Há mar que vem pra bem

Por Junior Santos.

Foto: Abner Almeida.

Amaro. Era mesmo cômico e – por que não dizer – zombaria do destino ele possuir no nome duas palavras sobre as quais pouco ou nada entendia: amar e mar.

Sua mãe fugiu com o palhaço de uma tourada itinerante, deixando Amaro, então com cinco anos, aos cuidados do pai, Jurandir. Desde então, viviam em um pequeno rancho, no distrito do Paraíso, onde muito mal cabiam os dois mil pés de café, a meia dúzia de galinhas, a plantação de cebolas, uma porca e a minúscula horta que garantiam o sustento dos dois. De dia, a rotina de ambos se limitava aos trabalhos na lavoura. À noite, enquanto o pai sentava-se ao lado do fogão a lenha acompanhado de um inseparável rádio velho, o filho deitava-se no terreiro de terra batida para admirar o céu e a sinfonia de sapos, cigarras, grilos e bacurais.

Era assim de segunda a sábado: o corpo cansado e tostado pelo sol do dia a dia recebia esse acalento noturno, uma espécie de ritual que só terminava com Amaro e Jurandir indo para a cama: – Bença, pai! – Deustibençôe! A vida só mudava um pouco aos domingos, quando eles iam ao campo de futebol assistir a algum jogo e tomar uma cerveja no botequim que ficava em frente – a última partida que viram juntos foi a vitória de três a zero do Santa Luzia contra o Estrela, pelo campeonato municipal de Espera Feliz.

Amor era algo estranho a Amaro. A forma mais genuína deste sentimento, o materno, ele jamais teve a oportunidade de experimentar. Já Jurandir, embora nutrisse pelo filho um alto grau de afeto, desde a fuga da esposa não era mais o mesmo: se tornou uma pessoa recôndita, de pouca conversa e, mesmo com o único descendente, só conversava o essencial. Embora trabalhassem juntos e vivessem na mesma casa, havia entre eles um bloqueio comunicativo e uma rígida hierarquia patriarcal. Apesar disso, Amaro enxergava certa dose de ternura na relação dos dois – referência que chegou ao fim com a morte de Jurandir, ofendido por uma jararaca.

À época com 19 anos, Amaro viu-se largado à própria sorte, órfão pela segunda vez. Permaneceu nostálgico e circunspecto por vários meses, só sendo despertado desse estado por um sentimento que ainda não o havia acometido: o amor platônico. E para se declarar à filha de Ciço, pela qual se enamorou, elegeu o principal refúgio comunicativo amoroso dos tímidos até pelo menos duas décadas atrás: a carta. Como tinha pouca leitura (só estudou até a quarta série), recorreu a Biéco – dono do bar que frequentava com o pai –, que redigiu fielmente cada letra e frase ditadas, não fosse por um detalhe: subscreveu as românticas linhas com o próprio nome em vez do legítimo remetente. Seis meses após receber a malfadada correspondência, numa tarde fria e alaranjada de maio, Sônia subia ao altar da igreja do Paraíso para selar a união com o escriba trapaceiro.

Desolado por não ser capaz de conquistar o amor, decidiu pagar por ele. Meteu logo meia garrafa de Tatuapé goela adentro e partiu rumo a Espera Feliz. E justamente no momento em que Sônia prometia amar Biéco até que os chacais do tinhoso fizessem a infortunada e indesejada visita, Amaro passava levantando poeira em frente à igreja a bordo de seu Corcel 73. Só que, mais uma vez, amar parecia ser algo não reservado a ele. Já na cidade, a poucos metros de seu libidinoso destino, Amaro foi abordado por policiais e autuado por dirigir embriagado e na contramão da rua João Carlos (se para o sóbrio é complicado identificar o sentido correto da via, que vira e mexe é alterado, imagine para um ébrio). E lá estava ele: detido, carro apreendido e sem conhecer o amor do bicho-muié.

Pronto. Amaro via-se sem mãe, sem pai e sem amor. Graças às picardias do destino, não lhe restava mais nada, ou melhor, quase nada. Pelo menos, ele ainda tinha um pedaço de chão para morar e tirar o seu sustento. Só que roça e solidão são palavras que não combinam muito bem. Um rancho, por menor que seja, quer ser lavrado a muitos pés e várias mãos. A terra é uma espécie de instituição familiar, que apenas retribui, só dá bons frutos, quando o trabalho é coletivo. Assim após a morte do pai, nada de muito útil saiu daquele pedaço de chão. Nem mesmo as cebolas – que outrora representaram a cultura tradicional do Vale do Paraíso – vingavam. Amaro desiludiu-se: – Tô cansado dessa vida de sol na moleira e na carcunda!

Essa apatia e revolta atingiu o ápice enquanto ele janeirava o café. Com o sol a pino, cujos raios faziam as montanhas da cordilheira do Caparaó tremularem, Amaro aproveitava para descansar sempre que furava uma carreira da lavoura. E foi numa dessas pausas que se lembrou de um desejo antigo, surgido na época das aulas de ciências: conhecer o mar. Soltou a enxada, em cujo cabo apoiava os braços, pensativo, e partiu para casa. Botou as tramelas nas portas e janelas, fez uma pequena mala de roupas, onde também colocou o dinheiro que estava escondido embaixo do colchão da cama – umas economias que o pai havia deixado – e partiu para Espera Feliz na única linha vespertina de ônibus, mas não sem antes jogar uma boa quantidade de milho para as galinhas e de encher o chiqueiro de mandioca.

– Quero uma passagem para a praia! – solicitou ao atendente do guiché, um senhor alto e calvo.

