A coleção de Chara

Chara vivia de mau-humor. Ia para o trabalho todos os dias com os olhos sérios e obtusos. Fazia penteados num salão do centro e, por isso, todo mundo conhecia Chara e sabia que seu rosto era sempre um desenho reto. As pessoas na rua cumprimentavam Chara, e ela, sem gestos no olhar, apenas acenava com […]

Publicado em 02/02/2012 - 08:06    |    Última atualização: 02/02/2012 - 08:06
 

Chara vivia de mau-humor. Ia para o trabalho todos os dias com os olhos sérios e obtusos. Fazia penteados num salão do centro e, por isso, todo mundo conhecia Chara e sabia que seu rosto era sempre um desenho reto.

As pessoas na rua cumprimentavam Chara, e ela, sem gestos no olhar, apenas acenava com a cabeça. Até que no salão onde trabalhava, Chara fazia-se menos árida, desfiando frases curtas entre cabelos, escovas e cremes – mas sem rir nunca, nem ao menos sorrir para nada.

Durante a semana, Chara trabalhava até às oito da noite. Aos sábados, até às dez ou onze, dependendo. Chara não tinha mesmo muito tempo. Mas este não era o motivo para a cara nublada de Chara. Porque para as coisas as quais gostava de fazer não precisava de muito tempo.

Chara – que desprezava TV – quando chegava do serviço ocupava-se em ler uma revista. Às vezes recortava figuras e fazia colagens. Outras, escrevia uma frase qualquer com os recortes e tentava criar sentidos dispondo as palavras em ordem inversa. O que Chara também gostava muito era da sua coleção de chaves, que possuía desde criança e que crescia mais a cada ano. Podia gastar horas polindo suas peças, constituídas por chaves grandes, médias e pequenas, de cadeado, de porta, de portão, de guarda-roupas, de cofre, de gaveta, de automóvel e até de caixinha de segredos.

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Porém, nada de que Chara gostava era suficiente para despertar seu sorriso. Era mesmo mau-humorada a moça que fazia penteados.

Um dia a mãe de Chara perguntou “por que não arranja um namorado?” – depois que Chara terminou seu último namoro (e isso quando tinha dezessete anos), nunca mais se interessou por mais ninguém. Chara não respondeu, mas refletiu quando foi se deitar.

Na outra semana, através do zunzum no salão Chara descobriu que o rapaz da contabilidade a olhava diferente, mesmo que também a achasse ranzinza e pouco simpática. É porque Chara entendia de estética e quanto a isso ela sabia se cuidar. Então era muito bonita, ainda que jamais sorrisse e trouxesse na face o mesmo humor, inacessível.

Só que depois de muitos outros penteados no salão, Chara chegou tarde em casa e enquanto se olhava no espelho do banheiro, lembrou do rapaz da contabilidade e da sua coleção de chaves. Decidiu então que iria parar de juntá-las e todos os dias levaria uma consigo, para deixá-la cair de propósito no chão sempre que passasse pelo rapaz na rua. Assim, no dia em que ele percebesse e a chamasse para devolvê-la, ela então o retribuiria com um olhar nos olhos – acompanhado de um sorriso que Chara, escondida, já vinha ensaiando.

Até a última chave da coleção, o rapaz nunca chegou a reparar. Mas foi aí que Chara acabou descobrindo que a porta a qual adiava abrir não possuía chaves. Para se tornar uma mulher mais feliz, bastava-lhe, apenas, sorrir.

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A partir de então, Chara passou a colecionar sorrisos.

 

* * *

 

Farley Rocha, fã do Radiohead e do Seu Madruga, nasceu em 1982 e mora na cidade de Espera Feliz, interior de Minas. Professor por formação e poeta por obsessão, mantém o blog palavraleste.blogspot.com, espaço aonde publica seus textos e outras insanidades literárias.


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