Farley Rocha

Este é um artigo ou crônica pessoal de Farley Rocha.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

Entre a bola e a política

De todas as 32 nações, o Brasil deve ser a única que vem passando pelas mais imprevisíveis e inacreditáveis instabilidades.

Publicado em 26/06/2018 - 10:34    |    Última atualização: 26/06/2018 - 10:35
 

É Copa do Mundo e estamos reunidos para a estreia da seleção brasileira contra a Suíça. Embora Espera Feliz – e o resto do país – se pareça apática ao evento máximo do futebol, com suas ruas mais cinzentas do que este céu nublado proclamando as vésperas do inverno, podemos perceber a agitação nos bares e as vozes na varanda das casas de onde vem o cheiro de churrasco pairando sobre o centro da cidade.

Mas há certa dualidade de sentimentos perturbando o coração do brasileiro neste momento. Um país que tem no futebol não apenas uma marca de identidade, mas principalmente uma assumida manifestação cultural que, a cada quatro anos, contagia até mesmo quem não aprecia muito o esporte, hoje se vê entre a cruz e a espada – ou, melhor dizendo, entre a bola e a política.

É que o cidadão, traumatizado pela enxurrada de escândalos de corrupção que diariamente abala sua autoestima, encontra-se desmotivado para creditar à Seleção Canarinho propósitos que mereçam pelo menos um mínimo de celebração.

Num dos terraços da rua Cira Rosa de Assis, local onde nos concentramos nesta tarde fria de domingo, enquanto Fábio, o anfitrião, administra a churrasqueira e a voz do Galvão Bueno na TV anuncia as escalações antes da partida, meu amigo Lander, flamenguista roxo e veterano das peladas do Campestre Clube, profere sua mais legítima crença filosófica da qual eu também comungo: “cara, uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa”. Como que trocando em miúdos que futebol nunca será mais importante que uma política pública de qualidade; mas que também deixar de torcer pela seleção por pura revolta talvez seja um excesso que não se justifica.

Os amigos que participam da conversa, cada qual trajados com suas respectivas camisetas verde e amarelo ou azul com cinco estrelinhas no peito, também apoiam este argumento e aprofundam um pouco mais o tema. “A corrupção é um mal generalizado no Brasil. Não é demérito apenas dos políticos, mas de todos nós”, afirma um deles enquanto se serve da cerveja sobre a mesa. “Não é só questão de voto. É questão de postura. Se eu, minha família, minha cidade mudamos nosso pensamento, uma hora a política também muda”, completa o outro enquanto confere quantos minutos faltam para o início do jogo.

De todas as 32 nações que estão agora na Rússia disputando o caneco, o Brasil deve ser a única que, nos últimos quatro anos, vem passando pelas mais imprevisíveis e inacreditáveis instabilidades: um impeachment tendencioso, um presidente da Câmara dos Deputados e um ex-presidente presos, um atual Presidente da República envolvido em denúncias de corrupção e com governabilidade enfraquecida, um Senador que continua no cargo mesmo depois de se tornarem públicas provas que o colocariam na cadeia, uma recente paralisação dos caminhoneiros que pôs amostra a fragilidade dos transportes no país, uma crise econômica sem previsão de melhoras e, no nosso caso, uma greve dos trabalhadores da educação de Minas Gerais por atrasos de salário e o imoral descaso por parte do Governador. Certamente, são motivos o bastante para abafarem-se as cornetas, anularem-se as bandeirinhas – que, outrora, alegravam as ruas nesta época festiva – e murcharem-se as bolas que fariam nosso gol da vitória.

Porém, para a maioria de nós, futebol é coração. Talvez o patrimônio que representa com maior profundidade o nosso “sentimento nacionalista”.

Tanto que quando a partida começa, ainda que continuemos ressentidos com nossa atual condição de brasileiros, olhamos fixamente para a TV e, disfarçada de gritos, assovios, xingamentos e algazarras, a nossa torcida não é apenas pela conquista do título, mas para que o país retome novamente seus trilhos da mesma forma que, apaixonadamente, esperamos que a seleção brasileira retome os dela e repita os grandes feitos dos quais as novas gerações não possuem nem memória. Mas o jogo termina com o placar de Brasil 1 X 1 Suíça – e recolhemos os copos, como se deles provássemos um gosto mais de derrota do que de empate.

É quando todos nós, com certo ar de esperança, colocamo-nos a imaginar: se nos próximos anos pudermos empatar pelo menos em outros quesitos básicos com este nosso primeiro adversário da Copa 2018, acho que a importância que tanto damos a um hexacampeonato não passará de mero detalhe – e, ainda assim, o povo brasileiro é quem sairá campeão.

Por Farley Rocha.

Sobre Farley Rocha

Farley Rocha é professor, fã do Radiohead e do Seu Madruga. Já plantou uma árvore, escreveu um livro e edita o blog http://palavraleste.blogspot.com


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