Paulo Faria

Este é um artigo ou crônica pessoal de Paulo Faria.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

Eu tive uma banda de garagem e uma camiseta da Legião Urbana GG

Um resumo de 10 anos em que alguns jovens se dedicaram a fazer música, tocar e se divertir.

Publicado em 13/03/2020 - 13:18    |    Última atualização: 13/03/2020 - 13:18
 

Todo jovem sonha. Os sonhos fazem parte da engrenagem que te faz seguir em frente. Sem eles, não há sentido algum no processo chamado vida.

Eu, como muitos jovens da minha geração, tinha um sonho: montar uma banda de rock e dominar o mundo. Quase literalmente. Esse sonho fez parte da minha infância e adolescência quando grande parte da minha vida eu passei morando na zona rural, e ter uma banda, naquele momento, parecia algo surreal dado as circunstâncias. Mas o rock ‘n’ roll sempre foi minha paixão número 1 e por causa dele grande parte da minha personalidade foi moldada. Não dava para abandonar esse sonho.

2001: amigos de infância se reencontram na cidade de Espera Feliz/MG coincidentemente com as mesmas aspirações e um objetivo: montar uma banda de rock. Foi o primeiro passo. Só que para montar uma banda de rock você precisa essencialmente de três coisas: 1) ter em conjunto os mesmos objetivos; 2) dinheiro para investir em instrumentos; 3) saber tocar. No início só o item “1” era concreto. Não tínhamos grana e não sabíamos tocar.

Às duras penas fomos ensaiando com que tínhamos no fundo de uma garagem empoeirada como ilustra a foto deste texto e aprendendo a tocar do jeito que dava. Na virada 2003 para 2004 fizemos nossa primeira apresentação no antigo galpão do IBC, em Carangola, juntamente com uma banda de forró (!!!) e uma banda de grindcore (!!!). No repertório, 10 músicas que iam de Bad Religion a Raimundos, porém, com guitarras mais sujas e com andamento acelerado. Não sabíamos executar ainda muito bem nossos instrumentos e esse recurso nos pareceu bastante plausível. Quanto a apresentação, bem, o público gostou, mas não havia nada nesse referido evento que não fosse “tosco”, inclusive a gente.

Nossa primeira apresentação na cidade de Espera Feliz/MG foi na Exposição Agropecuária em julho de 2004 com a banda batizada de SINOPSE ROCK. A esta altura já havíamos melhorado um pouco e a sorte nos sorriu neste dia.

Naquela época havia uma “tradição” da prefeitura municipal de se colocar bandas de rock às sextas para tocar no referido evento e naquela noite subiria num palco improvisado nós; no palco principal uma banda genérica do Casaca da qual não me recordo o nome e Símios – banda do Espírito Santo.

Abrimos o evento tocando clássicos dos anos 80 e pós-punk o mais pesado possível com técnica um pouco mais refinada.  Me lembro do rosto das milhares de pessoas que esperavam clichês contemporâneos da época como Jota Quest, Charlie Brown Jr. ou Skank e de repente uma banda desconhecida, com cinco sujeitos anônimos começa a meter nas caixas Camisa de Vênus, Bad Religion,  Green Day, Ramones… de fato era diferente e a lembrança que tenho era de que o público roqueiro curtiu muito. Para ajudar no brilho da nossa apresentação naquele dia, o genérico do Casaca era uma batucada dos infernos que fez com que a maioria do público se afastasse de frente do palco principal e a Símios, grande atração da noite, só tocou uma música porque o equipamento de som deu problema. Pronto. Foi a senha para que a SINOPSE ROCK “fosse a melhor atração da noite”. E digo isso sem cerimônia ou sem medo de estar com excesso de modéstia, pois foi essa a impressão que ficou mesmo. Nesta noite, pessoas que nunca víamos nos pediram pra tirar fotos com a banda, dezenas de outras mais vinham nos cumprimentar e nas semanas que se seguiram, em qualquer lugar que alguém visse a mim ou aos meus companheiros de grupo, reforçavam aquela impressão: “vocês foram os melhores da noite” e “quando vocês vão fazer outro show?”.

