Farley Rocha

Este é um artigo ou crônica pessoal de Farley Rocha.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

25 coisas para se fazer na quarentena

Em termos biológicos, cada vitória conquistada sobre uma doença é um degrau a mais que alçamos no templo da evolução.

Publicado em 24/03/2020 - 12:36    |    Última atualização: 24/03/2020 - 12:36

Doenças contagiosas fazem parte da nossa história desde que rabiscávamos paredes de cavernas. Se por um lado nos assombram pela ideia que nos trazem da morte, por outro nos ensinam muitas coisas a respeito da vida: não só por descobrirmos o antídoto certo, mas por nos adaptarmos aos melhores meios de se evitá-las. Em termos biológicos, cada vitória conquistada sobre uma doença é um degrau a mais que alçamos no templo da evolução.

É assim a natureza das epidemias, que de tempos em tempos surgem feito pragas do deserto e assolam a paz de toda a civilização. No final da Idade Média, por exemplo, a Peste Negra dizimou um terço das populações por onde se alastrou, distribuindo pânico por toda a Europa, China e Oriente Médio ao afetar drasticamente a história do século XIV.

Já a Varíola, doença que acometeu os humanos desde faraós das dinastias egípcias, vitimou cerca de 300 milhões de indivíduos em todo o mundo, até que em 1796 um cientista britânico chamado Edward Jenner inventasse uma vacina para contê-la. Só após muitas tragédias é que sua erradicação total foi declarada, na década de 1980.

Depois foi a Gripe Espanhola que tentou adoecer mais uma vez o planeta. Uma espécie de mutação natural da Influenza, esta gripe sem precedentes contabilizou na estatística de óbito mais de 100 milhões de pessoas desde seu surgimento em 1917, contagiando populações de vários países incluindo o Brasil. Por aqui, o segundo mandato do Presidente Rodrigues Alves foi letalmente abreviado por causa dela, que morreu em 1919.

Agora, um século depois desta última proliferação em massa de um vírus maléfico, as nações são novamente testemunhas de mais uma pandemia que aplaca o Ocidente e o Oriente, ao nivelar sem distinção de critérios tanto ricos quanto pobres, homens e mulheres, capitalistas e comunistas. Mas, assim como seus pares antecessores tiveram um ápice e um fim – e considerando que as redes sociais de hoje em dia nos dão grandes vantagens para a mobilização quanto às devidas prevenções – o Coronavírus certamente será vencido pela bagagem acumulada de nossa evolução científica e pela experiência que temos de sair mais fortes de cada epidemia.

Quando todo este caos não passar de apenas um capítulo de nossa brava e emocionante história humana, o mundo provavelmente será outro, reconfigurado não pelo trauma que a enfermidade deixará cicatrizada nos povos, mas pelo que através dela pudermos humildemente aprender.

E para que os dias difíceis desse combate obrigatório nos sejam mais leves, preparei uma pequena lista de 25 coisas para distrairmos a mente, o espírito e o coração durante a primeira quarentena mundial deste terceiro milênio contra um inimigo invisível, a saber:

1- se é adulto(a), resgate o olhar no olho ao conversar com seus pais, irmãos, companheiro(a) e filhos; se é criança, busque as mais fantásticas histórias da imaginação para narrá-las aos avós, pais e tios;

2- durante o dia, chegue à janela para ouvir passarinhos e o vento soprando no concreto das calçadas; durante a noite, repare na lua e nas estrelas o sorriso do céu brilhando no Universo;

3- se possui jardins, vasos ou jarras, observe de perto a anatomia das plantas, o frágil esqueleto no organismo de suas folhas, a textura da pele na superfície das pétalas;

4- leia um livro de poemas, fora de ordem, abrindo aleatoriamente uma página como se caminhasse distraído numa rua qualquer;

5- assista/reveja filmes de toda espécie e época, escolhendo não pela sinopse, mas pelos títulos mais atrativos (indico: “O Fabuloso Destino de Amélie Poulan”, “O Curioso Caso de Benjamin Button”, “Vanilla Sky”, “Os 12 Macacos”, “Casa de Areia”, “Meia-noite em Paris”, “Bastardos Inglórios”, “Meu Nome Não é Johnny”, “O Diabo Veste Prada”, “Quero Ser John Malkovich”, “Clube da Luta”, “Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças”, “Apocalypse Now”, “Paris, Texas”);

