Enrique Natalino

Este é um artigo ou crônica pessoal de Enrique Natalino.
Não se trata de uma reportagem ou opinião do Portal Espera Feliz.

A Reconstrução de Espera Feliz

Com confiança, trabalho, fé e energia, os esperafelicenses reconstruirão a sua cidade tijolo por tijolo, ainda mais unida, solidária e forte.

Publicado em 07/02/2020 - 20:10    |    Última atualização: 07/02/2020 - 20:10

Espera Feliz devastada pela fúria das águas. Cerca de 80% da área urbana do município foi completamente tomada por inundações. As ruas viraram um cenário pós-apocalíptico, uma praça de guerra digna de filme-catástrofe do cinema. Residências, comércio, órgãos públicos, escritórios, farmácias, supermercados, bancos, ruas, praças, transporte e abastecimento foram seriamente danificados. Prejuízos humanos e materiais foram incalculáveis. Milhares de moradores perderam tudo. Felizmente, em meio a este cenário desolador, uma ótima notícia em meio à tragédia: os moradores desaparecidos foram encontrados.

Estima-se que os prejuízos materiais acumulados pela devastação da cidade de Espera Feliz alcancem a casa de 150 a 200 milhões de reais. Numa cidade de 25 mil habitantes, equivale ao efeito destrutivo de uma guerra. É preciso contabilizar as ruas destruídas, as pontes danificadas, os prédios públicos incapacitados, os bairros inteiros invadidos pela lama, os bens materiais perdidos, o estoque de dezenas de comerciantes perdido, os danos nos sistemas de água, esgoto, energia, abastecimento, transporte e comunicação.

Nessa conta não entram a possível ameaça de destruição de centenas de empregos no comércio e no setor de serviços. O efeito multiplicador da tragédia das chuvas representara uma queda considerável tanto no estoque quanto na capacidade de produção de riqueza. A arrecadação de impostos, por exemplo, sofrerá uma considerável redução, comprometendo a capacidade fiscal do Município.

A necessidade de unir forças

A Natureza cobra um custo muito elevado da cobiça e da irresponsabilidade do Homem, com destruição sistemática das matas, a construção em áreas de risco, a ocupação das várzeas dos rios, a construção de prédios em cima de córregos, a poluição da calha fluvial, a impermeabilização dos solos com asfalto.

A tarefa de reconstrução de Espera Feliz começa. Toda a ajuda da sociedade civil é bem-vinda. O Município precisará de todo auxílio e socorro possíveis dos governos estadual e federal. A liderança das autoridades, o trabalho dos agentes públicos, a mobilização comunitária, a colaboração de voluntários, as doações de produtos de primeira necessidade, a busca de recursos emergenciais, a rapidez no socorro aos desabrigados, o dinamismo dos órgãos públicos, o apoio de cidades vizinhas e os gestos de solidariedade humana são fundamentais na pior crise da história do Município.

A sociedade civil está dando um show de mobilização e o Governo Municipal tem agido com muita competência em lidar com a crise. A vida recomeça lentamente e o apoio de todos às instruções das autoridades é fundamental para agilizar a limpeza da lama, reestabelecer os serviços básicos, consertar os estragos na infraestrutura e mitigar o sofrimento humano, principalmente dos mais pobres.

Para romper o ciclo vicioso que pode levar a uma depressão econômica, será preciso trazer mais recursos externos para a reconstrução da infraestrutura básica do Município. Com infraestrutura normalizada, será possível retomar gradualmente a geração e a circulação de riqueza. Os governos estadual e federal possuem uma responsabilidade imensa em garantir que não faltem meios para reerguer pontes, consertar calçamentos, melhorar as estradas e as redes de água, esgoto, luz. O Governo de Minas disponibilizou poucos recursos para o Município até agora. É preciso muito mais. O Governo Federal precisa liberar dinheiro pesado para a reconstrução das cidades da região. Estamos falando de milhões de reais. Do contrário, podemos ter uma tragédia humana de dimensões ainda maiores.