Narrei essa passagem com detalhes só para ilustrar que tínhamos potencial e que apesar dos elogios e do bom desempenho nunca perdemos nosso foco: ÉRAMOS UMA BANDA DE ROCK E NÃO UM CONJUNTO DE ESTRELINHAS. Numa época pré-internet, andávamos de All Star, calça rasgada, camiseta preta e não nos importava em “amaciar” o repertório para agradar ao público mais sensível ou para elevar as chances de arranjar alguma garota na noite.  Um dos orgulhos que carrego dessa fase da minha vida é que sempre fui honesto comigo mesmo desde o começo até o fim da banda. A música sempre vinha em primeiro lugar e acredito que esse também era o pensamento de alguns integrantes da banda. (Na banda, do seu início, em 2001, até seu fim, em 2012, passaram dezenas de integrantes permanecendo como únicos músicos originais eu e o baixista Eder Herdy).

Embora fôssemos “rock ‘n’roll” até a raiz do cabelo, éramos egocêntricos e pretensiosos (mas nunca arrogantes). Queríamos compor e gravar. Pensávamos que era necessário dar um passo à frente. Mas não queríamos escrever qualquer porcaria ou fazer uma música “xoxa”. Queríamos compor com profundidade tal qual ‘nossos heróis’ para agradar a um público roqueiro com senso mais crítico. Queríamos ser uma nova espécie de Legião Urbana. Parece até piada descrever isso, mas é sério que pelo menos eu e o baixista Eder Herdy, principais compositores das prováveis músicas que seriam gravadas, pensavam dessa forma. Não por acaso, a forma de eu escrever era bebida da fonte de bandas como Uns e Outros, Heróis da Resistência e Legião Urbana. Eu era severamente crítico comigo mesmo na hora de escrever uma letra.

Nossa segunda apresentação em Espera Feliz ficou especialmente marcada para mim. Fomos convidados para abrir o show da Uns e Outros num evento que aconteceria na cidade em novembro daquele ano. Quase morri de ansiedade e apreensão até na noite em que iríamos tocar. Primeiro, porque eu teria a chance de conhecer meus grandes ídolos; segundo, porque não sabia como iríamos nos comportar. Conheci todos da Uns e Outros à tarde antes do show; aproveitei para fazer uma entrevista com os músicos para um periódico da qual eu escrevia, e desde aquele longínquo ano de 2004 mantenho um contato muito amigável com o vocalista Marcelo Hayena.  

Mas voltando à apresentação da noite, ocorreram alguns problemas técnicos mas conseguimos tocar. Para mim o que mais ficou marcado foi quando o vocalista da Uns e Outros pediu para o empresário me procurar no meio do evento para me convidar para dividir uma música com ele. Cantamos juntos “Eu não matei Joana Darc”, clássica canção da Camisa de Vênus. Foi uma experiência surreal e que me emociona até hoje quando me recordo.

Em 2005, eu e o baterista da Sub Zero (uma outra banda de rock de Espera Feliz) tivemos a ideia de fazer um pequeno festival de rock na cidade. Fomos atrás de patrocínios, alvará, das bandas para participarem e em junho daquele ano fizemos o maior evento der rock que a cidade de Espera Feliz viu até hoje: o ‘1º Encontro de Tribos’. O palco foi montado no calçadão, em frente a sorveteria Milk Moni, e no cast seis bandas (inclusive a SINOPSE ROCK) de diferentes vertentes mostraram ao público o mais puro rock ‘n’roll. O evento reuniu milhares de pessoas na rua, mais que qualquer carnaval que a cidade de Espera Feliz tenha promovido. Como prova, existe uma gravação de trecho deste evento no Youtube e por lá dá para perceber a dimensão do evento que para uma cidade pequena foi bastante considerável.

Ainda, em junho de 2005, resolvemos entrar em estúdio para gravar uma poesia musicada de um amigo escritor de espera Feliz, Farley Rocha. A música que embalava a poesia de Farley foi composta pelo baixista Eder Herdy e era um punk rock de três acordes e se chama ‘Minuta de Alguém’. A canção foi gravada num estúdio em Carangola em quatro sessões e embora a música fosse simples, nossa inexperiência e a vontade de fazer o melhor possível impedia-nos de desenvolver dentro do estúdio. Mas a música saiu e o resultado foi satisfatório. Na época não existia Instagram em nem Facebook. A divulgação foi feita pelas rádios regionais e foi muito elogiada por quem a ouviu. (Cerca de três ou quatro anos depois, um amigo de Caiana me contou que estava ouvindo uma estação de rádio de Carangola e o locutor retirou a canção do fundo do baú, e antes de executá-la, teceu vários elogios à música e à banda. Isso também foi outro evento que verdadeiramente me deixou emocionado).