6- se tiver mapas em casa, abra-os sobre a mesa da cozinha; caso não os tenha, consulte um na internet. Percorra o mundo com a ponta dos dedos, procurando por países que nem sabia existirem: pesquise sua história, sua cultura, sua gente e fantasie-se por lá pisando aquele chão misterioso;

7- ouça músicas comuns ou exóticas – contemporâneas e das antigas – descubra novas vozes e discos que jamais imaginou ouvir (indico: “Tudo Outra Vez”, do Belchior; “Sound of Silence”, do Simon & Garfunkel; “Chão de Estrelas”, do Sílvio Caldas; “Poles Apart”, do Pink Floyd; “Dia Branco”, na versão do Uns e Outros; “Bolero de Ravel”, de Joseph Maurice Ravel; “The Hour”, do Beach House; “Bom Senso”, do Tim Maia; “Flames”, da Sia; “Canção do Engate”, do António Variações; “Time in a Bottle”, do Jim Croce; “Present Tense”, do Radiohead; “É Preciso Dizer”, do Silva);

8- se crê em entidades superiores, faça preces no silêncio das palavras; se não crê, apenas se reserve na fluidez de bons pensamentos;

9- faça desenhos em folhas de cadernos velhos, dando forma às paisagens dos seus mais enigmáticos sonhos;

10- quando chover, repare nos cheiros que a umidade pulveriza no ar;

11- comunique-se com vizinhos no intervalo das varandas e muros de quintais;

12- prepare massa de pão caseiro; caso não saiba, aprenda (fazer pão é quase terapêutico). Depois de pronto, saboreie-o comendo cada fatia apenas com um fio de azeite;

13- quando entediado, lave os copos da pia, lubrifique as dobradiças da porta, arrume as meias da gaveta;

14- cultive cactos, se os tiver; se não, busque por imagens na internet. Aprecie a estrutura imperiosa que eles têm, a resiliência e a autoestima que cada um carrega em si, sua beleza delicada disfarçada entre espinhos;

15- converse com cães, gatos e peixes, se os tiver, e ouça através de seus gestos o que cada um tem a dizer (as “palavras” dos animais são sempre mais honestas do que as nossas);

16- experimente legumes e vegetais sem sal: coma um tomate como se mordesse uma maçã, mastigue um alface como se fosse um coelho;

17- pesquise no Google Imagens as pinturas de Salvador Dali (são todas perturbadoramente fascinantes);

18- leia as crônicas de Clarice Lispector;

19- evite – na medida do possível – discutir política. Mas se for discutir, não use frases feitas, memes ou opiniões alheias: informe-se primeiro, elabore seus próprios argumentos;

20- verifique-se com responsabilidade antes de compartilhar ideias fáceis ou sedutoras; possivelmente não passarão de “teorias da conspiração” ou conceitos tolos;

21- conheça o trabalho de Sebastião Salgado; não há nada mais humano do que as fotografias que ele faz (há na internet um documentário incrível sobre ele: “Sal da Terra”. Depois de assisti-lo, nunca mais será o mesmo);

22- leia “Cem Anos de Solidão”, do escritor colombiano Gabriel García Márquez. Não se deixe enganar pelo coincidente trocadilho do título, pois este é um dos mais lindos livros já escritos!;

23- abra um dicionário. Divirta-se aprendendo o significado de vocábulos estranhos: “escafandro”, “salutar”, “pélago” e “alcíones”, por exemplo;

24- troque mensagens com um(a) amigo(a) distante. Ao despedir-se, envie um emoji de coração;

25- e, claro, tranque-se em casa, hidrate-se bastante e não se esqueça de sempre lavar as mãos.

Por Farley Rocha.

Sobre Farley Rocha

Farley Rocha é professor, fã do Radiohead e do Seu Madruga. Já plantou uma árvore, escreveu um livro e edita o blog http://palavraleste.blogspot.com


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