Para levantar Espera Feliz novamente, é preciso irrigar a economia com recursos para a compra de eletrodomésticos, reformas de casas e renovação dos estoques dos comerciantes. É preciso que os bancos oficiais (Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, BDMG e BNDES) disponibilizem linhas de crédito emergenciais existentes para cidades afetadas por desastres. A população precisa cobrar do governador, dos deputados estaduais e federais, dos senadores de Minas Gerais e do presidente da República uma ação mais abrangente.

Exemplos de reconstrução

Outras cidades que vivenciaram tragédias semelhantes saíram dessa crise mais solidárias, unidas e fortes. A situação é muito parecida com as das cidades de Blumenau (SC) e de Goiás Velho (GO), ambas castigadas por chuvas e muita destruição há algumas décadas.

Blumenau sofreu a pior enchente de sua história em 1983, com casas arrastadas, pessoas abrigadas em sótãos, falta de água, energia, telefone e comida. Um terço da cidade ficou desabrigada e as perdas materiais foram quase totais. “Eu tinha medo que Blumenau se transformasse em uma cidade fantasma”, confessou Dalto dos Reis, que era o prefeito do município na época. No ano seguinte, ocorreu a primeira edição da Oktoberfest. “Era exatamente para o seguimento moral, para se viver algo diferente, que não aquela angústia”, disse. Blumenau se transformou numa das principais cidades turísticas brasileiras.

Goiás Velho, antiga capital de Goiás, foi devastada por terríveis chuvas torrenciais que quase destruíram todo o centro histórico da cidade, tombado como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco. Menos de um mês após receber o título, a cidade teve quarenta casarões tombados pela danificados, inclusive o da poetisa Cora Coralina. Vinte e três lojas à beira do rio viraram ruínas. Após anos, obras emergenciais e de restauração, realizadas com dinheiro público, recuperaram o charme da cidade, que voltou ao esplendor dos velhos tempos e recebe turistas de todo o mundo.

Tanto Blumenau quanto Goiás Velho são casos de reconstrução urbana bem-sucedida após grandes catástrofes naturais. Ambas tomaram medidas preventivas de planejamento urbano, escoamento das águas e melhoria da infraestrutura para evitar tragédias daquele porte. E tiveram coragem de recomeçar.

Esperança, fé e determinação

A cidade de Espera Feliz, com forte potencial turístico, deve se inspirar nesses dois exemplos. Tem uma bela trajetória de trabalho e de luta diante das adversidades. Seus cidadãos são organizados e altamente mobilizados. Suas instituições são ativas e presentes. Possui imensas riquezas naturais e um enorme potencial para se tornar a capital do café de qualidade. Esses ativos, hoje muito subaproveitados, devem ser o carro-chefe da reconstrução da infraestrutura e da economia da cidade. Ao seu povo não faltará coragem, determinação e energia para a tarefa de reerguer a cidade.

Espera Feliz haverá de vencer as adversidades. Um dia depois do outro, sempre olhando para frente. Com confiança, trabalho, fé e energia, os esperafelicenses reconstruirão a sua cidade tijolo por tijolo, ainda mais unida, solidária e forte.

Enrique Carlos Natalino, bacharel em Direito (USP), mestre em Administração Pública (Fundação João Pinheiro) e doutorando em Ciência Política (UFMG). Esperafelicense acima de tudo.

Sobre Enrique Natalino

Enrique Carlos Natalino é doutorando em Ciência Política na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e mestre em Administração Pública pela Escola de Governo da Fundação João Pinheiro. É graduado em Direito na Universidade de São Paulo (USP). É professor-colaborador do Instituto de Ciências Econômicas e Gerenciais da PUC-Minas. Foi pesquisador-visitante do German Institute of Global and Area Studies (GIGA), na Alemanha. Co-edita o blog de Política Internacional Fora da Cadência (www.foradacadencia.com).


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