Saarafelicense

Por Fellippe Heitor.

Foto: Abner Almeida.

A transição entre a quarta série (atual quinto ano) e a quinta série (atual sexto ano… maldita nova-já-velha-nomenclatura à qual não me acostumo!) foi drástica. As manhãs preguiçosas não mais existiam e, considerando a distância entre minha casa e a escola, acordar muito cedo era obrigatório, principalmente para evitar perder a primeira sirene e acabar trazendo pra casa um “atrasado” carimbado como um grito vermelho na caderneta.

Aquele não era o único colégio estadual da cidade, mas foi batizado pela população de “O Estadual”. Ali estudei dos meus onze até o fim dos meus dezessete, e de alguns curtos períodos desse tempo tenho boas lembranças.

Outros, porém, não me trazem saudade.

A nova ordem era acordar muito cedo e marchar. Uma longa caminhada solitária, a pé. Bons mineiros que somos, éramos pra achar que a escola era logo ali. Mas a sensação de peregrinação que o trajeto causava era comum a toda a minha geração: a escola não era logo ali.  Não para quem morava mais perto do centro. A escola era do outro lado da cidade! E, às seis e tantas da manhã, as pernas não estavam preparadas para tanto exercício.

O clima de Espera Feliz se divide em duas estações: suor pingando e “fumaça” saindo da boca ao respirar. E, por vezes, a depender da época do ano, essas duas estações acontecem no mesmo dia. Por isso, com frequência a ida para escola era uma escalada ao Everest, com as pernas formigando pelo esforço repentino pós-acordar, enquanto a volta era uma jornada cruzando o Saara.

A Rua Carangola era o trajeto mais curto para quem morava no meu bairro e, portanto, minha rota diária eleita.

Em Espera Feliz, frequentemente optamos por apelidos para algumas ruas mais “famosas”. Assim, por exemplo, a Avenida Jayme Toledo é para nós “A Reta”. As proximidades da Capitão José Carlos de Souza com a Jair Gregório Fialho são conhecidas como “Rua Nova” (até hoje não sei se é uma ou a outra, mas tudo por ali fica na Rua Nova quando se procura). Da mesma forma, a Rua Carangola passou a ser conhecida por um bom tempo como “O Asfalto”, por ter sido o primeiro trecho a ganhar camadas de brita e piche, numa época em que os paralelepípedos começaram a perder vez por aqui.

A última sirene indicando o fim das aulas tocava às onze e vinte e cinco. Algumas vezes um ou outro colega anunciava que iria descer pelo asfalto, e nesses dias eu me esforçava para manter um diálogo decente durante a caminhada até o centro. Na maioria dos outros dias, porém, eu descia sozinho, como já me era habitual.

O clima árido que se instalava na hora do almoço se aliava à fome e à falta de marquises, fazendo da experiência algo digno de Mad Max, pelo menos pra mim. Mas, por dentro, a experiência tinha muito menos ação do que o filme.

A paisagem inalterada, dia após dia, me fazia visitar os mesmos pensamentos, a cada casa suja de poeira do caminho. Eu observava as mesmas placas e apontava mentalmente os mesmos erros de Português. Eu via as mesmas pessoas e pensava repetidamente no que elas estavam pensando de mim. E eu revivia as mesmas memórias do caminho a cada passo.

Tinha sido um alvo muito fácil quando criança. Isso que na nova nomenclatura é chamado de bullying, vivi muito. Só que sem saber que tinha um nome chique.

Numa ocasião, fui “vítima” de um “ataque”, bem na altura da pinguela que ligava o asfalto à Rua Nova. As aspas são pertinentes, veja você: dois irmãos pouco mais velhos que eu e que moravam por ali estavam de tocaia esperando um bobo passar. Não acredito que eu tenha sido o único premiado naquele dia com o modus operandi deles, mas o sentimento é que sim. Um me abordou e perguntou as horas. Foi a deixa para o outro me imobilizar para que o primeiro então sacasse sua arma: um pincel hidrocor que seria usado pra riscar meu rosto. Naquele dia específico o bully não teve sucesso e consegui me soltar. Mas a lembrança do “ataque” de anos antes ainda era o que me vinha à cabeça todos os dias quando passava pela altura da pinguela.

(Pinguela é uma ponte estreita de madeira, mas você sabe disso, não é?)

Já mencionei que a Rua Carangola não tem uma calçada? Em outro trecho, sempre me lembrava da vez em que um carro passou tão perto de mim que fui atingido no braço pelo retrovisor. Eu provavelmente estava mais no meio da estrada do que eu goste de admitir, claro.

Sem pontos comerciais, sem calçada, sem marquise, com poucas casas velhas espaçadas com suas fachadas sujas de poeira. Do outro lado da pista, os barrancos.

Lembro de passar por certos trechos sempre pensando que uma pedra gigante cairia sobre mim. Não era incomum que pedras gigantes rolassem do alto dos morros e caíssem na via, principalmente na época chuvosa. Sempre que uma pedra aparecia (nunca vi uma rolando, mas vi várias já caídas, atrapalhando o trânsito) eu pensava que por um triz poderia eu ter estado passando bem ali. Graças a Deus, nunca estive.

Entre uma observação inútil e outra, eu mesmo me tornava parte da paisagem. Todo dia antes das sete aquele menino desengonçado passava pra lá. Todo dia depois das onze o mesmo menino passava pra cá.

E o menino que passava e observava a tudo sem expressão, por mais que se lembre de tudo o que via, não estava de fato ali.

Os longos trechos caminhados a só eram momento oportuno para pensar. O que é que um moleque tanto tem pra pensar, você pergunta? Mais do que gostaria, por vezes. A sensação de inadequação, constante na adolescência e comum à maioria (apesar de alguns sobreviverem melhor a isso), era fato gerador de inúmeras conjecturas tortas. Inúmeras oportunidades em que um pequeno constrangimento ocorrido no dia anterior ou naquela mesma manhã se reprisasse em loop, num eterno remoer. Aquelas coisinhas que quem estava perto na hora talvez nem tenha percebido, mas que na minha cabeça tinham sido o espetáculo mais bizarro do dia.

Ou então pensava em tudo que achava que estava errado na vida. É uma fase esquisita, né? Tudo de repente está muito errado, porque de repente sabemos de tudo o que não sabíamos, e então tudo fica claro. Pelo menos em nossas cabeças. Mesmo que não seja de fato assim.

Eu me aproveitava da sensação de deserto que eu tinha ao olhar ao meu redor enquanto ia e vinha, e acabava me perdendo em meu deserto interno.

Aqui a voz que clamava no deserto não era a de João Batista, e sim a minha própria voz, não falada, ecoando no vasto deserto da minha própria cabeça. Aquele diálogo interno incessante, que insiste em preencher os momentos de silêncio mental.

Olhando pra trás, hoje, a caminhada entre casa e escola era sempre uma sessão de autoanálise. Pensamentos que precisavam de espaço para acontecer e o encontravam nos alguns quilômetros de asfalto pelos quais um eu adolescente diariamente transitava.

Paranoias do crescer.

Ainda bem que passa.

Passaara.

SOBRE O AUTOR

Fellippe Heitor tem 35 anos e mora em Espera Feliz a vida toda, apesar de carregar Carangola na certidão de nascimento como muitos de sua geração, que só pularam ali pra nascer e voltaram pra cá no dia seguinte pra viver o resto da vida esperando feliz. Escreve por hobby no fellippeheitor.wordpress.com e contribui no losientoycuarenta.blogspot.com.

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