– Mas para qual cidade? – indagou.

– Uai! E tem mais de uma praia? – questionou Amaro, surpreso.

Vendo a indecisão do cliente à sua frente, vendeu-lhe um bilhete para o destino litorâneo da maioria dos mineiros: Piúma, no Espírito Santo.

Passava pouco mais das cinco da manhã, quando desembarcou na rodoviária da cidade capixaba. Perguntou a algumas pessoas que estavam nas plataformas aguardando suas conduções, que lhe indicaram para qual lado ficava a praia. Após cerca de 15 minutos de caminhada, Amaro colocava os pés na areia da orla e o olhar admirado em direção àquela imensidão d’água. O que também chamou a sua atenção foi o modo como o sol emergia com facilidade do horizonte aquoso, bem diferente das alvoradas no entorno do Caparaó, em que o astro-rei parece se apoiar com dificuldade nas montanhas para chegar ao céu, em um processo lento e árduo, como também o é a vida no campo.

Quando o mormaço elevou a temperatura a um nível agradável, Amarou tratou logo de experimentar a sensação de se banhar na água salgada. De forma tímida e desconfiada, seus pés calejados da lida na roça sentiam o frescor e a ardência do oceano tocando com efervescência cada ferida. Em seguida, foi a vez de outro sentido, o paladar, experimentar o mar (quem, por curiosidade, nunca bebeu um pouco dele quando mergulhou pela primeira?). Satisfeito esse primeiro contato, pegou a mala e tratou de procurar um local para se hospedar pelos próximos dias (ainda não sabia quanto tempo iria permanecer em terras capixabas). Foi em uma modesta pousada, a poucos metros da orla, que estabeleceu morada.

Passados cinco dias de uma rotina que se resumia à tríade sol-areia-mar, começou a bater aquela mistura de tédio e nostalgia. Sentia saudades: da poeira vermelha, do galo anunciando um novo dia, do sol nascendo vagaroso, das inigualáveis tardes de maio, das chaminés exalando a fumaça de aparência inofensiva, o aroma do café… E decidiu voltar para o rancho naquele vale que, agora, seu coração entendia porque se chamava Paraíso. Arrumou a mala, acertou as diárias e, antes de partir, quis sentir o mar pela última vez.

Mergulhou e, sem se dar conta, foi surpreendido por uma onda, que o fez entrar num redemoinho e se engalfinhar involuntariamente com uma mulher que nadava próxima a ele. Quando viram, ambos estavam na areia, raspando o sal da garganta, cuspindo, rindo da situação anedótica e pedindo desculpas um ao outro.

Marisol, ao contrário de Amaro, entendia bem do amor. Só não tinha sorte nos relacionamentos: saía de seu terceiro casamento. Morava a dois quarteirões da praia e havia ido dar um mergulho justamente para refrescar a mente, que ainda fervilhava devido às discussões e tensões da audiência do divórcio. Por um momento, ela esqueceu os dissabores dos últimos meses. Também por um momento, ele mal se lembrava do seu planejado retorno a Espera Feliz. Começaram a se encontrar todo dia, sempre no fim da tarde. Amaro explicava a ela como era o pôr do sol lá no interior. Marisol contava sobre a vida no litoral e de sua paixão pelo mar. Adoravam a companhia do outro. Amaro finalmente descobriu o amor. Marisol não tinha dúvidas: o quarto casamento era algo inevitável.

Vinte dias após aquele encontro inesperado, Amaro retornava para casa. Mas, ao contrário da viagem de ida a Piúma, desta vez a poltrona ao seu lado estava ocupada. Marisol havia deixado tudo para trás e partia com ele em busca de um recomeço. Queria descobrir verdadeiramente o que era amar.

Casamento, casamento mesmo, de papel passado e na igreja, não veio assim tão rápido. De imediato, trataram de se amigar lá no rancho e começar a fazer a vida. No início, não foi fácil, principalmente para Marisol. Mas a roça – como já disse – é plural, gosta de ser habitada por várias pessoas, e, por isso, retribuía em abundância o trabalho daquela família que começava a se formar. Tudo que plantavam dava. Já no primeiro ano, colheram oito carroças de milho e 200 quilos de cebola. A beleza também tomou conta do lugar, graças às inúmeras espécies de flores que Marisol plantou ao redor da casa: jasmins, margaridas, palmas. Pouco a pouco, a situação foi melhorando e aquele pedaço de terra esturricada ia ganhando ares de uma bela fazenda. A fertilidade também invadiu a relação do casal, que trouxe ao mundo um menino e uma menina, Marcelo e Letícia.

E lá se vão quase 30 anos desde o primeiro encontro de Amaro e Marisol. No próximo domingo, os dois finalmente sobem ao altar da igreja do Paraíso para o tão aguardado casamento, que terá os filhos como padrinhos. Aliás, Marcelo e Letícia estudaram, se formaram e hoje ajudam os pais a administrar a propriedade. Estão até fazendo um tal café especial, que tem atraído a atenção do Brasil inteiro. A família não poderia estar mais feliz. Nem mesmo a notícia que ouviu na Rádio Café, dando conta de que talvez não se aposente tão cedo, tem sido capaz de estragar a felicidade de Amaro.

SOBRE O AUTOR

Junior Santos é da cidade mineira de Caiana, mas tem por Espera Feliz o mesmo amor e consideração que nutre por sua cidade de origem. Formado em Jornalismo e Direito, já atuou na área jurídica e no rádio. Atualmente, é assessor de imprensa da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em Governador Valadares. Mesmo distante da região do Caparaó, carrega sempre consigo as memórias, sensações, histórias e, principalmente, saudades desta terra.

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