Paulo Faria

Este é um artigo ou crônica pessoal de Paulo Faria.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

Quero ser pequeno

Assistir a uma película que se tornou um clássico não é um simples exercício de entretenimento. Involuntariamente, acabamos por fazer uma análise mais apurada daquilo que assistimos.

Publicado em 05/08/2015 - 10:39    |    Última atualização: 05/08/2015 - 10:39
 

Naqueles momentos de repouso, o que mais gosto de fazer é entrar num estado de quase inércia e assistir a um bom filme, ou ouvir meus discos preferidos. Para mim, funciona como um ritual. Outro dia, peguei pra rever ao filme “Quero ser Grande” (Big, 1988), estrelado por Tom Hanks. Me lembro de tê-lo visto há muitos anos na ‘Sessão da Tarde’, nos idos dos anos 90, mas nunca havia parado para fazer qualquer tipo de reflexão.

Tom Hanks, no filme "Quero ser Grande" (Big, 1988)

Tom Hanks, no filme “Quero ser Grande” (Big, 1988)

Assistir a uma película que se tornou um clássico não é um simples exercício de entretenimento. Involuntariamente, acabamos por fazer uma análise mais apurada daquilo que assistimos. Mas vamos ao filme: Josh (Tom Hanks) é um garoto de 12 anos que vive os “percalços” e as aventuras ao lado de seu melhor amigo, Billy (Jared Rushton), como qualquer criança de classe média dos Estados Unidos. A garota dos seus sonhos é a linda Karen (Suzan Wilder). Descolada, ela sai com o cara mais velho, malhado, e, óbvio, como um bom clichê norte-americano, possui um carrão.

De saco cheio por ter que se contentar com as privações de ser pequeno o suficiente pra ostentar suas aspirações de gente grande, coincidentemente, Josh encontra uma espécie de máquina cigana (como se fosse um fliperama) em um parque de diversões cuja promessa é realizar desejos. Josh coloca uma ficha e faz o seu: o de ser “grande”. Na manhã seguinte, como num passe de mágica, Josh amanhece como um rapaz de vinte e poucos anos, porém, seus sentimentos permanecem como os de uma criança. A partir daí, o rapaz sai de casa (ele é considerado um invasor pela família que não o reconhece), e vai trabalhar numa grande corporação que cria, fabrica e distribui novos brinquedos. O protagonista se envolve com tudo aquilo que faz parte do mundo capitalista: a competitividade, o trabalho árduo, a arrogância dos seus superiores, enfim.

Mesmo envolvido dentro desse meio corporativista, Josh conserva, como foi citado acima, toda a ingenuidade de uma criança (bem, pelo menos a ingenuidade de uma criança dos anos 80…), o que faz com que Susan (Elizabeth Perkins), sua colega de trabalho, logo se apaixone por ele. Depois de engatarem um relacionamento, Josh se vê na difícil situação de se tornar criança novamente e voltar para casa (aquele mundo não o pertence ainda), ou continuar sendo adulto ao lado de Karen (que também tem o poder de se tornar criança, mas prefere não mais retornar a uma fase da qual ela já passara – a da infância).

Além de ser uma deliciosa comédia dos anos 80 o que o filme trata são essas emoções que envolvem as fases da nossa vida. Em certos graus crônicos de saudosismo, tendemos sempre a imaginar que nosso passado foi e será sempre melhor que o nosso presente. Até que existe uma meia-verdade aí. No filme, por exemlo, é explorada a questão de que cada fase da nossa vida é importante e que seria um erro antecipar ou prorrogar (em demasia) essas fases. Se você é criança, desfrute de tudo que a pureza da infância pode proporcionar; se você é adolescente, viva as paixões avassaladoras e os desencontros típicos dessa fase e assim por diante…

Mas por uma questão de direcionamento, parece que a diretora do filme deixa uma mensagem pessoal: que ser criança ainda é a melhor de todas as fases da vida. A pureza, a despreocupação com o mundo, o mundo imaginário, o navegar sobre a imaginação; tudo isso denota a magia que é ser criança. Dentro deste universo, a noção da realidade acontece quase que no mundo dos sonhos. Tudo é mais fantástico e distante. A morte parece não te pertencer: morrem os tios dos seus pais, o vizinho idoso, sua vó, mas nunca seu amigo da terceira série; os cômodos da sua antiga casa parecem mansões; as ruas que levam a quadra seguinte mais parecem rodovias; e os adultos que você conhece hoje, na sua infância pareciam seres gigantes.

O mundo real é o mundo real e ele está lá, mas a criança não pertence a ele: ele é coadjuvante de uma experiência volúvel e única da vida. A experiência de ser tão indestrutível quanto um super-herói de desenho animado.

Por Paulo Faria.

Sobre Paulo Faria

Paulo Faria é um amante do cinema de horror e rock ‘n’ roll. É professor por formação, humorista por conveniência e escritor por aspiração.


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