Resistência

Publicado em 04/12/2018 - 11:58    |    Última atualização: 04/12/2018 - 11:58

Os resistentes são um povo tão atento que encontram fascismo até em propaganda de refrigerante.

No momento em que este que vos escreve preparava um texto sobre o povo engajado na “resistência”, eis que o jornalista J. R. Guzzo, com todo seu brilhantismo, nos presenteia com um excelente artigo batizado de “Resistentes”, publicado na edição impressa da revista Veja, da semana passada.

No citado artigo, Guzzo desconstrói o teatro travestido de engajamento dos perdedores que de birra estão resistindo… a nada! É como o jornalista narra fantasticamente numa das passagens do artigo: “não se trata simplesmente de fazer oposição. Trata-se de anunciar ao Brasil que os derrotados não aceitam o resultado estabelecido pelos eleitores; não valeu, dizem eles, porque só a gente tinha o direito de ganhar. A palavra “resistência” soa bonito, como em filme americano de guerra, mas naturalmente não é nada disso. É como se não tivesse acontecido nada em 28 de outubro de 2018 — ou, mais ainda, é como se Bolsonaro tivesse perdido as eleições e o PT tivesse ganhado. O resultado é o que aparece todo dia no noticiário: uma coleção de alucinações, que a imprensa quer desesperadamente que você leve a sério, apresentadas como se fossem ações de combate contra o “avanço do fascismo” etc. etc. Que ações? Que combate? Vai saber. Qualquer coisa serve”.

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É isso aí; “qualquer coisa serve”, porque o que importa mesmo, no Brasil de hoje, é ser um militante disfarçado de combatente. E embora J. R. Guzzo, em linhas gerais, tenha falado sobre os resistentes “empoderados”, aqui, tratarei de discorrer sobre os resistentes “médios”.

Nossos resistentes médios, que estão alguns degraus abaixo de Felipe Neto (???), Kéfera (???) e outras nulidades mais, já se encontravam resistindo antes mesmo da atual “resistência”. Uma safra mais antiga estava lá, durante o escândalo do Mensalão, vociferando contra o ministro Joaquim Barbosa que enquadrava de jeito o núcleo duro do PT.

Já a safra mais nova destes resistentes médios nasceu junto com as redes sociais, aqui no Brasil. (Muitos usavam frauda na época do Mensalão Petista e acredite, quando muito se informam sobre, acham que tudo foi uma conspiração da CIA e do ‘Grande ‘Capital para derrubar um governo popular dos pobres…). Estes revolucionários de teclado têm muita dificuldade em lidar com o contraditório, e acham um charme atacar o indivíduo quando não conseguem atacar a ideia. Verdades inconvenientes então os fazem entrar numa pane histérica.

Um resistente médio tem horror ao conservadorismo religioso, mas não se importa em recitar os versículos sagrados criados por líderes de seita: “Não vai ter golpe”, “Golpistas não passarão”, “Coxinha”, “Fora Temer”, “Diretas Já!” (em 2016, é sério…), “Eu luto contra a cultura do estupro”, “Se fere minha existência eu serei resistência”, “O povo quer Lula livre”, “Eleição sem Lula é fraude”, “#elenão”… e por aí vai. Tudo parido no mesmo ninho; tudo recitado pela mesma turma.

Como prova, é só observar que os entrincheirados do Facebook são os mesmíssimos que têm em Guilherme Boulos um pacifista ao invés de um terrorista; em Haddad um exímio professor e gestor ao invés de um prontuário de 32 processos; em Lula uma viva alma mais honesta do mundo ao invés de um ladrão compulsivo. É um povo tão atento que encontra fascismo até em propaganda de refrigerante.

Os resistentes estão em toda parte, mas uma quantidade considerável está na universidade, e por isso, e só por isso, muitos acreditam piamente que um diploma ou o meio acadêmico lhes conferem o monopólio da razão e da verdade absoluta. Para estes destemidos resistentes tropicais o que vale é a “pauta do dia”; se a ordem do momento é pregar na testa “resistência”, que haja resistência então. Tudo pela luta; tudo pela causa.

O grande problema é que esta “luta” nunca foi pelos direitos dos negros, dos gays, das mulheres, dos pobres ou contra o fascismo. (Até porque, quem passou qualquer procuração para que supostos movimentos sociais falassem em nome de várias minorias? E mais: esse pessoal só gosta de tutelar mesmo o negro ou gay que estão dentro da mesma bolha ideológica. Os que estão fora da “caixinha”, geralmente são presenteados com termos doces como “capitão do mato” ou “bicha fascista”). Também nunca foi contra o ódio. (Basta discordar minimamente dessa turma que logo você é vítima de outro tipo de ódio: “o do bem”). A luta é e sempre foi pela manutenção da hegemonia ideológica e pela conservação do status quo petista. O ‘Lula livre’ de ontem é o ‘herói da resistência’ de hoje.

J. R. Guzzo tem razão: “É só uma questão de superioridade moral que os derrotados atribuem a si próprios”.

Por Paulo Faria.

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