Três discos “estranhos” de três bandas nacionais dos anos 80 lançados nos anos 90

Publicado em 04/02/2016 - 11:02    |    Última atualização: 11/02/2016 - 14:27

Os discos aqui citados talvez tenha sido uma tentativa "desesperada" dessas bandas se manterem na ativa.

Primeiramente, gostaria de explanar aqui neste primeiro parágrafo, que meu intuito NÃO É enaltecer as bandas dos anos 80 que citarei a seguir, pois, tudo o que tinha de ser dito (ou pelo menos quase tudo) a respeito já está amplamente divulgado por aí nas revistas, livros, internet, etc. Todo o “boom”, o “oba-oba”, a ascensão e declínio dos principais grupos do rock brasileiro já foram bastante remoídos.

O meu interesse é falar de três discos lançados na primeira metade dos anos 90 por três grupos diferentes e muito famosos dentro da cena da década anterior, mas que curiosamente, ou caíram no ostracismo, ou venderam pouco, ou não foram bajulados pela crítica, ou “ninguém” ouviu falar deles (por isso o adjetivo “estranhos” no título). Mas o principal: Todos são excelentes ou no mínimo muito bons.

O texto continua após a publicidade...

Titãs+-+Titanomaquia+-+Front[1]

O primeiro: “Titanomaquia”, do TITÃS. Eu sou um entusiasta de toda cena oitentista, porém, nunca engoli os TITÃS, nunca curti a banda e sempre os achei pretensiosos demais. Nove cabeças que no meu ponto de vista fizeram discos irregulares. Todos, com exceção do “Titanomaquia”, lançado em 1993. Depois do mais-que-horroroso “Tudo ao mesmo Tempo Agora”, de 1991, onde os caras seguiram à risca a cartilha de como conseguir desgraçar um disco; eis que os rapazes tomam uma postura: Chamam o Jack Endino (famoso produtor de bandas grunge de Seatle, tendo, inclusive, produzido o primeiro álbum do NIRVANA, e até o “Skunkworks” do BRUCE DICKINSON); entram em estúdio e saem de lá com um discão de rock com guitarras pesadas, com um pé no grunge e outro no hard rock. Resultado: É o primeiro disco da banda puramente rock n’ roll, com músicas muito bem sacadas como “”Disneylândia” e “A Verdadeira Mary Poppins”, mas porém, que dividiu os fãs, ficou longe de ter tido o alcance de vendas dos primeiros álbuns e soou deslocado entre a discografia do grupo. Mas uma coisa é certa: embora não possua nenhum ‘clássico’ radiofônico, é o melhor disco da banda entre os amantes do som pesado e um dos melhores da década de 90, que se tratando de rock no Brasil, foi uma tristeza só.

Capa[1]

O segundo: “PAULO RICARDO & RPM”, álbum autointitulado o qual é considerado na verdade o terceiro disco de estúdio do RPM, lançado em 1993, e sem a presença do tecladista Luiz Schiavon. Por razões judiciais a bolacha não pôde ser lançada simplesmente como “RPM”.

Sempre fui fã do RPM e achei digno o alcance rumo às estrelas que o grupo alcançou nos anos 80. A dupla de compositores Paulo Ricardo e Schiavon tinham exatamente a ideia de como constituir um conceito em torno de uma banda de rock e sempre compuseram temas consistentes. O resultado foi o primeiro disco, recheado de excelentes canções. Pena que o megassucesso do RPM foi também um dos causadores de sua ruína. Mas tá. E esse tal de “PAULO RICARDO & RPM”? Pois é! Sempre tive preconceito quando ouvia falar desse disco, pois como a década já era outra e eu já estava quase tendo ataques ouvindo nas rádios Paulo Ricardo solo cantando aqueles temas bregas, eu passei a ter a convicção que o disco se tratava justamente disso: “Um álbum de músicas bregas cantadas por Paulo Ricardo tendo como acompanhantes os instrumentistas do RPM”. Ledo engano! Na verdade se trata de um álbum puramente hard rock, com temas densos e a guitarra do Fernando Deluqui sempre à frente. É nesse disco que você vê como o guitarrista do RPM sempre foi relegado à segundo plano durante a carreira da banda até ali. O disco é pesado (nessa época, propositalmente, o grupo quis se desvincular daquela sonoridade tão característica que eles faziam nos anos 80), têm musicas excelentes como “Pérola”, “Hora do Brasil” e a linda ‘power balada’ “Veneno”, que você ouve, ouve, ouve e nunca se cansa. Essa é uma das músicas mais bonitas já feitas por uma banda de rock brasileira, e o disco, num todo, poderia se tornar um clássico. Continuam ali as excelentes letras de Paulo Ricardo, o instrumental reformulado e uma “nova” estética musical. Mas é 1993, outra década, outras exigências de mercado, outra história… É um disco que imagino que cairia muito bem se fosse cantado em inglês, e é uma pena que poucos conheçam essa obra.

