Farley Rocha

Este é um artigo ou crônica pessoal de Farley Rocha.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

Carta nº 01

Prefiro o interior de Portugal, onde, de certa forma, sinto-me mais próximo de casa, porque encontro estradinhas de chão, pastagens, plantações e céu estrelado como aí, em Espera Feliz.

Publicado em 04/11/2014 - 15:48    |    Última atualização: 04/11/2014 - 15:48
 

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Caro amigo das montanhas,

Reporto-me de Lisboa, justificando que minha falta de notícias se deve aos acontecimentos últimos. Sobre aquele meu plano de visitar o Azerbaijão para fotografar as necrópoles de Leylatepe e Saraytepe, fui obrigado a engavetá-lo no momento. Sucede que há três semanas estive em Londres, mas não pude embarcar pra Ásia. Disseram-me, nos burocráticos portões aéreos londrinos, que os voos de escala obrigatória como os que vão pra aquela parte do mundo estavam suspensos conforme determinação de segurança: devido à atual sensibilidade pela qual passa a região. Mas na verdade, dizem, é o governo britânico que evita arremeter para o oriente os estrangeiros que partem de seus aeroportos, pois teme a presença de recrutas internacionais da ala radical Islâmica. O fato é que com isso fiquei zanzando por três dias pela Inglaterra – aproveitei e fui ao show que você comentou, do Daft Punk no Union Chapel – na vã esperança de que um decreto anulativo atendesse minhas preces e um aviãozinho qualquer me levasse aonde eu pretendia. Mas realmente não rolou.

Pra não desperdiçar viagem, tomei vergonha e estiquei ao sul do Reino Unido para, enfim, conhecer o Stonehenge. Quem passa de ônibus ao lado do monumento (pois a rodovia que segue para Amesbury passa a cem metros de distância das rochas), quase não dá importância ao círculo megalítico da Idade do Bronze camuflado nas paisagens da planície de Salisbury. Depois relato em detalhes o episódio.

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No retorno ao oeste do continente passei por Paris. Fui ver minha namorada. Sim, estou namorando uma gringa. É uma neozelandesa de 28 anos, linda e inteligente. Trabalha numa loja de esportes radicais no centro da capital francesa e seu nome é Mia. Conhecemo-nos há seis meses na Turquia, quando participei de uma expedição a pé pelas trilhas do Vale da Lua, próximo à Capadócia – escrevi sobre isso, lembra? Mantivemos contato desde então e há dois meses, quando combinamos um encontro em Valença do Moinho, uma vila de fronteira ao norte da Espanha, engatamos um namoro transcontinental. Nisso, acabei ficando por uma semana e meia na França, curtindo com Mia os bulevares parisienses e uma viagem rápida ao sul do país pra visitar as aldeias centenárias. A região de lá é incrivelmente fascinante.

Cheguei na tarde de ontem a Portugal mas, em vez de retornar a minha casa em Faro, cogito partir direto de Lisboa até Cabo Verde no próximo final de semana. Um brother meu vai se encontrar com uns amigos brasileiros que vivem na cidade da Praia e me chamou pra conhecer o arquipélago africano. Disse ele que os cabo-verdianos são como a gente, deveras calorosos e anfitriões ao extremo. Estou interessado, mas até sexta decido se vou ou não.

Enquanto isso fico em Lisboa mesmo. Prefiro o interior de Portugal, onde, de certa forma, sinto-me mais próximo de casa, porque encontro estradinhas de chão, pastagens, plantações e céu estrelado como aí, em Espera Feliz. Mas a atmosfera lisboeta também não é nada mau. Estou num hotelzinho barato na Praça Luis de Camões que, por uma nostálgica coincidência, trata-se do mesmo no qual me hospedei quando pisei pela primeira vez na Europa. Tomo um vinho enquanto escrevo, pois aqui já faz frio e nessas horas penso que aí na Serra do Caparaó começa a temporada das cachoeiras… Invejo o clima que tens aí do lado de lá do Atlântico, amigo. Mas…

Falando nisso, como estão as coisas na cidade? Sinto saudades da terrinha, principalmente quando Mia, que também é ligada às atividades da natureza, conta-me a respeito das travessias que já fez pelos parques montanhosos da Nova Zelândia. Ela já esteve em quase todos os pontos que serviram de locação à produção do Senhor dos Anéis e, conforme vai me dizendo, imagino cenários como o do nosso Pico da Bandeira – só que multiplicado por muitos, claro.

E como vai a moçada? Outro dia falei com o Broca. Estava ele no Boca do Povo e, não fosse o fato de ser um sábado às duas da manhã aí na América do Sul, julgaria pelas mensagens que me enviava do WhatsApp que o cara jamais fora alfabetizado. Avisa a galera que planejo ir ao Brasil lá pelo final de abril, pra Festa do Paraíso… Será que ainda existe o pique dos velhos tempos?!

Trocando de pauta, soube que o pau quebrou nessa primavera política brasileira. Acompanhei tudo pela internet e vi que a dona Dilma tirou fino pelo moço Aécio, desde os debates até o resultado do segundo turno. Mesmo de fora, tive a sensação estranha que, suponho, grande parcela da população também teve, de se deparar com a conjuntura de insatisfação generalizada por saber que ambos os finalistas da campanha eleitoral não estavam sendo escolhidos por opção, mas por mera exclusão. O alto percentual de abstenção, nulos e brancos não seria um sinal dessa tendência? É, meu amigo, a coisa anda feia por aí, e o pior é que a solução nem está à iminência de nenhum dos candidatos, o que enfraquece a confiança e fortalece a indignação da maioria dos conterrâneos. O problema, parceiro, não é a forma a qual se opera a máquina, mas a própria máquina com seus mecanismos oxidados ao círculo vicioso da nossa política.

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Revendo as eras, minha opinião é a de que o Brasil está carente de heróis. Não os construídos pelo aparelho, mas os que surgem naturalmente, com história real e olhar nobre – como convêm a todo herói de verdade. Enquanto esse messias não chega, sigo acreditando que os brasileiros é que detêm o poder. Não o de transformar os políticos, mas a si próprios. Se o povo muda o jogo, mudam-se também as regras, concorda?

No mais, deixo meu abraço e meus votos de harmonia. Manda lembranças pra geral aí da serra e diga que daqui do Velho Mundo torço pra que a Coração Valente do Partido dos Trabalhadores seja sábia, competente, digna e humana. Mas, principalmente, torço pra que em 2015 ela seja “brasileira”, assim como eu, você e todos nós.

Ass: M. K.

Lisboa, Portugal – outono de 2014.

Sobre Farley Rocha

Farley Rocha é professor, fã do Radiohead e do Seu Madruga. Já plantou uma árvore, escreveu um livro e edita o blog http://palavraleste.blogspot.com


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