Chão de pedras

Por Farley Rocha.

Foto: Abner Almeida.

Era tarde quando Fábio acordou naquela noite de fins de março sobre o chão de pedras da Praça Cira Rosa de Assis. Embora já não fosse verão, lufadas de vento morno adiavam o outono pelas ruas vazias de Espera Feliz.

Na nebulosidade de seus olhos em brasa ele avistou a rodoviária toda iluminada, deserta. Daquele ângulo, o telhado da velha estação de trem formava um losango no “V” de seus dois pés descalços, inchados e imundos.

Então, como num recorte mágico do tempo, Fábio se lembrou de quando esteve pela primeira vez naquela cidade, amparado pela mão do pai ao saltar do ônibus, naquela mesma rodoviária, há mais de 35 anos.

Em estado de letargia, mas com os sentidos despertos na sonolência da madrugada, aquele quadro mais remoto de sua memória o conduziu por uma confusa teia de acontecimentos passados. Esforçando-se para não confundir lembranças com devaneios, tentou retrilhar os mapas do destino que o levaram até ali, naquele instante em que acordara altas horas da noite deitado no chão de pedras da praça, sobre uma folha de papelão.

Fábio fora criado na roça, na mesma casinha de paredes caiadas onde nascera, a dois quilômetros do distrito de São Sebastião da Barra, zona rural do município. Era uma época em que os homens estudados eram chamados de doutor e os pobres predestinados à subserviência perpétua dos fazendeiros – na categoria dos analfabetos, Fábio ia de peão de gado a boia-fria.

Órfão de mãe desde cedo, ajudava o pai na lida diária do campo, amolando as ferramentas, adubando o solo, tratando dos porcos, rachando a lenha, regando a horta. Só era criança aos domingos após o almoço, quando brincava de bola com os meninos no campinho enquanto o pai se embriagava nos botecos do povoado. No final do dia, quando senhorinhas cheirando a flores eram vistas a caminho da missa, Fábio carregava sobre os frágeis ombros descamisados o peso cambaleante do pai estrada a fora, pelos dois quilômetros até em casa.

Mas não era apenas prestativo como filho. A vida fez dele um dedicado lavrador e um competente entendedor das coisas da terra. Tanto que aos dezessete anos, ao se tornar um homenzarrão de um metro e oitenta de altura, peito largo e braços fortes Fábio era capaz de carregar dois sacos de adubo morro acima e tocava, sob sua exclusiva responsabilidade, dez mil pés de café na fazenda onde era meeiro. Foi por esse tempo que perdera o pai, quando este se desequilibrou da ponte ao retornar de um dos domingos de bebedeira e se afogou nas águas lodosas do Rio São João.

Poucos anos mais tarde, já sem ninguém de seu próprio sangue com quem pudesse compartilhar angústias e sonhos, Fábio arranjou uma namorada, moça simples e lutadora que comungava das mesmas angústias e dos mesmos sonhos. Então, num sábado de primavera se casaram no altar improvisado a um canto do terreirão de café da casa do sogro, com uma cerimônia modesta e uma festa farta de sanfonas, violas e comida, em que os convidados se serviam nos tachos de arroz, macarronada, feijão tropeiro e galinha caipira na enorme mesa de eucalipto na varanda de casa.

Não se sabe ao certo como ou por quê, mas foi logo após o nascimento do filho que Fábio começou a beber. O que antes era um prazer esporádico quando jogava sinuca nas vendinhas da roça, tornou-se uma obrigação semanal e, em pouco tempo, a garrafa de cachaça substituía a de café junto à marmita dentro do bornal. Não que fosse infeliz ou suportasse algum trauma de infância. Mas por traz de seu sorriso acanhado e de sua fala arrastada de mineiro do interior, ele devia ocultar tempestades que somente a bebida pudesse salvá-lo dos naufrágios da alma. Seus colegas de lavoura, vendo o homem vacilar sobre a enxada antes mesmo das dez da manhã, trataram de persuadi-lo do vício dando-lhe conselhos e solicitando preces às rezadeiras. Mas quanto mais rogavam melhoras à sua fraqueza mais Fábio bebia, sufocando-se no álcool evaporado pelo suor do trabalho.

