Enrique Natalino

Este é um artigo ou crônica pessoal de Enrique Natalino.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

Os desafios do entorno da Serra do Caparaó

A busca de uma inserção política, econômica, administrativa e turística cada vez maior da nossa região no mapa de Minas e do Brasil deve sempre avançar.

Publicado em 21/05/2014 - 08:10    |    Última atualização: 21/05/2014 - 08:10
 

Serra

Durante seu breve período como Governador de Minas, antes de renunciar ao do Palácio da Liberdade para se candidatar à presidência da República pela via indireta, Tancredo Neves fez uma visita à cidade de Alto Caparaó, na Serra do Caparaó, Zona da Mata. O ilustre visitante hospedou-se no recém inaugurado Caparaó Parque Hotel, charmoso empreendimento aos pés da cordilheira, com vista para a face de Cristo, monumento natural da região. Naquela época, o acesso à portaria mineira do Parque Nacional se dava apenas por estradas de difícil acesso, sem asfaltamento, fato que não inibiu a coragem e a visão do empresário Ronaldo Gripp, de família de Espera Feliz, a construir, no longínquo ano de 1979, um dos melhores hotéis de montanha naquela região. As paisagens que o ex-presidente Tancredo Neves visitou, trinta anos atrás, ainda são as mesmas, mas a região do Entorno da Serra, hoje reconhecida como um dos melhores locais de prática de ecoturismo no Brasil, evoluiu bastante desde então.

A colonização da região da Serra do Caparaó foi impulsionada com a vinda de uma expedição de engenheiros em 1859 e a colocação de uma bandeira, a mando de D. Pedro II, no ponto mais elevado do Império. A região foi beneficiada com a expansão do ciclo cafeeiro e pela construção da Estrada de Ferro Leopoldina, que a conectou ao Rio de Janeiro, facilitando o escoamento da produção agrícola e trazendo imigrantes. A agricultura familiar e os terrenos acidentados, se por um lado mantiveram a produtividade baixa, por outro geraram uma reforma agrária natural, com o aparecimento de pequenas propriedades familiares, favorecendo uma melhor distribuição de renda, sem grandes desigualdades.

Até meados do século XX, o acidente geográfico da Serra do Caparaó, um dos maiores desníveis de altitude do Brasil, dificultava o esforço de expansão econômica dos Municípios da região. A criação do Parque Nacional do Caparaó, em 1961, com apoio do ex-presidente Jânio Quadros, que esteve na região durante sua campanha à presidência, foi um divisor de águas. A área de proteção da Mata Atlântica, na divisa dos Estados de Minas e Espírito Santo, tornou-se ainda um foco guerrilheiro contra o regime militar, rapidamente debelado. A concentração de altitudes de quase 3000 metros, clima temperado, povo receptivo, fauna e flora diversificas, antigas fazendas, plantações cafeeiras, estradas idílicas, fartas pastagens e cidades estruturadas fazem da Serra um dos destinos turísticos de maior potencial de atração do país.

O Governo de Minas tem sido um parceiro fundamental da região e dos municípios do Entorno. Nessa linha, importantes investimentos públicos, como a construção da Estrada-Parque Espera Feliz-Paraíso, ajudaram a alavancar a infraestrutura e a abrir novas perspectivas para o escoamento da produção agrícola, o aumento do turismo e a melhoria do bem-estar dos moradores da comunidade do Entorno. Recentemente, foram anunciados a construção da nova Estrada-Parque entre o Distrito do Paraíso e Caparaó, interligando os dois lados da Serra, e a instalação de uma futura antena de telefonia celular em São José da Pedra Menina. Na mesma linha, foi lançado o guia do Circuito Turístico Pico da Bandeira, com informações bem selecionadas sobre o Parque Nacional e as cidades do Entorno da Serra, ricamente ilustrado e detalhado. Trata-se de uma iniciativa dos 17 municípios mineiros que compõem essa região do leste do Estado, com apoio da Secretaria de Turismo do Governo de Minas.

Tal realidade nos remete à necessidade de nos prepararmos para o fortalecimento dos Municípios do Entorno como realidade econômica, política, social, histórica e cultural, nos contextos mineiro, capixaba e nacional, o que exige a melhoria da gestão municipal e a seleção de representantes políticos em Belo Horizonte e Brasília comprometidos com um projeto mais amplo de desenvolvimento regional, integrado aos programas estaduais e nacionais e às melhores práticas de governança. A busca de uma inserção política, econômica, administrativa e turística cada vez maior da nossa região no mapa de Minas e do Brasil deve sempre avançar, transformando-a numa receptora de investimentos e empreendimentos inovadores, como hotéis, pousadas, restaurantes, cafés e fazendas.

Sobre Enrique Natalino

Enrique Carlos Natalino é doutorando em Ciência Política na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e mestre em Administração Pública pela Escola de Governo da Fundação João Pinheiro. É graduado em Direito na Universidade de São Paulo (USP). É professor-colaborador do Instituto de Ciências Econômicas e Gerenciais da PUC-Minas. Foi pesquisador-visitante do German Institute of Global and Area Studies (GIGA), na Alemanha. Co-edita o blog de Política Internacional Fora da Cadência (www.foradacadencia.com).


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