Pricila Magro

Este é um artigo ou crônica pessoal de Pricila Magro.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

Em tempo de isolamento, respeite meu exílio

Eu não quero terminar os projetos inacabados, nem mesmo criar novos.

Publicado em 31/03/2020 - 11:18    |    Última atualização: 31/03/2020 - 11:18
 

Despertador. Café. Trabalho. Almoço. Trabalho. Jantar. (se tiver muita, mas muita disposição, atividade física). Dormir. É um ciclo que se repete sete dias da semana.

Estamos tão mecanicamente inseridos no sistema de produção que parar causa desconforto. Um ser adestrado que não sabe prosseguir sem comando. Perdemos a rotina, perdemos o prumo da vida.

Sigo trabalhando em sistema home office e acho ótimo que a minha profissão permita isso.

O que me incomoda, não é ministrar as aulas on-line e atender à demanda dos alunos. Isso é delicioso, faz parte das minhas obrigações e dá ao meu dia um ar de “normalidade”. A exasperação nasce ao ver a necessidade que as pessoas têm em fazer alguma coisa, qualquer coisa com o tempo vago.

Dar uma pausa é quase como cometer um pecado capital.

Se você está em casa cuidando da sua família, ótimo. Já está fazendo muito por eles e por nós.

Se o seu trabalho te obriga exposição ao vírus, meu mais sincero respeito. Saiba que estou fazendo a minha parte para não te contaminar e peço que tome as precauções necessárias para proteger a sua saúde e a dos seus.

Minha indignação é que a sociedade não me permite ter direito ao “NADA”.

Cabe aqui uma explicação: o nada a que me refiro é aquele que vem depois de cumprida todas as atividades que me são competentes. Surge na hora do dia em que já finalizei tudo que era possível, dentro das minhas limitações, e deparo com a pergunta: E agora, o que eu vou fazer?

Automaticamente a cabeça começa a listar as infindáveis possibilidades para as horas que virão.

Nunca vi tantas lives ao mesmo tempo no Instagram.

Já perdi a conta das dietas, atividades físicas, lista de livros e filmes ou manuais de sobrevivência na quarentena que recebi.

Meu whatsapp pisca a todo momento com uma notícia mais trágica e triste do que a outra.

Eu não estou em férias, estou em isolamento social, ansiosa, lidando com a angústia de saber que o mundo tal qual conhecíamos não é mais o mesmo, preocupada com meus pais, controlando meu hipocondrismo…

Um momento que já é naturalmente desconfortável, gera em nós um sentimento de culpa quando percebemos que não estamos fazendo coisas maravilhosas, produtivas, inovadoras ou cultas.

Se esse movimento ininterrupto é o que você precisa para manter a sanidade, então siga em frente.

Eu não quero terminar os projetos inacabados, nem mesmo criar novos. Não quero responder às mensagens dos grupos, rir do novo meme ou discutir os melhores métodos para aumentar a imunidade. Quero preencher o tempo livre que existe no meu dia com o ócio sem culpa.

Se você não está a fim, tudo bem. Não se cobre. Respeite o seu próprio tempo.

Lidar com a ansiedade de presenciar esse momento histórico (porque esses dias serão lembrados nos livros) já demanda de nós energia suficiente.

Aliás, essa crônica acaba aqui.

Pelo meu direito ao NADA, recuso-me a escrever qualquer palavra mais.

Por Pricila Magro.

Sobre Pricila Magro

Pricila Magro é bacharela em Direito por escolha; professora por vocação. Desde os 15, não sabe gostar de outra banda senão Coldplay. Escreve por prazer, lê porque acredita que essa é a melhor forma de nos humanizar. A filha mais nova que não é nem meiga nem fofa. Sincera demais para os padrões "mimimi".


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