
Este é um artigo ou crônica pessoal de Farley Rocha.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

Gostaria de saber explicar esse estranho laço de afeto pelos bichos de estimação. Quando se cria um animal doméstico, e se gosta dele de verdade – e aqui, o verbo ultrapassa os sinônimos comuns, pois quem gosta cuida, respeita, educa, trata com merecida dignidade – experimentamos de um sentimento tão genuíno que a relação entre ele e nós parece sacralizada por um poder divino. É um mistério que não entendemos, apenas aceitamos como se aceita um milagre.
Esse amor não significa tratá-lo como gente. Há muitas diferenças entre amar um cão ou um gato e amar alguém. Mas, sendo o amor uma coisa só, amar um humano ou um ser que não fala é produto gerado pelo mesmo coração. Então, no fim é tudo amor. É tudo afeto.
Por isso, a convivência com um bicho nas dependências de casa é uma experiência de troca constante: quanto mais aprendemos sobre ele – seus hábitos, suas manias, seu humor – mais aprendemos sobre nós mesmos, e sobre o que somos para com quem convivemos. Talvez reflita no olhar desses seres nossa imagem exata que só eles são capazes de enxergar.
Lembro-me de um gato de rua da minha época de menino. Como não tinha dono, acabava sendo de todo mundo, embora ninguém o assumisse de fato. Um dia, ele apareceu todo machucado. Talvez tivesse sido atropelado, por um carro ou por um cão feroz que cruzou seu caminho. Por não ter um responsável, acabou piorando suas feridas, com infecções severas por todo o corpo e grandes partes despeladas já quase em carne viva. Zanzava pela vizinhança em estado de alma penada o pobre coitado.
A molecada do bairro, mais por imaturidade emocional do que crueldade, cismou que o bicho deveria morrer. Então, sacrificá-lo tornou-se um atroz objetivo. Corriam atrás dele pelos quintais afora, atiravam-lhe pedras e pedaços de tijolo, xingavam-no quando passava manco pela calçada. Por razões inexplicáveis, o gato virou um estorvo ambulante e quem o executasse a pauladas ou pontapés ganharia imediatamente título de herói – ainda que tal medalha fosse por mérito de desonra.
Até que em certa manhã cinzenta, quando brincava sozinho na areia embaixo do abacateiro, o bichano surgiu pelo buraco da cerca, sorumbático, desvanecido, cadavérico. Ao me ver, congelou-se feito um puma empalhado como se aguardasse de mim a mesma hostilidade com que vinha sendo tratado. Talvez já não pudesse fugir, ou não quisesse mais resistir ao trágico fim que se anunciava próximo.
Evidentemente, reagi com a mais espontânea compaixão. Não haveria da minha parte qualquer motivo para odiá-lo. E ele, seguro de que não o faria mal, encarou-me complacente por alguns instantes, olhos nos olhos, e seguiu seu caminho arrastando o pesado corpo moribundo que já não se aguentava de pé. Foi a última vez que o vi, a salvo enfim da perseguição dos moleques.
Hoje, quando olho para Max – o gatinho siamês que resgatamos das ruas – é impossível não lembrar daquele outro bichano machucado e desprezado pelo abandono do mundo. De alguma forma, posso ver refletido no azul dos seus olhos a mesma compaixão que tive trinta anos atrás.
Assim deve ser esse amor que aceitamos mesmo sem entendermos direito. Como um sentimento divino. Como se fosse um milagre.
Por Farley Rocha.

Farley Rocha é professor, fã do Radiohead e do Seu Madruga. Já plantou uma árvore, escreveu um livro e edita o blog http://palavraleste.blogspot.com