Abaixo, a letra de ‘Minuta de Alguém’ com a formação Paulo Faria, voz; Eder Herdy, guitarra; Fernando Faria, baixo; Leandro Cruz, bateria:

Me chamem! Quando a sessão das dez começar

Me chamem! Quando o dia amanhecer
Me chamem! Quando o trem passar
Me chamem! Quando Raul renascer

A verdade é que em meus sonhos
Cavalgam seres imaginários
Coisas que nem Salvador Dali
Seria capaz através  de  tintas numa tela traduzi
r

Uma querência amarga que amarga meus dias
Uma forte dor paralela alada
Que me faz sucumbir o sol
Isolar-me na vida real

Por isso me chamem
Quando o céu se abrir
Quero assistir de perto o belo
Quando a terra fértil florir!

(Farley Rocha, letra / Eder Herdy, música)

Depois de lançada a música outras bandas de Espera Feliz se viram estimuladas a gravarem suas próprias composições.

Com ‘Minuta de Alguém’ vimos que se queríamos “chegar a algum lugar”, que  deveríamos parar de tocar covers e compor pra valer. Foi aí que a coisa começou a ficar estranha: compromissos pessoais, falta de paciência uns com os outros, birras da parte de todos, foco no direcionamento nas composições, falta de técnica pra executar aquilo que nós próprios compúnhamos, desentendimentos, etc. fizeram com que a banda trocasse um milhão de vezes de integrantes e parecia que nunca conseguiríamos gravar o tão sonhado álbum. Fomos prorrogando isso até 2012 quando tínhamos uma quantidade de canções relevantes.

Em outubro de 2012 finalizamos a canção ‘Abra as Janelas’, gravada num estúdio que a própria banda montou e produzida pelos próprios integrantes. Por fim, foi lançado o single e a banda mudou o nome para JARDIM DE GUERRA para que as composições próprias fossem desvinculadas de uma banda que tocava cover (a banda nunca tocou com este nome, JARDIM DE GUERRA).

Abra as Janelas’ me deixou entusiasmado; ela soava do jeito que eu queria e via nela uma música com grande potencial para estourar nacionalmente no país do sertanejo. ‘Abra as Janelas’ ficou curta, pesada, com uma melodia pop e uma pegada empolgante. Mas as coisas não são tão simples assim. Talvez se tivéssemos um produtor de verdade, talvez se a música caísse na mão de um empresário com visão, talvez, talvez, talvez…

Eu, particularmente, tenho orgulho de ter ajudado a dar vida à música e sempre a ouço nos meus momentos de nostalgia, seja em casa, no carro ou academia.

Abaixo, a letra de ‘Abra as Janelas’ com a formação Paulo Faria, voz; Eder Herdy, baixo; Dhuan, Rocha, guitarra; Leoni Maia, guitarra; Yuri Lugão, bateria:

Pode até parecer loucura
Mas estou voltando amor
Não sei por que seguimos
Caminhos opostos
Só me lembro de momentos felizes e dos dias de paz

Deixamos de ser nós mesmos
Somos produtos das novelas
Comprando nos vendemos por tão pouco
E o que nós absorvemos é o que nos destrói
Não quero ficar doente
Você sabe o quanto isso me dói?

Não adianta tentar fugir
Nossos corpos se tornaram um
E só teu beijo me traz nova vida
Teu olhar é tão sincero como um olhar de criança
Mas um dia, um mês… não dá pra esperar outra vez!

Então abra as janelas, deixa o sol entrar
Que eu estou voltando amor
Abra as janelas, deixa o sol entrar
Que eu estou voltando amor

(Eder Herdy – Letra e música)

Enfim, não deu em “nada” (o “nada” a que me refiro é no sentido do sucesso financeiro). A banda se desfez logo em seguida deixando “restos” de composições gravadas em estúdio e letras. O penúltimo (e melhor) show da SINOPSE ROCK aconteceu em Varre-Sai/RJ no dia 22/12/2012 numa formatura de Ensino Médio. Foi insano a participação do público e a performance da banda. Na época, a formação da banda contava comigo na voz, Dhuan Rocha na guitarra, Eder Herdy no contrabaixo e Saulo Bastos na bateria.

