Cidade Submersa – Capítulo VI – A Chegada da Grande Enchente

Capítulo VI da série de reportagens documental "Cidade Submersa".

Publicado em 20/09/2020 - 10:22    |    Última atualização: 21/09/2020 - 10:20
 

CAPÍTULO VI

A CHEGADA DA GRANDE ENCHENTE

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Até as primeiras horas da madrugada de 25 de janeiro o transbordamento do rio evoluiu em ritmo progressivo. Mas por volta das 3 horas da manhã, como se abrissem comportas de uma grande represa, um volume de água em proporções pavorosas invadiu a cidade derramando-se violentamente até por entre ruas, casas e quintais nunca antes inundados.

Bem no meio da madrugada, entre a Rua Nova e rua Carangola, o Rio Caparaó se encontrou com o Rio São João, desencadeando uma sequência de acontecimentos que durariam muitos dias a partir daquele instante.

A cabeça d’água anunciada mais cedo enfim chegava com força total. Durante seu trajeto de aproximadamente 50 quilômetros desde as montanhas do Parque Nacional até a cidade, o Rio Caparaó conduziu um aluvião de lama e destroços que arrebentaram árvores, pontes e tudo o que estivesse no caminho. As curvas do seu leito iam sendo escavadas pelo atrito das correntezas enquanto barreiras iam interditando as estradas. Ao longo das várzeas dos povoados da Chave e do Quicé, currais, terreiros e casas iam sendo alagados junto à vegetação da pastagem submersa.

Como Espera Feliz já estava parcialmente sob as águas que vinham das nascentes do São João, a combinação da descarga dos dois rios resultou num desastre sem precedentes.

Em alguns pontos, o rio subiu até 8 metros acima do nível normal. O bairro João Clara ficou quase completamente submerso. Apenas uma fração das casas localizadas na parte mais alta da rua Caparaó, margeadas pela BR 482, permaneceu a salvo. Todas as outras foram atingidas pela enchente, muitas com água até no segundo andar.

Do outro lado da margem a inundação atingiu todo o bairro Santa Inês. Da Escola Estadual Altivo Leopoldino de Souza à rua de acesso ao trevo da entrada oeste da cidade. O Campestre Clube, incluindo suas instalações esportivas e piscinas, ficou inteiramente sob as águas. Apenas o pavimento superior do toboágua, como mostravam as fotos compartilhadas no dia seguinte, permaneceu a seco, rodeado pelo molho turvo despejado pelo São João.

Mais para baixo, ao longo de todo o percurso por onde o rio cruza a cidade, o transbordamento também foi implacável. A Rua Nova e adjacências ficaram a vários metros submersas, juntamente com toda a extensão da avenida Beira Rio e a maior parte da rua Carangola. Na rua Major Pereira e no bairro Santa Cecília o nível da enchente já ultrapassava os 3 metros. Quase todas as pontes do perímetro urbano já não podiam mais serem vistas, tragadas sob o fluxo barulhento das correntezas. Até bem próximo do amanhecer a enchente ainda atingiria o centro de Espera Feliz e ruas a quase um quilômetro de distância do rio.

Por sete horas seguidas as águas continuaram a subir, à mesma medida em que aumentava a desolação de todos naquele princípio de sábado.

MOMENTOS DE ANSIEDADE NO BAIRRO JOÃO CLARA

Naquela fatídica madrugada de janeiro, o bairro João Clara se tornou um enorme lago pontilhado por pequenas ilhas formadas pelo bico dos telhados. A Polícia Militar, a Defesa Civil e equipes da Prefeitura Municipal iniciaram operações de resgate dos moradores que haviam ficado ilhados. Por toda aquela noite, famílias inteiras foram resgatadas a barco e conduzidas aos abrigos.

No entanto, muitos dos que se refugiaram nas lajes ou no segundo andar de suas casas acabaram surpreendidos pela descomunal enchente, pois ninguém esperava que seria tão desproporcional.

Segundo o representante comercial Cristiano Zanirati, morador do local e que também teve a casa atingida, como parte da cidade estava sem energia elétrica devido aos postes danificados pelo desastre, era possível avistar no meio da escuridão pontos luminosos de moradores sinalizando com o celular. Misturado ao espantoso ruído provocado pelo atrito da água na quina das paredes, eram ouvidos vários gritos de socorro ecoando sob a noite do bairro João Clara. Cristiano Zanirati, que se mantinha a salvo junto a outros moradores ao longo da BR 482, relata que diante das cenas de terror não podiam fazer muito, já que enfrentar a nado a força do São João era arriscado demais.

DO DESCANSO DE FÉRIAS AO TRASNTORNO DA ENCHENTE

Segundo relata a professora Patrícia Thomaz Verly, moradora da rua Antônio de Paula Butters, no bairro Santa Inês, ela e sua família haviam chegado de viagem de férias no final da tarde de sexta-feira 24 de janeiro, já cientes do alerta de enchente para aquela noite.

Como todos os outros esperafelicenses, acostumados a um padrão limite de cheias do Rio São João, ela e sua família apenas suspenderam os móveis da residência na expectativa de que o alagamento deixaria não mais do que uma nata de lama pelo chão. Ao longo da noite, despreocupados mas atentos, ainda tiveram tempo de fazer doações para os que já estavam abrigados no Seminário.

