Farley Rocha

Este é um artigo ou crônica pessoal de Farley Rocha.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

Café com rock

Nossa identidade vem de nossa raiz camponesa moldada pelo clima e pelas paisagens montanhosas da Serra do Caparaó.

Publicado em 28/05/2018 - 10:28    |    Última atualização: 28/05/2018 - 10:28
 

Já é noite quando chegamos ao Vale do Paraíso. Da descomunal cordilheira da Pedra Menina, só vemos um borrão escuro contra o reflexo de um céu de nuvens. Paramos o carro no Sítio Santa Rita, um dos berços da produção dos cafés finos da região, onde viemos curtir o Coffee Rock 2018.

Idealizado pelo barista e músico Fred Ayres, sócio-proprietário d’A Cafeteria, o evento surgiu no outono de 2016 com o objetivo despretensioso de reunir alguns amigos músicos para celebrar o Dia Nacional do Café e início da temporada de colheita. Mas o Coffee Rock foi tão certeiro que, desde então, vem se firmando como festa pioneira no circuito dos cafés especiais e um dos acontecimentos mais bacanas da Serra do Caparaó.

Ao chegarmos, cumprimentamos os amigos e acenamos aos conhecidos que se aglomeram em pequenos grupos nas mesinhas adjacentes, nos puffs sobre o gramado e no deck d’A Cafeteria. Contrariando a expectativa para esta época de maio, não faz frio. O que contribui para que o público se sinta ainda mais à vontade ao som da Coffee Jam Big Band, que toca Beatles e Queen no pavimento inferior enquanto crianças brincam de pique em frente ao palco.

Além do ambiente doméstico e familiar, o que torna esta festa ainda mais fascinante é o local onde ela é feita, pois tudo aqui é naturalmente temático, a começar pela entrada do sítio. Uma estradinha de terra – margeada por cercas, açudes, laranjeiras, pastagens, casas de meeiros e casarões do início do desbravamento da serra – conduz até o alto de uma colina, onde há o estacionamento instalado no meio das lavouras de café. Ao se caminhar para a festa, organizada na área comum entre a cafeteria, a hospedagem e a sede do sítio, é preciso atravessar o terreirão de pedra de secagem dos grãos circundado pelas tulhas, paióis, garagens com veículos de trabalho, barracões de beneficiamento e sentir, por toda parte, o aroma adocicado dos micro-lotes de café fermentando sob as estufas. Tudo exatamente igual como é no dia-a-dia da propriedade.

Depois de comprar uma IPA artesanal no stand da Cervejaria Vom Bergen, de onde ouço a banda Frogvill tocando Reptilia, encontro o patriarca da família Lacerda e proprietário do Sítio Santa Rita, o Sr. Tarcísio, com quem aproveito quinze minutos de prosa para aprender um pouco mais sobre cafés especiais, turismo rural e sua importância para a economia local. É quando constato – o que há muito já suponho – que nossa verdadeira identidade, desde a forma de falar, de agir e de pensar, vem de nossa raiz camponesa moldada pelo clima e pelas paisagens montanhosas da Serra do Caparaó.

E é justamente essa a essência do Coffe Rock, um evento de requintado bom-gosto e antenado com as tendências do gênero no Brasil e no mundo, mas sem soar elitista ou segregador, pois destaca como característica principal o vínculo hereditário que temos com a vida simples da roça – o que realça ainda mais nosso sentimento de pertencimento e oferece um genuíno atrativo para quem nos visita.

Enquanto bebo meu segundo copo de cerveja e troco ideias sobre futuros projetos com o pessoal do grupo de pedal Elo das Montanhas, lembro da edição anterior do evento, que foi sede do III Campeonato Brasileiro de AeroPress e contou com a participação de competidores nacionais e estrangeiros. É aqui que meus pensamentos viajam – mais pelo entusiasmo do momento do que pelo efeito da birita – e fico imaginando como será Espera Feliz daqui dez anos, se soubermos (população e Poder Público) aproveitar esse fenômeno dos cafés especiais do Caparaó como marca de identidade e mola propulsora para o nosso desenvolvimento. No palco, a GoodFellas executa Creep, do Radiohead.

É por isso que A Cafeteria vem se despontando não só pela qualidade profissional que oferece em seus produtos e serviços, como também pela atitude visionária de promover e valorizar com maestria e responsabilidade o principal patrimônio que a Serra do Caparaó possui: a cultura de sua própria gente, que é tão ou mais especial quanto os cafés que produzimos.

Ao final da noite, meus amigos e eu nos despedimos do Coffe Rock 2018 brindando vida longa ao evento. Do terreirão de pedra, sob o céu encantado do Vale do Paraíso vejo a lua, que parece imitar o mágico e psicodélico sorriso do gato da Alice no País das Maravilhas – num claro sinal de que a charmosa “A Cafeteria” do Sítio Santa Rita é, cada vez mais, a cafeteria mais pop das montanhas do Caparaó.

Por Farley Rocha

Sobre Farley Rocha

Farley Rocha é professor, fã do Radiohead e do Seu Madruga. Já plantou uma árvore, escreveu um livro e edita o blog http://palavraleste.blogspot.com


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