Pricila Magro

Este é um artigo ou crônica pessoal de Pricila Magro.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

Uma semana ruiva me ensinou mais sobre ser gente do que sobre cor de cabelo

Por que você fez isso? Queria essa cor mesmo ou erraram o tom? Que dia você volta a ser loira? Que pena, seu cabelo era tão bonito! E por aí vai...

Publicado em 05/09/2019 - 09:00    |    Última atualização: 05/09/2019 - 09:00
 

Uma pesquisa pode confirmar a estreita ligação que se estabelece entre uma mudança radical no visual de uma mulher e a semana da TPM. Pois foi numa dessas que resolvi mudar, loira convicta, de um dia para o outro tingi de ruiva as longas madeixas. Não desses ruivos avermelhados, mas aqueles estilo “cone de asfalto”. Num processo químico de descolore, colore, três horas de exposição às poções mágicas, que só quem manipula a arte da tinturaria pode explicar, eis que páh! Uma nova mulher, colorida, alaranjada, irreconhecível.

O que me leva narrar esse episódio é o resultado da mudança. Com ele tive a oportunidade de lidar com as mais desagradáveis manifestações da indelicadeza humana. Pintar o cabelo é uma experiência antropológica. Oportunizar o novo de uma forma radical, quebrar expectativas e extrapolar padrões. Pude observar o quão difícil é para os indivíduos lidar com o diferente. Quando o susto é grande, dificilmente o filtro social é acionado. Isso facilita que o caminho da comunicação entre cérebro/boca siga um curso direto. Quando as pessoas se deparam com o inesperado falam exatamente o que estão pensando naquele momento, só medindo o peso das palavras depois.

Por que você fez isso? Queria essa cor mesmo ou erraram o tom? Que dia você volta a ser loira? Que pena, seu cabelo era tão bonito! E por aí vai… A enxurrada de comentários durou dias, as expressões de desagrado eram rapidamente disfarçadas por um sorriso amarelo. O ser humano tem a tendência a repelir tudo aquilo que lhe causa algum desconforto, tudo aquilo que não está de acordo com a opinião comum. Eu me deliciei com cada retórica…

O que importa analisar aqui não é a falta de bom-senso e trato social dos seres humanos, ou a sua capacidade infinita de serem rudes. O que me assustou profundamente foi o fato de uma sociedade normatizar comportamentos e excluir aquilo que difere do padrão de forma constante e sistematizada. Não foi agradável ser ruiva por uma semana, não consigo imaginar quão tortuoso deve ser fazer parte das minorias sociais, daqueles que são estigmatizados, discriminados e excluídos por serem quem são. A resistência, individual, coletiva, diária a que essas pessoas são submetidas – negros, indígenas, imigrantes, mulheres, homossexuais, idosos, moradores de favelas e ruas, portadores de deficiências – não pode ser mensurada pela grande maioria de nós. Há quem não possa mudar a cor do cabelo na próxima semana para que tudo volte ao normal, embora eu tenha certo medo do que algumas pessoas chamam “normal”. 

Se você não fica completamente chocado quando lê matérias que relatam que mulheres perderam o emprego porque não adequaram o cabelo afro aos padrões da empresa; ou da jornalista que foi demitida por não conseguir voltar ao peso normal depois de uma gravidez; se não te causa arrepios a frase dita em tons de brincadeira: “larga de ser lerdo, parece um autista” então é provável que em algum momento você esteja reforçando algum comportamento excludente também (de forma consciente ou não). Sabe o melhor disso tudo? Comportamentos podem ser REaprendidos.

Por Pricila Magro.

Sobre Pricila Magro

Pricila Magro é bacharela em Direito por escolha; professora por vocação. Desde os 15, não sabe gostar de outra banda senão Coldplay. Escreve por prazer, lê porque acredita que essa é a melhor forma de nos humanizar. A filha mais nova que não é nem meiga nem fofa. Sincera demais para os padrões "mimimi".


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