Cidade Submersa – Capítulo I – Crônica de Uma Tragédia Inesperada

Capítulo I da série de reportagens documental "Cidade Submersa".

Publicado em 15/09/2020 - 11:29    |    Última atualização: 15/09/2020 - 15:12
 
Centro da cidade visto a partir do morro da rua Major Pereira

CAPÍTULO I

CRÔNICA DE UMA TRAGÉDIA INESPERADA

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A madrugada de 24 para 25 de janeiro de 2020 ficou tão drasticamente gravada na história de Espera Feliz que as futuras gerações ouvirão falar sobre ela como o momento mais intenso pelo qual a cidade já passou até então.

Porque a grande enchente ocorrida no verão deste ano, a maior já vista desde os fundadores, deixou reflexos não somente por onde as águas alcançaram, mas principalmente na memória de quem a testemunhou. Milhares de vítimas deste golpe da natureza, profissionais da linha de frente que acudiram a catástrofe e centenas de voluntários que doaram tempo, suor e coração ao socorro experimentaram suas maiores fragilidades diante do terror – mas também seus mais bem alicerçados pilares de coragem e fé.

Há vários anos que o Rio São João não transbordava. De modo que boa parte dos habitantes das áreas de risco não colocava mais as inundações como prioridade entre suas preocupações diárias. Tanto que os bairros João Clara e Santa Cecília, a avenida Beira Rio e a região da rua Major Pereira – todos em terrenos mais baixos próximos ao rio – acostumaram-se com suas rotinas sem maiores alardes quando chegavam as chuvas. Até que um dia tiveram a paz, a segurança e os bens materiais demovidos de forma brutal pelas mesmas correntezas que invadiram muitos outros locais da cidade.

De um instante para outro, os moradores precisaram abandonar às pressas suas casas e pertences, muitos apenas com a roupa do corpo. Em alguns pontos, a água chegou a atingir até 4 metros de altura, submergindo tetos, muros e pontes. Muitos se refugiaram em prédios públicos e religiosos. Os que moram em segundos e terceiros andares, embora aparentemente a salvos da tormenta, permaneceram por até 17 horas isolados, perplexos diante do que viam da pequena ilha de suas janelas, sacadas e terraços.

A capacidade avassaladora da enchente foi tão desmedida que mais de 80% da área urbana de Espera Feliz foi atingida, fora a destruição causada nas áreas rurais do município por onde o Rio São João percorre sinuoso, com pontes arrastadas, estradas bloqueadas e milhares de pés de café soterrados por inúmeros deslizamentos de encostas.

Nem mesmo nas duas enchentes folclóricas da cidade – uma ocorrida em 1979, a outra em 1997 – as águas avançaram tanto além das margens. A de 2020 chegou a cobrir quase 1 quilômetro de extensão longe do leito, atingindo locais até então impensáveis.

Historicamente, são comuns pequenos e médios alagamentos devido às ruas e casas que, ao longo de décadas, foram sendo erguidas próximas do leito. Mas presenciar a enchente se apoderar de locais de onde nem se é possível avistar pontes, como a rua Pio XII e a Praça Amenaide Vasconcelos Rocha, foi algo inédito até para os moradores mais antigos.

À população, extasiada e apreensiva com a enchente que se apossava de seus lares à mesma medida que enchia de incertezas aquela noite extraordinária de janeiro, só foi possível mensurar os danos e perdas no final da tarde seguinte, quando as águas enfim recuaram. Muitas ruas e avenidas tornaram-se verdadeiros pântanos de lama e destroços que afundavam até dois palmos os pés dos que caminhavam por elas, sem que pudessem acreditar no que viam.

Rua Sebastião Amaro da Silva.

Espera Feliz se encontrou pela primeira vez em absoluto estado de caos, que despertava em todos uma espécie de pranto coletivo. Havia troncos atravessados em vias públicas, móveis despedaçados no meio da rua, vitrines de blindex estouradas, automóveis e motocicletas empilhados, pontes interditadas, postes decepados e dezenas de casas demolidas pela ação violenta das correntezas. Diante de tantos estragos, a sensação era a de que a cidade tinha se reduzido a um verdadeiro cenário de guerra, uma caótica e lamacenta mistura de ruínas e terror.

Bairros inteiros que estiveram submersos transformaram-se num lodaçal escuro de aflição e escombros. Milhares de moradores perderam praticamente tudo. Eletrodomésticos, mobílias e computadores, inúteis devido à aniquilação da enchente, eram descartados feito carcaças de madeira, plástico e metal sobre as calçadas. O centro comercial, na região do Calçadão e adjacências, teve diversos estabelecimentos arrasados. Mercados, lojas, boutiques, farmácias, açougues e padarias tiveram seus estoques e equipamentos literalmente afogados em prejuízos. Agências bancárias, igrejas e estabelecimentos públicos também foram arrebatados pelo caminho das águas. Por conta da rapidez com que a enchente chegou, não houve sequer tempo para salvar papéis da prefeitura e de diversas secretarias municipais.

