Afinal, gente boa também mata?

Publicado em 05/01/2017 - 14:47    |    Última atualização: 05/01/2017 - 14:52

O "cidadão de bem" se choca quando alguém lhe aponta o dedo e diz que ele pode causar tanto estrago quanto um bandido.

Como já é de costume, as redes sociais brasileiras se escandalizaram com algum assunto. O desta semana foi a campanha “Gente boa também mata”, lançada pelo Ministério dos Transportes. A ação visava alertar para acidentes de trânsitos que podem ser causados por “pessoas de bem” num momento de descuido.

Veiculada desde o final do ano passado, a campanha vem recebendo inúmeras críticas e atingiu seu ápice de polêmica nesta semana. No vídeo e nos cartazes, a campanha traz frases como “Quem planta árvores pela cidade”, “Quem faz trabalhos voluntários”, “Quem resgata animais na rua” e “O melhor aluno da sala” com o complemento “pode matar”. (Assista ao vídeo).

Como já era de se imaginar, o “mi mi mi” contra e a favor tomou conta das redes, culminando num recuo do governo, que decidiu tirar parte da campanha do ar.

Mas, afinal de contas, qual o grande problema com esta campanha? Gente boa não mata?

Você pode acusar a campanha de ter mau gosto, de ter uma mensagem confusa ou de ter sido mal executada. OK. Não sou publicitário para julgar estes aspectos. O problema é que a grande maioria das críticas não vieram destes pontos de vista!

Alguém que achou a mensagem confusa – e por consequência não a entendeu – não tem do que se queixar. Mau gosto até pode ser criticado, mas o “gosto”, como já diziam meus amigos de infância, é igual o órgão excretor: cada um tem um. E má execução, de novo, não creio que todo mundo que está criticando seja perito em marketing e/ou publicidade.

Até mesmo uma possível ambiguidade do texto não foi o ponto central das lamúrias. Veja que se você entender a palavra “pode” como “está autorizado a”, a campanha na verdade se torna o oposto do que deveria. Ela passa a dizer que alguém que é gente boa tem autorização para matar.

Mas até se este fosse o foco principal das reclamações, não passaria de uma idiotice preciosista. Qualquer retardado sabe qual dos dois sentidos a campanha deseja empregar à frase.

O que incomodou os “cidadãos de bem” (sempre responsáveis pelas revoltas virtuais) foi alguém lhes apontar o dedo e falar: você pode, sim, matar alguém no trânsito, mesmo sendo uma pessoa legal.

Claro que eu entendo esta indignação. Eu sou um cara legal, honesto e trabalhador. É chato alguém chegar e dizer que eu posso ser um assassino.

É chato, mas não é mentira! Eis a questão. A população brasileira – sobretudo esta que habita os textões de Facebook – se ofende demais. E nem vou entrar no mérito do politicamente correto extremista, que tão mal tem feito às pessoas. Vou focar no básico e superficial. Basta dizer “umas verdades” que logo aparecem vários ofendidos. As pessoas na internet viraram bebezões que não aceitam nenhuma crítica e tudo querem se queixar pra mamãe.

Críticas e exposições da realidade são muito bem vindas, desde que se apliquem ao outro e não a mim.

Quer um exemplo similar a este? Imagine que esta campanha, ao invés de trânsito, fosse contra a violência gerada pelo tráfico. Agora imagine que as frases fossem: “Quem compra maconha do amigo também mata”, ou “Quem fuma um baseado ‘inofensivo’ também mata”.

Pense bem: você acha que haveria essa indignação toda contra uma campanha dessas? Tenho certeza que não!

– “Ah, mas maconheiro é bandido… É diferente!”

Eis a explicação para a indignação do “cidadão de bem”. Ele não aceita a verdade que ele possa causar um mal tão grande – ou até maior – do que aquele indivíduo que ele considera um bandido. Choca. Ofende. Então ele faz beicinho e se revolta na internet.

A campanha é ruim? Mal feita? Mal pensada? Pode ser que sim… Mas sua premissa é irretocável! É verdadeira. E é necessário que se diga!

GENTE BOA TAMBÉM MATA, SIM!

Por Gustavo Almeida.

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