Seu sogro, um católico fervoroso e tenaz conservador dos valores familiares, repreendia-o como a um moleque levado dizendo que não criara a filha para se desgraçar com um bêbado sem juízo. Portador de uma espantosa humildade e de um incorruptível respeito a quem quer que fosse, Fábio apenas curvava a cabeça num gesto de subordinação e se resignava com um aceno positivo ao sermão do sogro, jurando nunca mais voltar a beber. Mas, como se seu vício fosse um inevitável código genético de uma herança ancestral, o jejum não durava mais do que duas ou três semanas. Quando todos já davam vivas a sua sobriedade, era outra vez surpreendido às três da tarde desmaiado sob os pés de café ou amparado pela pobre esposa, que o conduzia dos degraus da porta da cozinha ao quarto, onde dormia por dois longos dias sem sequer tirar as roupas sujas do trabalho.

Um dia, depois de inumeráveis e ineficazes advertências, como se fulminando trovões revoltosos pela garganta o sogro invadiu a casa e tomou-lhe de assalto a esposa e o filho, decretando que só tornaria a vê-los depois que “virasse homem” e abandonasse de vez o vício. Mas nem os demolidores efeitos de tais extremos foram capazes de virar sua cabeça. Agora, desmoralizado pela maior das derrotas para o seu mau hábito, não resistiu à dependência e, assim como o pai afogara-se anos antes nas águas lodosas do São João, ele se afogou cada vez mais na obscura perdição do lodo do alcoolismo.

Não demorou muito para que o patrão, insatisfeito com seu comportamento relapso, o expulsasse da fazenda. Sem família, trabalho e dinheiro Fábio então passou a viver como um nômade rural pelas redondezas de São Sebastião da Barra, bebendo a cachaça que lhe pagavam nas vendas, comendo na casa de desconhecidos, dormindo sob os castanheiros à beira da estrada, matando a sede nos córregos que se formavam nas grotas. Maltrapilho, com os cabelos e barbas cheios de piolho e carrapicho, Fábio mal era reconhecido quando visto caminhando na poeira feito um neandertal errante sob o sol do meio-dia ou atravessando os pastos como um espantalho assombrado ao cair da noite sob a luz do luar.

Quando a roça já não supria as demandas do seu vício, ele decidiu vir para a cidade, onde a rodoviária de Espera Feliz – a mesma que avistava agora nebulosa entre o vão de seus pés descalços, inchados e imundos – passou a ser seu abrigo nas noites de chuva e de inverno embaixo dos varandões das plataformas, compartilhando corotes de pinga e pão dormido com outros bêbados igualmente invisíveis à sociedade.

Desde então, a sentença de seu carma o reduziu a um mendigo sem rumo, humilhado pela própria imagem indigente refletida na vitrine das boutiques do Calçadão. Por trocados de aguardente nas mercearias da Rua Nova, passava as noites catando latinhas nas lixeiras da Avenida Beira Rio e nas festas do Parque de Exposições. Alimentava-se dos restos que lhe davam nas padarias e trailers e bebia as sobras dos copos plásticos na porta do Bailão do Marcinho. Daquele robusto e jovial trabalhador do campo, Fábio se transformara em um cadáver de pele murcha e calcanhares ásperos, que se aquecia do frio das calçadas no mesmo canto onde se aninhavam os cães de rua.

Cada avenida, beco e esquina de Espera Feliz passaram a ser para ele como o perímetro de uma casa, cujo céu estrelado era o teto e a neblina das noites da Serra do Caparaó lhe percorria a alma com janelas sempre abertas. Aquela mesma cidade na qual vinha com a família pelo menos uma vez por mês para fazer compras agora era uma espécie de novo lar, cujo destino o obrigava a permanecer sempre do lado de fora das paredes.

