Cidade Submersa – Capítulo VII – Com a Água Se Aproximando da Laje

Capítulo VII da série de reportagens documental "Cidade Submersa".

Publicado em 21/09/2020 - 10:17    |    Última atualização: 21/09/2020 - 10:17
 

CAPÍTULO VII

COM A ÁGUA SE APROXIMANDO DA LAJE

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O servidor público Estêvão Guarini, morador da avenida Beira Rio nas imediações da ponte da rua Major Pereira, conta que por volta das 23 horas da sexta-feira 24 de janeiro, quando a água já havia tomado completamente o chão de sua casa, ele se refugiou na laje na expectativa de que a inundação não demorasse a recuar.

No entanto, com o nível da enchente se elevando rapidamente abaixo de seus pés, ele se viu cercado pelas correntezas que criavam vórtices de gravetos e destroços ao redor da casa. Como era impossível tentar sair a nado, pois o risco de ser arrastado era grande, Estêvão permaneceu ilhado durante toda aquela noite, sentindo frio, fome e apreensivo pelo desfecho imprevisível das horas seguintes. Durante aqueles momentos ele não poderia imaginar, mas sua situação era igualmente a mesma de muitas outras pessoas ao longo da cidade.

Somente por volta das 5 horas da manhã de sábado é que Estevão conseguiu escapar em segurança do perigo que o ameaçava a todo instante. Do segundo andar de uma casa vizinha, conseguiram lançar uma escada pela qual subiu trazendo apenas a roupa que vestia. Segundo conta, quando a enchente recuou ele descobriu que havia perdido quase todos os móveis e pertences de sua casa, destroçados no meio do pântano em que se transformou toda a vizinhança.

A esta hora, do outro lado da ponte da Major Pereira, pelo menos três casas antigas já haviam sido demolidas pelas correntezas.

(Vista parcial entre Rua Nova e avenida Beira Rio)

NO BAIRRO SANTA CECÍLIA, À MERCÊ DA ENCHENTE

O músico e estudante Lukas Lugão, residente do bairro Santa Cecília, também relata momentos de agonia vividos naquela noite. Ele conta que às 21 horas do dia 24 de janeiro, junto da mãe e do irmão, começou a suspender os móveis mais pesados da casa e realocar os mais leves no segundo andar.

Mas entre duas e meia e 3 horas da manhã de sábado ele viu a situação ficar irreversivelmente crítica. Em poucos minutos a água se elevou consideravelmente, ocupando todo o primeiro andar da casa e impossibilitando de salvar qualquer outra coisa a não ser a si mesmos.

Como seu pai é enfermeiro e estava escalado para trabalhar naquela noite, foi impossível que ele retornasse para junto da família, pois a enchente, àquela hora, já havia ultrapassado o guarda-peito da ponte da rua João Alves de Barros, que dá acesso ao bairro. À distância, monitorou por telefone as condições de sua família ilhada até que o rio baixasse e ele pudesse retornar para casa.

Nas palavras de Lukas, esta foi a experiência mais caótica e dramática pela qual já passou. Porque ao mesmo tempo que ouvia os móveis sendo arremessados nas paredes do primeiro andar, sentia-se impotente diante daquela força que chacoalhava sua casa e a dos vizinhos. Amparado pelo auxílio de moradores próximos, que também estavam ilhados, receberam durante toda a noite alimentos, água potável, colchões e cobertores.

Lukas, sua mãe e seu irmão só puderam descer em segurança do segundo andar na tarde de sábado, por volta das 15 horas. Aliviados por estarem bem, mas arrasados pela destruição causada em todos os cômodos da casa – assim como em todas as outras residências do bairro.

NA CURVA DO RIO

Na extremidade sul da rua Major Pereira, logo após o Cemitério São Francisco de Assis, é onde o Rio São João faz a curva mais sinuosa no seu curso dentro da área urbana – justamente ao lado do crescente número de moradias do Patronato, na margem direita acima do Pontilhão de Ferro.

Por esta característica geográfica do local, quando a enchente chegou toda a várzea ao redor se transformou num monstruoso remanso onde correntezas em forma de espiral se moviam rapidamente, engolindo casa por casa.

Em plena madrugada, moradores tiveram que evadir-se às pressas pelo único caminho possível, na estrada de terra por cima do Sítio Pão de Ló, que interliga o Patronato ao asfalto de Caiana. Pelo acesso mais curto ao centro da cidade, via bairro Santa Cecília ou rua Major Pereira, a inundação já não permitia mais passagem.

De acordo com testemunhas locais, até por volta de meia-noite a água não passava de poucos metros além do leito. Como ali o terreno é constituído de uma grande e aberta área plana, havia espaço suficiente para a enchente se dissolver antes que alcançasse as casas. No entanto, o Pontilhão de Ferro localizado mais abaixo, onde o rio se estreita pela garganta de pedra dos alicerces da ponte, acabou represando a água, fazendo-a inundar de cima abaixo toda a região do Patronato. Pouco antes do amanhecer, quase todas as casas do lado direito da rua principal estavam submersas.