Nem as escolas passaram impunes. Equipamentos, arquivos e carteiras foram tomados pelo mesmo caldo terroso que penetrou portas e frestas expulsando para fora os donos de muitas casas.

No entanto, mais forte do que a fúria desoladora do Rio São João foi o senso de empatia e a capacidade de união dos esperafelicenses perante ao infortúnio do acaso. Mesmo com tantas perdas materiais, o povo se mobilizou imediatamente para que a vida voltasse ao que era antes, lavando e reconstruindo cada palmo desfigurado pela enchente. Movidos pelo mesmo instinto de esperança que a cidade traz impresso nas palavras do seu nome: “Espera Feliz”.

A Prefeitura Municipal, a Polícia Militar, o Ministério Público e outras autoridades que vieram de fora desempenharam com precisão cirúrgica um importante papel neste processo, tanto em relação à preservação de vidas e amparo aos atingidos quanto na reorganização da infraestrutura local. Por vários dias, diversos abrigos foram mantidos para acolherem os necessitados e, por mais de duas semanas, mutirões operaram nos trabalhos de limpeza e remoção de entulhos.

Sobretudo, a expressiva massa de voluntários que atuaram na causa foi determinante. Homens e mulheres se uniram em favor de um único propósito e, em pleno furor da tragédia, demonstraram o sentimento mais nobre que um povo pode ter: a solidariedade. Houve um enorme esforço em conjunto para que a ordem e a segurança da população fossem mantidas, até que o município pudesse funcionar novamente.

A cidade se mobilizou para a limpeza das casas, dos comércios e dos espaços públicos, distribuindo água potável, donativos e ajudando na manutenção dos abrigos. Especialmente a população do campo que, por ter sido um pouco menos atingida, não economizou esforço ao enviar caminhões, tratores e mão-de-obra para refazer Espera Feliz.

Foram dias difíceis aqueles que inauguraram 2020. Houve muita dor, muita perda e muita luta. Suores se envolvendo em lágrimas, sonhos desmanchando-se em poças. Mas, apesar das marcas, este acontecimento sem precedentes na história local também serviu para revelar que o outro tem a mesma importância a que se presta a si mesmo – e para comprovar de uma vez por todas o quão aguerrido são os filhos de Espera Feliz.

SOBRE O RELATO

A construção desta série de reportagem documental se baseia nas informações apuradas ao longo de 3 meses de pesquisas e mais de 40 entrevistas formais e informais realizadas com quem teve, direta ou indiretamente, alguma experiência ligada à inundação: vítimas, voluntários, militares, autoridades, agentes públicos e testemunhas. Isto é, trata-se de uma história contada sob o ponto de vista de quem a vivenciou de dentro.

As imagens fotográficas que ilustram cada capítulo não virão acompanhadas do nome de seus respectivos autores, apenas com legendas de identificação de locais. Pois como foram compartilhadas indistintamente em redes sociais, tornou-se impossível creditá-las. Por isso, com o máximo respeito aos que as fizeram antes, durante e depois da enchente, as que são apresentadas aqui foram gentilmente cedidas por diversos colaboradores, reproduzidas de seus acervos pessoais. Acrescidas às informações do texto, cada imagem desempenhará um importante papel na composição deste trabalho, pois trata-se de cenas reais que permitirão aos tempos futuros terem alguma noção do que foi aquele janeiro de 2020.

Para compor uma sequência narrativa, a redação foi estruturada em três eixos temáticos: contextualização histórica e geográfica de Espera Feliz e do Vale do Rio São João; dia em que ocorreu a enchente; e as semanas que sucederam a tragédia. Embora seja um trabalho de viés jornalístico, há nuances do olhar de cronista no trato com a linguagem como tentativa de reproduzir frações do que muitos sentiram durante o evento. Serão 15 capítulos publicados em episódios diários no site do Portal Espera Feliz ao longo das próximas duas semanas.

Sobre o título, foi necessário eleger uma expressão que reconstituísse a legítima dimensão do ocorrido. Por isso a escolha de “Cidade Submersa”, já que uma considerável porção da área urbana de Espera Feliz ficou, literalmente, debaixo d’agua. Em relação à “crônica” que abre o subtítulo, o termo foi empregado, aqui, no sentido de compilação de fatos testemunhados numa determinada época, para deixar cristalizado o que foi visto, sentido e, principalmente, vivido por um povo. Por isso, ao longo dos anos este trabalho poderá servir como um documento histórico sobre este momento em particular.

Assim, Cidade Submersa – Crônica da Grande Enchente de 2020 refere-se tanto à experiência assombrosa pela qual a população passou quanto ao evento de proporções quase bíblicas que ficará para sempre marcado na história de Espera Feliz.

Sobre o autor

Farley Rocha é professor de Língua Portuguesa e Literatura das redes pública e privada de Espera Feliz. É cronista do site PortalEF e tem dois livros publicados, Mariposas ao Redor (2011) e Livre Livro Leve (2015).


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