Assombrado cada vez mais pelo espectro do passado em contraste com as angústias que colhia do presente, procurou ajuda com os pastores da Assembleia de Deus, pediu conselhos aos padres da Igreja Matriz, buscou orientação no Centro Espírita da rua Major Pereira. Mas nada nem ninguém, exceto por sua própria determinação, poderia fazê-lo mudar de vida. Talvez pelo mesmo vazio por onde lhe escapara a decência, Fábio também perdera o que possuía de mais valioso: o amor próprio.

Mais por fraqueza do que por opção, ele se transformou em um ermitão urbano de olhos vidrados e semblante soturno, um animal sem nome vagando anônimo pelas ruas da cidade. Ainda que hostilizado pela polícia e população quando atravessava seu sono pelos passeios públicos, era graças ao amparo solidário de alguns poucos corações que Fábio não sucumbia de vez ao frio e à fome, sendo agraciado pelo calor de agasalhos usados e pratos de comida recebidos ao acaso. Seus longos tempos de pé no chão fez dele um sobrevivente de si mesmo.

Contudo, como um bravo guerreiro que enfrenta batalhas já perdidas, sua saúde foi se debilitando pelo próprio abandono e, frequentemente, Fábio era visto pela Fioravante Padula como se arrastasse toneladas de frustrações na lentidão dos seus passos. Esfarrapado e triste, deixava atrás de si um rastro palpável de odores humanos empesteando o ar dos transeuntes – que muitas vezes mudavam de calçada. Por isso, pelas inconveniências de sua rota aparência fora expulso diversas vezes do Brasinha e do Bar Central ao mendigar esmolas de dez centavos. Com o cérebro carcomido pelos efeitos etílicos, balbuciava grunhidos como se conversasse consigo mesmo em um estranho idioma de hieróglifos verbais. Cabeludo, bêbado e cagado, Fábio se transformara em um louco varrido, um rascunho de gente, um exemplar perfeito de tudo aquilo que todos, cruelmente, insistem em não se importar.

Mas o que todos da cidade ignoravam é que no fundo daquela carcaça marginalizada havia um homem com princípios e uma história encharcada de humanidade, igualmente merecedor de todos os abraços que o mundo pudesse lhe ofertar. Pois era incapaz de insultar, agredir, roubar ou matar. E se algum dia pronunciou palavrões, certamente foi por amaldiçoar a si mesmo pela consciência da própria ruína. Embora rude e inculto, seu coração era puro. Ainda que dilacerada, sua alma era sensível. Por isso, apesar de receber das pessoas não mais do que a atenção que se presta a um rato, em seus raros momentos de lucidez Fábio se sentia orgulhoso por um dia ter amado profundamente – e ainda amar – toda a sua gente, que sempre trazia consigo no seio fantasioso de seus delírios. Foi com este mesmo sentimento de orgulho, naquela madrugada de ventos mornos sobre o chão de pedras da Praça Cira Rosa de Assis que Fábio adormeceu novamente, lembrando-se com saudade da imagem do velho pai, da mulher e do filho, sorrindo alegres como se estivessem ali, ao seu lado, confortando seu sono sob a indiferença de Espera Feliz. E nunca mais acordou.

SOBRE O AUTOR

Farley Rocha nasceu em Espera Feliz em 1982. Graduado em Letras pela Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) e pós-graduado em Ensino de Língua Portuguesa pela Universidade Federal de Juiz de Fora, leciona Língua e Literatura nas redes pública e privada de ensino da cidade. Além de professor, é cronista e repórter do site portalesperafeliz.com.br e tem dois livros de poesia publicados em formato digital, Mariposas ao Redor (2011) e Livre Livro Leve (2015). Sempre viveu em Espera Feliz e é um entusiasta da cultura e do turismo locais, sendo apaixonado por cafés especiais e pelas montanhas da Serra do Caparaó.

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