capa_rua-47[1]

O terceiro: “Rua 47”, CAPITAL INICIAL. Lançado em 1995, este disco sim é estranhamente uma pérola. Dinho Ouro-Preto saiu da banda em 1993, voltou em 1998, e ninguém nem se deu conta de que o vocalista tinha ido dar uma volta. Nesse ínterim, a banda contratou um excelente vocalista, um tal de Murilo Lima para ocupar o lugar deixado por Dinho Ouro-Preto. Resultado: Em pleno anos 90, em meio aos axés da vida, breganejos e pagodeiros, a banda grava por um Selo próprio o disco mais pesado da banda, indo (sem exagero!) do heavy metal ao grunge, com letras nada comerciais. E sem nenhum pudor. O disco é excelente e o vocalista Murilo Lima com seu vocal potente esmaga -no bom sentido – sem piedade as músicas. O álbum conta com músicas como “Desdemona” que tem os seguintes versos: “Eu estou para você como um anjo para a cruz / Você está em mim como as trevas para a luz”, e diversas outras canções com letras sombrias, uma bateria que mais parece uma marreta batendo em concreto, e com o acompanhamento de uma parede pesada de guitarras. Um ano depois, a banda ainda gravou, com Murilo Lima nos vocais, o excelente “Capital Inicial ao Vivo 96”, em santos/SP, no qual músicas como “Fátima”, “Independência”, “Kamikaze”, “Música Urbana” ganharam uma nova roupagem; puxadas para o metal.

O CAPITAL INICIAL ignora completamente o “Rua 47” e até pouco tempo atrás nada se sabia do ex-vocalista Murilo Lima. Era frequente na internet perguntas como: “Por onde anda Murilo Lima?”, “Em quais bandas ele cantou antes?”, etc. Hoje já se tem mais informações sobre o músico. Ele cantava numa banda chamada RÚCULA, é santista, atualmente trabalha como musico solo, e o próprio em entrevista para um site afirma sobre “seu legado positivo para o CAPITAL INICIAL, deixando a banda mais pesada e com identidade; e que na época faziam um som para outro tipo de público, o que não acontece mais hoje”.

Como eu já disse acima, o “Rua 47” é um álbum excelente e é uma pena que nem os “fãs” do CAPITAL INICIAL não o conheça, e que ele tenha sido relegado ao ostracismo.

É fato que os anos 90 não foram fáceis pra ninguém. Cada banda oriunda dos anos 80 tinha que abrir mão de algum expediente para tentar sobreviver. À exceção do TITÃS que apesar de todos os pesares conseguiu virar a década como um dos principais grupos do Brasil, mesmo com toda a turbulência do mercado; mesma sorte não aconteceu com o RPM e CAPITAL INICIAL. Os discos aqui citados talvez tenha sido uma tentativa “desesperada” dessas bandas se manterem na ativa. O curioso é que as três optaram por irem à contramão, lançado discos “difíceis” num país onde o rock se tornara uma criatura estranha. E isso foi um ponto fora da curva para esses grupos, ou, dentro da curva, dependendo da perspectiva de quem vê.

Por Paulo Faria

Deixe seu comentário