Mas a 1 hora da madrugada, Patrícia Verly e seu marido Renato perceberam que aquela não se tratava de uma enchente comum. Então, passaram imediatamente para o segundo andar da casa junto de seu casal de filhos. Como as águas subiram abruptamente, conseguiram salvar pouquíssimas coisas lá de baixo, entre elas uma única mala de roupas.

Conforme conta, foram momentos de muito horror e medo. Ilhados, temiam pelas imprevisíveis consequências que o desastre poderia lhes causar. A salvos no segundo andar, ouviam os estrondos da geladeira e dos armários empurrados pelas águas no andar inferior.

A professora diz que o pavor era despertado não só pela situação em que ela e sua família se encontravam, mas, como o bairro João Clara fica na margem oposta ao Santa Inês, eles também puderam ouvir os clamores de socorro dos moradores vindos do outro lado do rio e por toda a vizinhança próxima.

Em determinado momento, Patrícia e sua família tiveram que passar para o terceiro andar, pois o nível da inundação já atingia os três metros de altura. Devido ao refúgio de emergência, permaneceram ali praticamente sem água, comida e sinal de internet até por volta das 18 horas do sábado 25 de janeiro, momento em que a água recuou e foi possível retornar ao primeiro andar em segurança.

De acordo com seu comovente relato, encontrar a casa arrasada após a enchente foi uma experiência desoladora. Não só por terem perdido quase tudo que tinham de mobílias e eletrodomésticos, mas por também terem de lidar com a perda de suas próprias conquistas acumuladas durante anos de trabalho e dedicação. Foram consumidos documentos, fotografias e muitas outras memórias de uma vida inteira. Ela diz que a sensação era a de uma espécie de luto, como se seus sonhos tivessem sido tragados de uma só vez pela lama.

(Vista parcial dos bairros Santa Inês e João Clara)

A NADO PELAS RUAS E IDOSOS RESGATADOS NA CAIXA D’ÁGUA

Patrícia também relata que, mais cedo, o seu marido Renato chegou a efetuar o resgate de uma criança de 3 anos de idade, filha de uma vizinha cuja casa já não era possível permanecer.

Como as paredes de ambas as casas eram próximas, Renato colocou tábuas entre os dois terraços e conseguiu atravessar com a menina, a mãe e uma outra vizinha que as acompanhava. Mais cedo, a mulher havia perdido o contato com o marido que, naquele dia, estava de plantão no pronto-atendimento do SAMU de Espera Feliz.

Como o maior volume d’água chegou repentinamente no decorrer da madrugada, ele ficou impossibilitado de retornar para casa porque as vias de acesso ficaram todas submersas. Então, decidiu se arriscar a nado desde a ladeira entre o bairro Santa Inês e o trevo de saída para Carangola. Depois de enfrentar vários metros de correntezas circulando por entre as casas, conseguiu chegar até onde sua família se encontrava, já a salvo na residência de Patrícia. Apesar do perigo, ele conseguiu retirar sua esposa e filha em segurança para longe da enchente, através de um colchão inflável.

Próximo dali um casal de idosos também passou por maus momentos. Sozinhos e impossibilitados de saírem pela água invadindo todos os cômodos, acabaram se refugiando na laje de casa. Por várias horas da noite permaneceram isolados do resto da cidade.

Depois que o dia clareou, um vizinho residente a quase 20 metros de distância, vendo a situação de vulnerabilidade do casal, arrancou a caixa d’água da própria casa e com ela improvisou um bote. Em seguida, com o auxílio de uma corda amarrada à caixa conseguiu resgatá-los, puxando-os por sobre a enchente que já cobria os muros naquela manhã de sábado.

(Resgate com caixa d’água no bairro Santa Inês)

SALVA-VIDAS VOLUNTÁRIOS EM COLCHÕES INFLÁVEIS

Sobre aquela madrugada há vários relatos de pessoas que se arriscaram na enchente para salvarem moradores que ficaram ilhados. Quando a cabeça d’água estourou na cidade, um grupo de homens se reuniu nas proximidades da Rua Nova e da avenida Beira Rio para tentarem efetuar resgates utilizando colchões infláveis.

Segundo contam, uns dez rapazes ficavam na parte rasa da inundação sobre as ruas segurando numa ponta da corda arramada aos colchões enquanto outros, conduzindo os botes improvisados de borracha, eram levados pela corrente da enchente até as casas onde moradores pediam socorro. Em meio ao pânico gerado pelo desastre, eles eram transportados através do colchões que os rapazes da outra ponta da corda puxavam.

Como as correntezas que se formavam sobre a avenida Beira Rio eram violentamente fortes, por algumas vezes os salva-vidas voluntários acabavam derrubados dentro d’água. E, numa luta desproporcional contra a natureza, eram arrastados pelo fluxo por centenas de metros rio abaixo, até às proximidades das ruas Américo Vespúcio de Carvalho, Antônio Faria Alves e na ponte da rua Major Pereira, de onde saiam a duras braçadas e retornavam para continuarem outros resgates.

Moradores de Espera Feliz que possuíam barcos de pesca cediam-nos às autoridades policiais para que efetuassem outros resgates com os devidos protocolos de treinamentos de segurança. Estas operações duraram até boa parte do dia seguinte, quando o sábado amanheceu e revelou uma cidade quase completamente submersa pela catástrofe.

(Resgate com colchão inflável)

Sobre o autor

Farley Rocha é professor de Língua Portuguesa e Literatura das redes pública e privada de Espera Feliz. É cronista do site PortalEF e tem dois livros publicados, Mariposas ao Redor (2011) e Livre Livro Leve (2015).


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