Cidade Submersa – Capítulo II – Manhã de Sexta-feira, 24 de Janeiro

Capítulo II da série de reportagens documental "Cidade Submersa".

Publicado em 16/09/2020 - 14:05    |    Última atualização: 21/09/2020 - 10:19
 

CAPÍTULO II

MANHÃ DE SEXTA-FEIRA, 24 DE JANEIRO

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Aquela sexta-feira 24 de janeiro de 2020 amanheceu tão chuvosa quanto os dias anteriores. Por isso, circulavam relatos de que o Rio São João subia progressivamente e que já estava prestes a sair da calha em alguns pontos da cidade.

Segundo relata a Coordenadora da Defesa Civil Isabella Escoralique Araujo, os setores responsáveis do município já vinham monitorando a situação desde o dia anterior, pois, de acordo com boletins meteorológicos que indicavam excesso de precipitação, poderiam haver naquele final de semana inundações e deslizamentos por toda a região.

Mas para a maior parte da população esperafelicense o dia transcorria com normalidade. Acreditava-se que mais cedo ou mais tarde pararia de chover e que o nível da água recuaria.

No entanto, por volta das 9 horas da manhã a Defesa Civil foi atender ao primeiro chamado de ocorrência que principiaria os demais eventos daquele dia. Uma barreira havia deslizado na rua Carangola, à altura da ponte de acesso à Rua Nova. Junto com o barranco uma pequena árvore veio ao chão, bloqueando parte da via. Este incidente foi o marco zero da tragédia futura, sinalizando que algo de muito grave estava para acontecer dentro das próximas horas.

De acordo com a Coordenadora Isabella, além do transbordamento do rio havia também a preocupação com possíveis deslizamentos em outras partes. Por ter sido construída num vale relativamente estreito, com o tempo Espera Feliz acabou se expandindo para os morros que a cercam. Por isso, ruas e bairros ou foram erguidos encosta acima ou sob barrancos íngremes, como é o caso dos morros do Waltair, da Copasa, do Hospital, da Major Pereira, os bairros Novo Horizonte, Porto Nobre, João do Roque, as ruas Dom Silvério, Major Pereira e alguns trechos da rua Carangola.

No mesmo momento em que fazia as vistorias no local para prevenir moradores contra eventuais novos desmoronamentos, e acionavam a Secretaria Municipal de Obras para efetuar o desbloqueio da pista, a Defesa Civil recebeu outro chamado de urgência. No bairro João Clara algumas casas mais próximas do leito já começavam a ser alagadas.

O ALERTA NO BAIRRO JOÃO CLARA

O Bairro João Clara talvez seja o local que mais sofre com as enchentes, por menores e menos agressivas que elas sejam. Primeiro porque 90% da área onde foram erguidas as casas se constituem de terreno plano, justamente na margem mais baixa do leito do São João dentro da cidade. Segundo porque é um dos bairros com maior densidade populacional de Espera Feliz. Deste modo, qualquer cheia de verão costuma derramar o rio à altura de pelo menos meio metro por entre algumas ruas e casas da localidade.

Após o chamado, a equipe da Defesa Civil se dirigiu ao local para avaliar as áreas de risco e providenciar as devidas medidas de segurança aos moradores. As ruas mais próximas ao rio estavam se inundando ou pelo transbordamento da calha ou pelo refluxo dos bueiros. Algumas dezenas de casas já haviam sido atingidas. E muitas outras, mais distantes, estavam na direção irreversível das águas.

A Coordenadora Isabella conta que, diante da enchente iminente, foi organizado imediatamente um patrulhamento por todo o bairro alertando quanto ao perigo da inundação. Com o auxílio de caminhões, funcionários da prefeitura e voluntários iniciou-se o trabalho de retirada de mobílias e pertences dos moradores e de instalações públicas existentes no local, como creches e postos de saúde. Outros residentes, habituados com alagamentos pontuais ocorridos no passado, começaram a suspender seus móveis na expectativa de que esta não seria maior do que as enchentes anteriores.

Ainda pela manhã, as três primeiras famílias das centenas que viriam a ficar desabrigadas ou desalojadas durante as semanas seguintes foram conduzidas pelo Serviço Social para receberem o devido acolhimento no prédio do Seminário – local que se tornou referência durante o desastre por ter servido de abrigo para a maior parte das vítimas e por ter sediado o porto seco, onde autoridades se reuniam para tomarem as decisões.

A PRIMEIRA REUNIÃO DO GABINETE DE CRISE

A partir desta primeira ocorrência de alagamento e registro de pessoas desabrigadas, e diante das previsões alertando para fortes chuvas na região ao longo do dia, a Secretária Municipal de Assistência Social Alba Barbosa e a Coordenadora da Defesa Civil Isabella Escoralique Araujo propuseram, por volta do meio-dia, a primeira reunião na Prefeitura Municipal para discutirem quais procedimentos seriam adotados, caso outros locais do perímetro urbano viessem a ser afetados.

