E de repente…

Publicado em 05/06/2019 - 10:05    |    Última atualização: 05/06/2019 - 10:08

E de repente você percebe que tudo, apesar de consistente, é fluído ou dissipado pelo tempo.

e de repente...

E de repente você sente falta do seu pai; e de repente você sente falta do seu cachorro preto com manchas brancas; e de repente você sente falta dos desenhos animados que marcaram sua infância; e de repente você sente falta dos chicletes e dos álbuns de figurinhas; e de repente você tem saudade da Phoebe Cates com 18 anos; e de repente você sente falta daqueles amores ou paixões que nunca irão se concretizar; e de repente você sente falta daquela garota que fitou nos seus olhos ao cruzar pela calçada, e que você nunca mais teve a oportunidade de falar um “oi”; e de repente você sente falta daquela casa antiga no alto do morro que nem existe mais; e de repente você sente falta da sua turma da 8ª série; e de repente você também sente falta da sua turma da 4ª série, cujos colegas você nem consegue mais se lembrar dos nomes; e de repente você sente falta das rodas de violões rolando Legião Urbana depois da escola (e antes dela e até durante); e de repente você sente falta de caminhar pelos caminhos empoeirados com um amigo, contado histórias e estrelas; e de repente você sente falta de dormir ao som dos grilos e dos sapos; e de repente você sente falta observar a chuva pela janela do ônibus; e de repente você sente falta de uma conversa trivial com algum tio seu analfabeto, mas que é expert em humildade e “vida”; e de repente você sente falta de ter que esperar seus pais dormirem para poder ter ligar a TV de madrugada; e de repente você sente falta do prazer de copiar aquela fita K7 rara daquela banda que quase ninguém conhece (ia); e de repente você sente falta de apenas ficar olhando o pôr do sol do alto da sua casa; e de repente você sente falta de ficar chutando pedras pela estrada à noite depois da reza de novena de natal; e de repente você sente falta do aroma do café secando no terreirão; e de repente você sente falta do café da sua vó; e de repente você sente falta da sua vó; e de repente você sente falta daquele fim de tarde frio do mês de maio sentado na varanda; e de  repente você sente falta de estar ouvindo Renato Russo em italiano aos 14 anos numa tarde de junho cinzenta; e de repente você percebe que tudo, apesar de consistente, é fluído ou dissipado pelo tempo: a carne, os amores, os amantes, os amigos, o cachorro, a música, as lembranças… O tempo; este deus que se encarrega de colocar tudo em seu devido lugar. Até o fim…

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Por Paulo Faria.

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