Apenas ali foram cerca de 50 residências atingidas. Enquanto grande parte dos moradores perderam praticamente tudo que possuíam, outros tantos tiveram até mesmo o próprio lar destruído pelo poder avassalador da enchente.

(Vista parcial da enchente no bairro do Patronato)

200 PASSARINHOS SOB AS ÁGUAS

O aposentado Carlos Romero, residente da rua Gomes de Barros, próximo à parte baixa da Praça da Bandeira, conta que ao longo dos anos sua casa já foi acometida várias vezes por enchentes, mesmo estando num quarteirão a quase 200 metros de distância do rio.

Por isso, por volta das 22 horas da sexta-feira, com a ajuda de familiares e amigos ele apenas suspendeu seus móveis a cerca de 1 metro do chão, como sempre fez em outras épocas de cheia, considerando que assim seus pertences estariam seguros.

Mas pouco antes da 1 hora da manhã, antes mesmo da cabeça d’água anunciada atingir a cidade, a casa já estava com todos os cômodos tomados pela inundação. A partir dali, era impossível fazer qualquer coisa a não ser abandonar a casa.

Naquela noite ele se abrigou no apartamento de sua irmã, num prédio próximo ao Lions Clube, de onde tinha uma visão panorâmica do que o desastre provocava em sua residência e ao longo da rua Américo Vespúcio de Carvalho. Carlos relata que até o amanhecer de sábado sua casa ficou inteiramente submersa, podendo ser visto apenas uma pequena parte do telhado sobrando acima de uma fluida mancha marrom.

Além de todos os pertences que foi obrigado a deixar para trás, Carlos também lamenta que cerca de 200 canários licenciados que criava por hobbie na varanda dos fundos acabaram se afogando. As aves, que ficavam suspensas do chão, cada qual distribuída adequadamente em viveiros de metal, não puderam ser retiradas a tempo. No dia seguinte, todas elas foram encontradas sob uma grossa camada de lama que se acumulou no fundo das gaiolas e no interior de seus pequenos pulmões.

MEMÓRIAS DE JANEIRO DE 1997

Durante os acontecimentos daquela noite, muitos lembravam de enchentes passadas tentando estabelecer paralelos entre elas e esta que viam em tempo real. A segunda maior enchente já ocorrida em Espera Feliz foi há 23 anos, no verão de 1997.

Foi o resultado de vários dias consecutivos de chuva que iniciou no feriado de Ano Novo e só foi dar trégua uma semana depois, numa tarde de segunda-feira, mesmo dia em que o rio avançou cerca de 100 metros para além das margens em direção ao centro da cidade.

Dias antes do seu transbordamento na ponte da Terra Branca, diversas outras partes mais vulneráveis já estavam alagadas, como os bairros João Clara, Santa Cecília e avenida Beira Rio. Centenas de moradores precisaram recorrer a abrigos.

No entanto, mesmo que para as vítimas aquele verão tenha sido bastante dramático, os estragos causados não chegaram a comprometer o funcionamento pleno da cidade. Praticamente nenhuma infraestrutura importante ficou seriamente comprometida. A limpeza e a manutenção dos bairros ocorreram com certa facilidade, de modo que em pouco tempo os prejuízos e danos foram sendo recuperados.

Por outro lado, assim como a cena dos porcos permaneceu como a lembrança mais marcante da enchente de 1979, a memória mais impactante que ficou da inundação de 1997 foi o desabamento de um pequeno prédio localizado ao lado da ponte Terra Branca.

Como seus alicerces haviam sido construídos praticamente dentro do rio, a força das correntezas ruiu o solo em volta do concreto e abalou as colunas que o sustentavam. Na tarde de sábado daquela mesma semana o prédio não suportou o volume do próprio peso e veio abaixo. Contudo, como os moradores já o haviam abandonado assim que as paredes começaram a apresentar rachaduras, por mais catastrófico que tenha sido, o ocorrido não chegou a vitimar ninguém.

Depois disso, para aumentar a faixa de segurança o rio passou por mais uma obra de dragagem, coincidentemente na segunda gestão do prefeito Reinô Martins de Oliveira – o mesmo que havia executado a obra pela primeira vez, quase 20 anos antes.

Depois disso, por mais de duas décadas o São João se manteve discreto, deslizando-se calmo ao largo das ruas e avenidas que o margeiam. Até que em 2020 seu comportamento fosse violentamente alterado – assim como toda a rotina da cidade que ele banha.

(Desabamento de prédio na enchente de 1997)

Sobre o autor

Farley Rocha é professor de Língua Portuguesa e Literatura das redes pública e privada de Espera Feliz. É cronista do site PortalEF e tem dois livros publicados, Mariposas ao Redor (2011) e Livre Livro Leve (2015).


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