Farley Rocha

Este é um artigo ou crônica pessoal de Farley Rocha.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

A guerra ao vivo, a cores e aqui

No lugar dos correspondentes, quase todos reduzidos a meros comentaristas, ganham protagonismo os próprios envolvidos no conflito.

Publicado em 04/03/2022 - 14:26    |    Última atualização: 04/03/2022 - 14:26
 

Na manhã de 24 de fevereiro, ainda na primeira hora de sol, o conflito armado que iniciara do outro lado do mundo era noticiado com tanta perplexidade como se as bombas estourassem no próprio quintal de casa.

Essa impressão de proximidade, mais pelo senso humanitário do que geográfico, foi provocada pela capacidade tecnológica de nos conectar – mesmo que fisicamente a internet mais nos afaste do que nos avizinhe.

É que pela primeira vez na história vivenciamos a dramática experiência de acompanhar uma guerra em tempo real, quase como se os ataques aéreos e as rajadas de metralhadora compusessem o roteiro de um perverso reality show.

Lembro-me que as duas das mais importantes guerras dos últimos trinta anos (a do Golfo, em 1990/91, e a do Iraque, em 2003) acompanhávamos pelo o que a imprensa filtrava diariamente. À noite, o Jornal Nacional televisionava resumos com videotapes e chamadas ao vivo, e os jornais impressos estampavam capas com manchetes exclusivas no início de cada manhã. Mas, naquela época, entre o fato e a informação havia um delay temporal que dispersava o estrondo dos mísseis, e a guerra nos chegava já fria e fragmentada através de estilhaços de palavras e imagens.

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Só que desta vez, com a recente invasão da Ucrânia pelos exércitos russos, não apenas o modo de transmitir os acontecimentos é diferente como também é diferente a percepção que temos das notícias. No lugar dos correspondentes, quase todos reduzidos a meros comentaristas, ganham protagonismo os próprios envolvidos no conflito: civis, militares e autoridades de ambos os lados, municiados de fuzis e celulares nas mãos.

Se tropas de Putin avançam fronteiras ucranianas ou se caças bombardeiam prédios em Kiev, nós, que vivemos no extremo ocidente do planeta, ficamos sabendo antes mesmo da apuração dos jornalistas. E assim, o distante confronto que assistimos minuto a minuto pela tela do celular ganha proporções de um realismo estarrecedor como se fôssemos nós no front de batalha.

O feed do Facebook, do Instagram, do Twitter etc., nos torna mais do que testemunhas oculares. Passamos de espectadores a co-participantes do evento, já que os vídeos e fotografias que vemos nos causam um horror similar aos que presenciam a coisa toda de perto: pais de família ajoelhados diante dos tanques na avenida; aviões largando mísseis próximo às casas em meio a latidos de cães e choro de criança; corpos ensanguentados arrastados na beira da rodovia; grupos de refugiados clamando paz e proteção.

Se durante anos Vladimir Putin planejou a carnificina, alocando reservas econômicas e arregimentando seu poder bélico, o ex-agente da KGB não contava com o elemento surpresa do adversário: as redes sociais, que propagaria um discurso anti-guerra até mesmo dentro de seu país. Tanto que o próprio presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, as utiliza como canais diretos entre órgãos oficiais e o povo, fazendo pronunciamentos de onde quer que esteja, convocando civis para a resistência armada, injetando ânimo de soberania e patriotismo, descrevendo tutoriais para a fabricação de coquetéis molotov e apelando para líderes mundiais o apoio que sua nação necessita. Tudo num arriscado arroubo de coragem contra um tirano com nostálgicas pretensões de czar.

Em uma aldeia globalizada pela internet, o autocrata russo, estrategista da velha escola soviética, desconsiderou o potencial das plataformas digitais, capazes de amplificar os ecos da guerra e mobilizar a opinião pública de bilhões de pessoas em favor de seu oponente.

Agora, a Rússia já não luta mais contra um oprimido país vizinho, mas contra metade do mundo que, graças ao efeito viral das redes sociais, conhece e condena as razões de sua ofensiva desigual.

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Por Farley Rocha.

Sobre Farley Rocha

Farley Rocha é professor, fã do Radiohead e do Seu Madruga. Já plantou uma árvore, escreveu um livro e edita o blog http://palavraleste.blogspot.com


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