Farley Rocha

Este é um artigo ou crônica pessoal de Farley Rocha.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

O pitoresco e o sublime na fotografia de Roberto Jr. Schoralich

O esperafelicense Roberto Jr. Scoralich conseguiu compor, há mais de nove anos, aquela que talvez seja a melhor imagem já captada sobre a Serra do Caparaó.

Publicado em 09/08/2021 - 10:34    |    Última atualização: 09/08/2021 - 10:35
 

No final do século XVIII e início do XIX, inúmeros artistas europeus percorreram o Brasil retratando sua natureza bem pouco explorada até então.

Integrando expedições ao lado de cientistas, geógrafos e botânicos, esses artistas viajantes documentavam a riqueza das nossas paisagens mais remotas que, para quem vinha do Velho Mundo, se apresentavam ao mesmo tempo exóticas e assombrosas. Por isso, para captarem com realismo toda a exuberância da fauna, flora e relevo que encontravam por aqui os pintores lançavam mão de duas estéticas de arte muito em voga na época: o “pitoresco” e a “poética do sublime”.

O primeiro buscava evocar imperfeições e assimetrias desses recantos virgens, revelando uma natureza acolhedora e generosa como se contemplassem de perto a visão de um paraíso perdido. Já a segunda, apelava ao temor reverencial diante de uma natureza grandiosa e hostil, ao traduzir a perplexidade que o ambiente selvagem, com suas montanhas, cachoeiras e árvores monumentais, é capaz de nos despertar.

Hoje, apesar de já não restar no país praticamente nenhum espaço que não tenha sido descoberto (ou devastado) pelo homem, ainda é possível vislumbrar a natureza com igual fascínio que o dos artistas de duzentos anos atrás. Só que em vez de tintas, grafite e nanquim, seus registros são feitos por instrumentos que a modernidade dispõe: como as lentes de uma boa câmera fotográfica.

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Nesse sentido, foi seguindo o conselho do mestre Sebastião Salgado, quando diz que “para se fazer uma fotografia inesquecível é preciso estar lá”, que o esperafelicense Roberto Jr. Scoralich* conseguiu compor, há mais de nove anos, aquela que talvez seja a melhor imagem já captada sobre a Serra do Caparaó. Não só pela qualidade técnica, mas por sintetizar a identidade geográfica da região.

Segundo Roberto, fotógrafo amador que se autointitula um “caçador de por do sol”, ela foi feita num fim de tarde do verão de 2012, quando ele e um amigo subiram a montanha da Torre – abaixo da qual Espera Feliz se estabeleceu – para registrar o poente. Como a luminosidade do dia não estava favorável, ele acabou não aproveitando nenhuma foto daquele por do sol. No entanto, como se premiado por um insight de sensibilidade e inspiração, ao virar-se para o norte se deparou com um cenário desconcertante, que resultaria em uma de suas fotografias mais significativas. Foi um daqueles raros momentos em que se está na hora e no lugar certos – como diria Salgado.

Em primeiro plano, a imagem mostra um contraforte de montanhas menores – formado pelo Mirante, Morro do Bicudo e cordilheira da Vargem Alegre – que conduz o espectador ao objeto principal, no segundo plano: o maciço do Caparaó com um imenso bloco de nuvens disformes ancorado pelo pico da Bandeira. Já no terceiro plano, o céu claro com atmosfera rarefeita contribui para destacar o relevo irregular da serra, resultando em uma composição de formas sólidas e imponentes que revelam o prodígio da natureza de construir beleza a partir do caos.

Contudo, o elemento decisivo presente na cena é o contraste em preto e branco, já que a ausência de cores elimina por completo qualquer distração. Por isso, tem-se uma imagem objetiva, impactante, cujo sentido dramático nos desperta uma sensação de contemplação e espanto perante à paisagem retratada.

Embora a Serra do Caparaó, atualmente, esteja circundada por pequenas cidades e povoados rurais, o que o clique de Roberto Jr. Schoralich evidencia é um território em seu aspecto mais primitivo, como se o quadro nos lançasse para dentro de um mundo antigo onde a natureza em estado bruto se apresenta inóspita e enigmática.

Esse efeito de temporalidade suspensa talvez se deva à perspectiva do fotógrafo. Posicionado no topo da Torre, a 1.200 metros de altitude e cerca de trinta quilômetros do maciço, seu campo de visão tinha a mesma amplitude de uma vista aérea, o que permitiu um distanciamento necessário para disfarçar os sinais de civilização – casas, estradas, lavouras, currais – e apreender a maior extensão possível das cordilheiras e seu entorno preservados.

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Basicamente, o que os artistas viajantes faziam com pincel e tinta Roberto fez com a câmera. Mas foi além: conseguiu mesclar num só panorama dois extremos de um mesmo conceito de beleza. De um lado, registrou um universo harmônico de formas e tonalidades variadas que transmitem ao espectador sentidos de paz e tranquilidade (o pitoresco); de outro, um cenário misterioso e extraordinário que provoca solidão e temor em face de uma visão perturbadora da natureza (o sublime). A essa tensão estética, em que a serra se mostra a um só tempo radiante e sombria, é impossível passar impune.

O resultado é uma imagem poderosa capaz de projetar o passado longínquo da região, uma época conhecida apenas pelos índios que um dia habitaram essas montanhas. Por isso, além de documentar com realismo e sensibilidade a atual aparência da serra, a fotografia também conta a história do Caparaó profundo, com seus abismos, florestas e precipícios imaculados, ao reconstruir no tempo presente sua possível fisionomia anterior à nossa chegada.

A mesma fisionomia que os artistas europeus teriam registrado com fascinação e assombro dois séculos atrás.

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*Roberto Jr. Scoralich, 35 anos, mora em Espera Feliz-MG, é professor de Educação Física da rede pública, pai da Valentina e talentoso fotógrafo a ser descoberto.

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Por Farley Rocha.

Sobre Farley Rocha

Farley Rocha é professor, fã do Radiohead e do Seu Madruga. Já plantou uma árvore, escreveu um livro e edita o blog http://palavraleste.blogspot.com


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