Também participaram desta reunião o Secretário Municipal de Agricultura Michel de Assis e Silva – que, horas antes, prestou auxílio à equipe da Defesa Civil durante as primeiras ocorrências – a Secretária Municipal de Saúde Rubia Simiqueli Cabral e o Secretário Municipal de Administração, Fazenda e Planejamento Derly Rodrigues. Como o Prefeito Municipal João Carlos Cabral de Almeida não se encontrava na prefeitura naquele momento, por telefone ficou a par dos desdobramentos da reunião e imediatamente se deslocou para acompanhar de perto as condições em que Espera Feliz se encontrava.

A partir deste encontro realizado em caráter de urgência, e mediante o prenúncio de uma catástrofe que espreitava a cidade, os agentes públicos constataram a necessidade de se consolidar, intempestivamente, um Gabinete de Crise. Ali mesmo lançaram mão de um documento específico para casos como este, que viria a nortear as futuras decisões e ações tomadas nas semanas seguintes: o Plano de Contingência.

O PLANO DE CONTINGÊNCIA

Com a importância de se mantê-lo sempre atualizado, o Plano de Contingência de Proteção e Defesa Civil (PLANCON) descreve detalhadamente quais ações devem ser executadas em situações de desastre natural e quais procedimentos devem ser seguidos para a prestação de socorro e assistência aos atingidos.

De acordo com o Secretário Municipal de Meio Ambiente e Defesa Civil Wagner Villa Verde, o Plano de Contingência de Espera Feliz havia sido atualizado em dezembro de 2019 – isto é, há menos de dois meses da grande enchente submergir a cidade.

Conforme relata, através de um seminário que participou no mês de novembro na cidade de Juiz de Fora, promovido pelo 3º Comando Operacional do Corpo de Bombeiros, o Secretário foi orientado a proceder a atualização do documento, pois de acordo com os mapas meteorológicos apresentados por especialistas, era previsto a possível formação de uma Zona de Convergência do Atlântico Sul para o início de 2020 sobre a região Sudeste do país – o que incluiria os territórios da Zona da Mata mineira e, consequentemente, a Serra do Caparaó.

De acordo com os agentes públicos entrevistados, foi graças a este Plano de Contingência atualizado que os trabalhos emergenciais frente ao caos puderam ser conduzidos da forma mais efetiva possível, dirimindo os impactos causados pela catástrofe.

Desde a primeira reunião do Gabinete de Crise, em 24 de janeiro, até os últimos dias do mês de fevereiro, este documento determinou cada passo daqueles que atuaram na linha de frente junto aos abrigos e na reorganização do município.

DESASTRE NATURAL DE ICONHA, UMA SEMANA ANTES

Devido às anomalias meteorológicas daquele período na região Sudeste, no dia 18 de janeiro os esperafelicenses puderam acompanhar de longe os efeitos dramáticos de uma outra enchente que havia devastado o centro de Iconha – cidade a 166 quilômetros de Espera Feliz, ao sul do Espírito Santo – sem imaginarem que exatamente sete dias depois uma catástrofe de similar magnitude os atingiria.

Vídeos de WhatsApp noticiavam uma brutal enchente que arrasou boa parte da cidade capixaba. Eram cenas de ruas completamente tomadas por correntezas que atravessavam a madrugada. Outras imagens traziam o resultado da tragédia, quando as águas recuaram pela manhã. A inundação havia destruído casas, praças, pontes, lojas e diversas empresas do centro comercial.

Aos esperafelicenses, conforme constatavam tais imagens compartilhadas pelas redes sociais a sensação era a de que um terremoto havia sacudido em cheio Iconha. Tudo estava fora do lugar. Carros capotados, paredes demolidas e mobílias desarticuladas por sobre o que haviam sido jardins públicos.

Na noite de 17 de janeiro, à altura dos municípios capixabas de Vargem Alta e Alfredo Chaves, o Rio Iconha havia recebido uma volumosa descarga de chuva. Pouco antes do amanhecer as águas chegaram à Iconha numa proporção de 4 metros acima do nível normal. O município, que tem aproximadamente 14.000 habitantes, ficou com centenas de pessoas desabrigadas e desalojadas, 2 óbitos e milhões em prejuízos materiais e financeiros.

Mesmo distante, a população de Espera Feliz se sensibilizou com a tragédia alheia e promoveu uma campanha de arrecadação de agasalhos e alimentos para ajudar os vizinhos capixabas.

No entanto, o decorrer daquela mesma semana fez com que o destino de Espera Feliz a transformasse de prestadora de socorro à vítima. Na madrugada do sábado seguinte eram os esperafelicenses quem compartilhavam vídeos de uma enchente a qual, desta vez, testemunhavam bem de perto.

Sobre o autor

Farley Rocha é professor de Língua Portuguesa e Literatura das redes pública e privada de Espera Feliz. É cronista do site PortalEF e tem dois livros publicados, Mariposas ao Redor (2011) e Livre Livro Leve (2015).


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