Olhando pelo retrovisor, eu sinto que tínhamos de verdade potencial de irmos mais longe se não nos levássemos tão a sério. Sim, a gente nos levava desproporcionalmente a sério demais e naufragamos na própria pretensão.

Às vezes bate um certo saudosismo e a vontade de fechar um ciclo que ainda parece ter ficado aberto. Mas às vezes também penso que as coisas acontecem dentro de um tempo pré-determinado e o que aconteceu aconteceu e ponto final.

O que me deixa feliz quando rememoro estes momentos ou quando alguém oito anos depois me pergunta “e a banda? ” (sim, ainda me fazem essa pergunta) é que tudo o que fizemos foi com a alma e o coração. Reforço: sempre fomos honestos do início ao fim. Deixamos um pequeno legado na história cultural da cidade de Espera Feliz; tivemos um pequeno séquito que nos acompanhava, que nos declaravam serem fãs incondicionais, e inclusive alguns chegaram a nos confidenciar que aprenderam a ouvir rock por nossa causa ou se sentiram motivados a montarem uma banda pela SINOPSE ROCK. Algumas dessas pessoas nos acompanhava nos shows ou nos nossos ensaios. Foram anos tendo a companhia dessas pessoas que nos estimulavam sempre.

‘Eu tive uma banda de garagem e uma camiseta da Legião Urbana GG’. Quando pensei em escrever este texto não foi apenas para narrar e descrever uma passagem da minha vida, mas foi também para resgatar uma memória importante de uma das principais bandas de rock que surgiu na região – e não tenho problema nenhum em admitir isso, pois, essa memória abrange também a um público que durante 10 anos se emocionou e se divertiu com a gente. A nossa memória também é a memória de inúmeras pessoas.

Pra encerrar, tínhamos a uma baita consciência de onde vínhamos e pra onde queríamos ir.  Talvez, de fato, não tenhamos chegado “lá”, mas o importante nisso tudo foi a viagem, o meio, e não o “fim”. Depois que a banda se desfez, fui convidado a cantar na Sub Zero por onde fiquei por mais de um ano. Foi muito divertido também, mas isso é outra história…

Confira, a seguir, duas letras de minha autoria cujas músicas estão pré-gravadas, mas “enterradas” em algum lugar no estúdio de um ex-integrante da banda e três vídeos: 1) Abra as Janelas; 2) Minuta de Alguém; e 3) Bete Balanço (Barão Vermelho – cover) ao vivo em Varre-Sai/RJ. É apenas um resumo de 10 anos em que alguns jovens se dedicaram a fazer música, tocar e se divertir.

Angelica

Inverno dormente e jardins secretos
A lágrima escorre em nosso peito aberto
No abraço que acolhe num gesto sublime
Somos deuses de carne em cenas de um filme

Eu quero a redenção como glória
E a glória é a redenção do seu amor
Entrego minha vida e meu abrigo
Pela remição de sua dor

No outono se perde o laço que nos uniu
Semblante desfeito de alguém que feriu
Nos dias cinzentos e nas tardes macias
Somos anjos de pedra de alma vazia

(Paulo Faria, letra/Eder Herdy, música)

***

A Menina do outro lado da Rua

Tenho dez estrelas na minha mão
Um caminho e nenhuma direção
Uma vida para abandonar e tinha também um coração
Tenho um castelo de verdades
Construído com mentiras e podridão

Tenho uma alma de plástico
E uma tela pintada à mão
Eu tinha uma inocência pueril
Assassinada pela covardia vil

Lá fora a inocência é passageira
Éramos meninas brincando de ciranda
Como anjos de luz em volta da fogueira

Ontem fez 200 dias
E eu deixei a porta aberta pra você voltar
Nas janelas pus rosas e jasmim
Mas sem perceber eu descobri
Que pra essa dor não existe elixir

(Paulo Faria, letra /Eder Herdy, música)

***

Vídeos:

‘Abra as Janelas’, 2012 (Jardim de Guerra)

‘Minuta de Alguém, 2005 (Sinopse Rock )

‘Bete Balanço’ (Barão Vermelho  cover), 2012 (Sinopse Rock)

Por Paulo Faria.

Sobre Paulo Faria

Paulo Faria é um amante do cinema de horror e rock ‘n’ roll. É professor por formação, humorista por conveniência e escritor por aspiração.


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