Paulo Faria

Este é um artigo ou crônica pessoal de Paulo Faria.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

Modismos musicais: de Gretchen a Pabllo Vittar

Publicado originalmente em 2010 na revista Vitrine, reproduzido pelo PORTAL ESPERA FELIZ em 2012 e revisado e atualizado para esta publicação.

A internet talvez seja a última pá de cal na disseminação cultural, artística e de informação; principalmente entre os jovens e adolescentes que passam grande parte de seus tempos plugados. Em tempos de youtube e Spotify, temos assistido a um sem-número de artistas ou “artistas” que acabam virando febre e criando novas tendências entre seus seguidores.

A questão do modismo é um tema muito amplo para se debater, porém, é um terreno arenoso, o qual devemos caminhar com certo cuidado para não flertarmos com o preconceito. Além do mais, esse fenômeno não é novo. O que é novo é a velocidade com que as tendências se reciclam, se renovam, se transformam.

Mas como a arte, mais especificamente a música, é tratada diante desses modismos? Para tentar responder a essa pergunta, valho-me da afirmação de Marcelo Hayena da banda “Uns e Outros”, segundo o qual “Verdadeiro artista é aquele que reconhece seu verdadeiro público (…)”. Ponto.

A resposta do músico, um tanto quanto elucidativa, toca no “x” da questão. O que seria um “verdadeiro artista” e um “verdadeiro público”?

Verdadeiro artista seria aquele comprometido apenas com sua arte e que reconhece dentre o público, aqueles igualmente comprometidos. Assim sendo, estabelece-se uma relação de fidelidade que muitas vezes pode ser até possessiva. Mas contrapondo-se a isso, temos um outro tipo de comprometimento: o comprometimento massificador ou cultista que envolve o artista/público.

Usando como exemplo o último grande fenômeno pop do show business, o maranhense Pabllo Vittar, temos uma síntese de como funciona o mecanismo do sucesso nestes tempos bisonhos da cultura brasileira. No caso do músico, a fórmula é apenas uma questão matemática: veneração midiática (e sua obsessão pelo politicamente correto) + um bom empresário + disponibilidade em gastar com jabá + investimento em marketing + músicas de fácil assimilação + um público sem nenhuma exigência = SUCESSO.

O público, nesse caso, é paciente e está sujeito a definhar na mesma velocidade que o lixo musical que esse tipo de artista produz. E no caso do artista, este também está sujeito a definhar tão logo apareça qualquer outro que caia nas graças da mídia e do povão. Portanto, são atores que amparados sob uma imagem pré-fabricada, têm seus prazos de validade teoricamente determinados, uma vez que seus públicos estão inseridos dentro de um nicho o qual consome a moda do verão vigente.

Para ilustrar melhor o que está sendo dito, é importante se ater a exemplos não muito distantes. No começo dos anos 2000 despontava no país um trio pop teen que causou certo frenesi e que não difere muito do que ocorre hoje com certos grupos. Com musiquinhas meladas e muita pose, o KLB arrancava suspiros histéricos das meninas que gostariam de estar a todo custo com eles, e, numa outra ponta, os meninos que queriam ser eles. No terceiro disco, ninguém mais falava dos irmãos Kiko, Leandro e Bruno.

Um pouco antes, nos anos 90, tivemos todo aquele tsunami do axé/pagode com seus 2.348.937 grupos que seguiam sempre o mesmo roteiro: uma letra idiota, geralmente fazendo uma ode ao sexismo, e a música usada apenas como pano de fundo para a coreografia sensual (erótica?) das esbeltas dançarinas. O público também era o mesmo: marmanjões que só estavam interessados nos rebolados feitos sob medida nos programas dominicais e meninas que desejavam coreografar e ser tão sensuais quanto suas musas inspiradoras. Não demorou muito – para a alegria dos nossos ouvidos, mas não de nossos olhos -, e 99, 9% desses grupos foram varridos para o limbo do esquecimento.

No país do samba, carnaval e futebol – multicultural e miscigenado por natureza, mas, infelizmente, iletrado – não é tão difícil descobrir a gênese que une “putaria” (abro aspas aqui) e música ruim.

Talvez seja ela a primeira, que graças à intensa campanha midiática de três décadas atrás, foi a grande matriarca de todo o “bundismo” já comentado nas linhas acima: Gretchen. Considerada a “rainha” do rebolado, Gretchen fora um ícone dos anos 80 entre aqueles que não estavam nem aí para sua “música” mas sim para seu ‘poropompom’.

Estes são apenas alguns exemplos de certas tendências que se renovam de tempo em tempo. Para uma obra de arte ou movimento artístico ganharem a alcunha de “clássicos”, devem conter os elementos necessários para tal, e, com toda certeza, não serão esquecidos na próxima estação. A questão primordial aqui não é discutir o gosto alheio, pois sensibilidade para apreciar qualquer manifestação artística é algo puramente individual e não cabe discussão. Mas o fenômeno das “modas de verão” sim. E desse fenômeno dá ainda pra tirar uma lição que talvez seja tão mais reflexiva do que discutir o modismo: a de que no Brasil, um “artista” em franca decadência, na melhor das hipóteses estrela em algum filme pornô; na pior, se candidata a algum cargo político.

Por Paulo Faria.

Sobre Paulo Faria

Paulo Faria tem um montão de anos, é um amante do cinema de horror, rock ‘n’ roll e das artes em geral. É professor por formação, humorista por conveniência, músico por obsessão e escritor por aspiração.


Paulo Faria

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