É possível estar errado com razão?

Texto de Elcio Gomes de Souza.

Publicado em 11/04/2020 - 12:41    |    Última atualização: 11/04/2020 - 12:41
 

O questionamento levantado no título do texto parece um paradoxo, mas é a interpretação racional das palavras e ações do homem. Sabemos que errado é antônimo de certo, ou seja, “que não há erro”, “certeza”, “que não deixa dúvidas”; enquanto que a razão “é a faculdade da mente humana que permite chegar a conclusões a partir de suposições ou premissas”.

Diante da ideia acima, pode-se concluir que minha transcrição pode ser falsa, mas possuir um fundo de razão. Não quero aqui fazer surgir um questionamento filosófico, apenas desejo valer a pena meu período de quarentena.

Nos últimos anos, o país se encontra enfurnado em uma discussão sem fim sobre partidarismo, direita X esquerda, Bolsonaro X Hadad, Moro X Lula. A grande questão entre esse tipo de debate é o fato dele ser infrutífero, cansativo, chato e odioso.

Quando reduzimos a discussão política para um campo de batalha com apenas dois horizontes, deixamos de contemplar as diversas outras opções existentes. Não enxergamos, às vezes, o óbvio e acabamos nos tornando Ciclopes (figura da mitologia grega que possuía apenas um olho no centro da testa).

Bolsonaro, em seu pronunciamento à nação no último 23/03, pôde demonstrar que é possível estar errado com razão. Como assim? O Presidente estava errado quando foi contra todas as orientações dadas pelas organizações de saúde. Cometeu talvez uma dos maiores atrocidades até agora no planeta, ao incitar seus seguidores a irem para as ruas e manifestarem das mais variadas formas. Talvez por isso foi intitulado o “líder negacionista do coronavírus”. Nem o idolatrado Trump foi tão feroz e louco como ele. Pelo contrário, o líder “apache” reconheceu que estava errado na sua primeira avaliação em relação a pandemia em solo americano.

Se tivesse que comparar Bolsonaro a algum líder, com certeza seria Nero. Não resta dúvidas que nosso “comandante” aproximou à insanidade do imperador romano que, dentro de suas atrocidades, matou a mãe, o irmão e colocou fogo em sua cidade – lembrando que o “louco” romano tocava lira enquanto a cidade ardia em chamas.

Veja bem, não estou querendo dizer que Bolsonaro é louco, pois sabemos que isso ele não é. E também não quero de forma alguma criticá-lo como Presidente. Ele foi eleito com este discurso e com ele está governando. Mas por que Bolsonaro tem razão?

Simples: em seu discurso ele fala que se não voltarmos a trabalhar o caos econômico será tão devastador ou até mais que a pandemia que nos assola. Ele está coberto de razão, pois os impactos econômicos poderão ser altamente letais. Corremos risco de uma recessão e um índice de desemprego nunca vistos na história.

Então nos encontramos em um dilema: ou morremos por falta de vagas em hospitais lotados em virtude de não termos guardado a quarentena ou morremos por causa do caos econômico e desemprego generalizado. O que fazer? Morrer com falta de ar ou morrer de fome?

Existe um jogo chamado dilema do prisioneiro, atividade muito utilizada entre a Teoria dos Jogos (leia sobre). Nele temos a situação de dois suspeitos que são presos, porém a polícia não tem provas suficientes para condená-los; esses suspeitos ficam em celas separadas e sem contato algum, então eles precisam decidir entre trair ou cooperar com a polícia e isso tem algumas vantagens ou consequências. A dinâmica do jogo é a seguinte:

• Se um suspeito confessar: ele sai livre e o outro pegará 10 anos de prisão;
• Se ambos ficarem em silêncio, pegarão 1 ano de prisão cada um;
• Se ambos confessarem, pegarão 5 anos de prisão cada um.

Evidente que a escolha mais vantajosa é a que ambos fiquem em silêncio. Isso demonstra que a escolha individual não é o melhor para ambos.

Quando pensamos apenas em nossas vontades, teorias, desejos e achismos, acabamos fazendo a pior escolha.

Quando Bolsonaro opta em fazer o discurso minimizando os danos da COVID-19, incitando pessoas e dando o exemplo errado do que deve ser feito, posicionando contra seu ministro da Saúde, faz uma escolha individual e comete um erro grave. Quando Bolsonaro fala que se não voltarmos ao trabalho corremos risco de encararmos problemas econômicos capazes de causar um estrago tão grande quanto o vírus tem causado por onde tem passado, pensa na coletividade e ele tem razão.

Em princípio, prefiro seguir as orientações do ministro da saúde, permanecendo isolado e tomando as precauções necessárias.

É possível estar errado com razão? Sim.

Por Elcio Gomes de Souza.

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SOBRE O AUTOR
Elcio Gomes de Souza, formado em Matematica e Ciências Contábeis, pós graduado em Estatistica pela Universidade Federal de Lavras e em Gestão Pública na Escola de Contas Pedro Aleixo. Professor de Matemática no Estado de Minas e Servidor do Município lotado no Fundo de Previdência.


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