O Ciclo do Café

Por Pricila Magro.

Foto: Abner Almeida.

Seis horas da manhã, xícara de esmalte, já lascada pela ação do tempo, carrega o líquido preto fumegante. Bebe tudo num gole só, desce queimando pelas tripas adentro, esquentando aquele corpo magro e velho.

Mais um dia de trabalho pesado, a neblina baixa congela os ossos nas primeiras horas do dia e a promessa do sol ardente brilha nos tímidos raios do sol. Com a enxada nas costas, repete a caminhada para a lavoura, essa que tem feito ao longo dos últimos vinte anos. Já conhece cada centímetro daquele chão. Em casa, deixa a mulher com a filha mais nova, o outro o acompanha para a labuta. É época de preparar o terreno para a colheita.

A mulher despede do homem com quem se casou aos dezesseis anos. No começo, sonhou com uma vida melhor, hoje ela não tem tempo para perder com a utopia de dias melhores. Já sentiu muito, agora prefere a ausência de qualquer sensação. Quando menina, apanhava do pai diariamente.

– Toma jeito, sua moleca preguiçosa, desse jeito não arruma casamento bom.

Fugiu das duras mãos daquele homem só para cair em outra forma de dureza, a da vida na roça. Plantar para comer, costurar os remendos da roupa velha herdada dos filhos dos patrões. Tudo é sub usado, reaproveitado até que o tecido gasto se desmanche na linha nova.

Passa a mão na vassoura feita de alecrim do mato, o cheiro doce se mistura com a poeira. É preciso varrer o terreiro de chão, expurgar todos os excrementos das criações. Limpa cada superfície à exaustão, a sujeira é um lembrete constante da miséria em que a sua vida está inserida.

No canto, o cachorro vira-lata da família, Jiló, não se dá ao trabalho de levantar as duas orelhas. Acostumou-se com o som dos ciscos no chão seguindo o caminho para longe dali. Ao fundo, a criança cantarola uma melodia infantil.

A mãe para um instante para observar a filha brincando de casinha, recorda do seu próprio tempo, já acreditou que ser mãe e esposa a faria feliz. Não tem coragem de contar à pequena que a vida às vezes é dura demais com as fantasias da gente. O marido dissera “Arrume nossas coisas, em uma semana vamos seguir viagem e nos estabelecer numa terra boa. Cultivar café, o novo ouro negro, é o que dizem, vamos enriquecer, mulher”. Ela, que aprendeu a nunca confiar nas sandices do marido, não pôde discordar que aquele era um bom sinal, afinal de contas, eles estavam indo para o sítio Vargem Alegre, numa cidade que se chamava Espera Feliz. Ela ousou ter esperanças de que aqueles nomes significariam uma vida melhor. Sorrisos, ela só vê esses de canto de boca que a própria vida lhe dá num deboche diário da sua fé de outrora.

– Coloca um chinelo nesse pé, menina. Daqui a pouco vai ficar tísica – A vassoura toma conta do som da tarde novamente.

O filho mais velho sobe atrás do pai rumo à lavoura. Carrega no embornal a merenda da tarde, broa de fubá e café.  Detesta as duas coisas. Não reclama mais, na última vez levou um tapa do pai. “Você tem de agradecer a Deus, Nosso Senhor, pelo alimento que nos fortalece. Na sua idade eu passava fome, seu mal agradecido, você come diariamente o que pra mim era considerado um banquete”.

Só uma coisa ele odiava mais que o gosto dessa broa seca de fubá engolida com café, o discurso derrotado e miserável do pai. Nunca entendeu a necessidade de se contentar com tanta miséria, era quase como se o velho carregasse um orgulho por nunca ter conseguido crescer e a penúria da vida fosse uma provação merecida que ele vencia dia após dia com altivez.

Seu dedos calejados começaram a produzir riqueza para o patrão desde que aprendeu a jogar milho para as galinhas. No começo achou engraçado aquela brincadeira de alimentar as aves ignorantes, com o tempo percebeu que tinha se tornado mais uma máquina de trabalho. Uma

máquina mais nova e produtiva que seu pai, o próximo na linha de produção.

Uma joaninha pousa na mão da menina, ela para a brincadeira para olhar mais de perto, queria contar as pintinhas pretas, não entende de números. Papai falou que estudar é besteira, que a gente não come palavras. Papai tem razão, eu gosto de comer coxa de galinha. Hoje na janta eu vou pedir pro meu irmão me dar a dele escondido. Papai disse que os mais velhos têm direito aos melhores pedaços, só que eu não tenho culpa de ter nascido depois. Queria poder ter nascido primeiro que todo mundo pra escolher meu pedaço de carne.

É tão bonito ver o sol escondendo atrás do morro, parece que o fogão a lenha está se apagando no alto da montanha. Eu não gosto da noite, noite tem estrela e mamãe falou que é pra lá que vão as pessoas mortas pra olhar por nós. Eu procurei a vovó muitas vezes. Todas as estrelas são iguais. Tenho medo desse tanto de gente morta olhando pra mim. Tem estrela no céu. Está na hora de entrar pra dentro de casa.

O calor da cozinha se mistura com a fumaça do fogão, no centro da mesa, recolhidos os pratos da janta, toma o seu lugar a santa. É hora de fazer a oração. Um terço todo fim de noite. A ladainha das ave-marias suplanta o silêncio sepulcral da escuridão lá fora.

Ave Maria cheia de graça, o Senhor é convosco…

“Não sei porque toda noite a gente tem que rezar. Santa preta não deve atender reza de branco só pra se vingar de toda maldade que nós fizemos com a raça deles nessa terra”.

Bendito sois vós entre as mulheres…

“Mamãezinha do Céu, obrigada pelo dia de hoje. Abençoa a mamãe, o papai, meu irmão e o Jiló”.

E bendido é o fruto do vosso ventre, Jesus…

“Perdoa mãe, eu tomei chá de arruda de novo”.

Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte…

“Acabando essa rezadeira aqui eu vou tomar meu café quente e dormir em paz”.

Amém.

SOBRE A AUTORA

Pricila Magro tem 29 anos, é bacharela em Direito por escolha; professora por vocação. Embora não carregue nos registros civis a naturalidade de Espera Feliz, é por esse lugar que nutre o sentimento de pertencimento. Vem descobrindo o prazer da escrita e atualmente é colunista do site Portal Espera Feliz. Acredita que a arte é a melhor maneira de nos humanizar e, por isso, faz da leitura uma ferramenta diária de ser humana.

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