais do município.

Grande parte dos fazendeiros de café, criadores de gado, meeiros, pequenos proprietários e trabalhadores da agricultura familiar suspenderam imediatamente suas atividades no campo e se deslocaram para a cidade munidos com ferramentas, caminhões, máquinas, tratores e carros-pipas.

A partir daquele domingo de manhã e durante os sete dias seguintes, foi visto pelas ruas enlameadas de Espera Feliz uma multidão indo e vindo de dentro das casas, das lojas, nas calçadas, empunhando pás, rodos e mangueiras. Das 7 horas da manhã às 8 da noite havia um incessante tráfego de pessoas e veículos removendo a sujeira. Se vista de cima, a cidade pareceria imitar o mecanismo de um formigueiro. Pois, com solidariedade, união e, principalmente, organização todos desempenharam um verdadeiro trabalho de formiguinhas cujo objetivo era reerguer a própria comunidade.

O Secretário Municipal de Meio Ambiente e Defesa Civil Wagner Villa Verde, que atuou em várias frentes desde os primeiros impactos da grande enchente, estima que durante esses dias mais de mil pessoas, entre profissionais da prefeitura, da zona rural e voluntariados, tenham participado do processo de limpeza das ruas do centro e dos bairros.

Outros municípios vizinhos também participaram deste mutirão, como a Prefeitura Municipal de Caiana que enviou mão-de-obra, máquinas e o próprio prefeito para ajudar nos trabalhos. O Demlurb de Muriaé, por intermédio do Promotor da Comarca de Espera Feliz Dr. Vinícius Bigonha Cancela Moraes de Melo, permaneceu em Espera Feliz por vários dias auxiliando na remoção da sujeira.

Para isso, foi preciso que se organizasse uma eficiente logística para realizar aquela complexa tarefa. A prioridade foi retirar os entulhos das vias principais do centro para que o trânsito ficasse desimpedido e possibilitasse a circulação dos caminhões e tratores. Simultaneamente, outras frentes de trabalho adentravam com homens e máquinas nos bairros para liberarem passagem aos moradores.

Assim, ao final de três semanas, não fossem as diversas pontes quebradas, as dezenas de casas demolidos, as margens do rio escavadas e as marcas do nível d’água nas paredes era difícil dizer que uma enchente de extraordinárias proporções havia submergido recentemente a cidade.

De acordo com o Prefeito Municipal João Carlos Cabral de Almeida, o trabalho de limpezafina ainda perdurou por mais algum tempo. Conforme os moradores iam finalizando a reorganização de suas residências, as máquinas da prefeitura iam recolhendo os dejetos acumulados nas ruas e vielas dos bairros. Para os que a viram naquele final de tarde de sábado de 24 de janeiro, o processo de recuperação da área urbana, embora física e emocionalmente árduo, foi relativamente rápido – com exceção daqueles que perderam tudo, que precisaram de um maior tempo para recomporem seu próprio estado de espírito.

Contudo, algo chamou a atenção de muitos. Diversas testemunhas relatam que, durante esses dias de limpeza, sempre que irrompia a madrugada era possível ver dezenas de pessoas, residentes das áreas periféricas da cidade, percorrendo ruas e esquinas, remexendo entulhos rejeitados nas calçadas. O que para uns eram objetos de descarte, para outros eram utensílios essenciais. Geralmente ignorados à luz do dia, os abismos sociais de Espera Feliz tornaram-se evidentes sob a escuridão daquelas noites.

Sobre o autor

Farley Rocha é professor de Língua Portuguesa e Literatura das redes pública e privada de Espera Feliz. É cronista do site PortalEF e tem dois livros publicados, Mariposas ao Redor (2011) e Livre Livro Leve (2015).


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